Documentos e registros de tesouraria mostram pagamentos expressivos vinculados à captação de recursos públicos estaduais destinados à aposentadoria de servidores, mobilizando autoridades federais na Operação Compliance Zero
Uma investigação publicada na sexta-feira (16 de outubro) pelo portal UOL revelou que a Amapá Previdência (AMPREV) aplicou recursos milionários no Banco Master, levantando suspeitas sobre os bastidores dessas operações. Assinada por Fábio Serapião, Natália Portinari e Cézar Feitoza, a reportagem detalha que mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do empresário Daniel Vorcaro expõem negociações com dirigentes e lideranças políticas. O material traz à tona articulações para viabilizar investimentos de verbas destinadas à aposentadoria de servidores públicos, evidenciando um complexo esquema de intermediação financeira e política. A revelação principal aponta a existência de conversas que mencionam o pagamento de R$ 11 milhões em comissões no estado, além da influência de cúpulas partidárias nacionais.

De acordo com os dados obtidos, as tratativas para a aplicação de R$ 400 milhões começaram meses antes da aprovação oficial do montante pelo colegiado estadual. As conversas mostram que, em abril de 2024, o diretor comercial do Banco Master, Fernando Mascarenhas, já articulava a captação no Amapá com Vorcaro. Em julho do mesmo ano, discussões internas revelaram uma ordem temporária para segurar as operações devido à repercussão de notícias sobre títulos da instituição financeira. Nesse momento, o tesoureiro Alberto Felix atribuiu a Antônio Rueda, presidente nacional do União Brasil, a orientação para pausar as movimentações. Logo em seguida, Rueda teria pedido a Vorcaro que apagasse o histórico de mensagens, embora parte dos repasses tenha sido confirmada com a aprovação inicial de R$ 200 milhões.


O ponto mais sensível da investigação diz respeito ao registro de comissões milionárias associadas diretamente às operações financeiras conduzidas no estado amapaense. Em julho de 2024, registros internos indicavam uma consultoria ligada a Ricardo Siqueira Rodrigues, apontado como lobista do empresário em outras praças. No dia 1º de agosto, a tesouraria do banco registrou formalmente o pagamento de R$ 11 milhões em contas a pagar, identificados nas conversas como comissão vinculada ao Amapá. Vale ressaltar que, nesse exato momento, a AMPREV já havia transferido R$ 300 milhões para a instituição financeira privada. Documentos levantados questionam a real justificativa para esses pagamentos e quem seriam os beneficiários finais, embora o registro não comprove desvio direto do patrimônio previdenciário.

A gestão do comitê responsável por referendar as aplicações também entrou no radar das autoridades federais por conta de suas conexões políticas estratégicas. O colegiado que aprovou o aporte de R$ 400 milhões era presidido por Jocildo Silva Lemos, ex-tesoureiro de campanha e indicado político do senador Davi Alcolumbre, presidente do Senado. Embora as mensagens citem figuras de peso como Antônio Rueda e o vice-presidente do União Brasil, ACM Neto, a investigação aponta que não há provas diretas de envolvimento de Alcolumbre. Rueda e ACM Neto negaram veementemente irregularidades, sustentando que os recursos recebidos por seus escritórios decorreram exclusivamente de serviços advocatícios e de consultoria devidamente contratados, documentados e tributados.

O caso integra o escopo da Operação Compliance Zero, que busca esmiuçar o fluxo de capitais e as suspeitas de irregularidades envolvendo o Banco Master e entes públicos. A Polícia Federal chegou a solicitar medidas de busca e apreensão contra os dirigentes partidários com base em uma proposta de delação de Vorcaro, mas o pedido foi negado pelo Supremo Tribunal Federal. Para especialistas e órgãos de controle, a prioridade absoluta agora é auditar contratos, notas fiscais e atas do comitê da AMPREV. O objetivo central consiste em apurar se as decisões foram tomadas estritamente com base em critérios técnicos de proteção ao patrimônio ou se sofreram interferências externas indevidas.

As revelações expõem a fragilidade e os riscos na gestão de fundos de pensão públicos, colocando em xeque a segurança financeira dos servidores estaduais do Amapá. A repercussão do caso amplia a pressão social por transparência radical na administração de recursos que garantem o futuro de milhares de famílias trabalhadoras. Especialistas em previdência pública alertam que a opacidade em investimentos dessa envergadura compromete a sustentabilidade a longo prazo dos institutos regionais. Enquanto as investigações prosseguem na esfera federal, afetados e cidadãos exigem respostas definitivas sobre o paradeiro e a destinação das verbas públicas aplicadas no mercado financeiro.

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