Macapá (AP) — Segunda-feira, 01 de junho de 2026
Esquecido no espaço por crise política, astronauta soviético viajou para o próprio futuro
Odisseia do “último cidadão soviético” durou 311 dias na estação Mir e revelou como as altas velocidades espaciais transformaram o astronauta esquecido no primeiro viajante do tempo real

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
29/05/2026 | 13h09
Em 25 de março de 1992, o cosmonauta soviético Sergei Krikalev retornou à Terra, no Cazaquistão, após passar 311 dias a bordo da estação espacial Mir, tornando-se o protagonista de um dos episódios mais singulares da exploração espacial ao viajar 0,02 segundos para o futuro devido à alta velocidade orbital e, ao mesmo tempo, pousar em um planeta geopoliticamente transformado, já que a União Soviética havia colapsado durante sua missão. O retorno do astronauta, que partira em maio de 1991 e acabou esquecido temporariamente em órbita por causa do colapso burocrático e financeiro de seu país natal, só foi viabilizado porque a Alemanha financiou uma missão de resgate de 24 milhões de dólares, resolvendo um impasse histórico que misturou o fim da Guerra Fria com a comprovação prática da física moderna.

A odisseia do militar e engenheiro mecânico de 33 anos começou com uma rotina de pesquisas científicas e terminou em um vácuo político. Enquanto Krikalev realizava experimentos a cerca de 400 quilômetros de altitude, os tanques avançavam por Moscou, o império soviético se fragmentava em 15 repúblicas independentes e a inflação corroía o orçamento da agência espacial. Sem recursos para enviar uma nave de substituição na data prevista, os controladores de solo pediram que ele estendesse sua permanência ao limite. O astronauta, demonstrando uma resiliência extraordinária, aceitou o risco de ver seu corpo sofrer com a prolongada exposição à microgravidade enquanto seu passaporte e sua própria identidade nacional deixavam de existir na superfície.

A permanência forçada no espaço transformou Krikalev em uma espécie de náufrago cósmico, apelidado pela imprensa internacional de “o último cidadão soviético”. “O suporte terrestre simplesmente evaporou e as comunicações ficaram confusas”, relembrou anos mais tarde em entrevistas sobre o período de isolamento. O drama humano ganhou contornos de ficção científica quando cientistas calcularam o impacto físico de suas jornadas. Ao longo de sua carreira, que incluiu missões posteriores, ele acumulou 803 dias, 9 horas e 39 minutos em órbita, deslocando-se a uma velocidade constante de aproximadamente 27.000 quilômetros por hora. Essa velocidade extrema fez com que o cosmonauta experimentasse na pele a Teoria da Relatividade de Albert Einstein por meio do efeito de dilatação do tempo.

Do ponto de vista da física quântica e astronômica, relógios situados em objetos que se movem a velocidades muito elevadas em relação à Terra funcionam de forma ligeiramente mais lenta. Ao final de sua trajetória profissional, Krikalev envelheceu exatamente 0,02 segundos a menos do que toda a humanidade que permaneceu em solo. Ele viajou, tecnicamente, para o próprio futuro. Essa constatação científica impressionante e quase poética inspirou o astrônomo e escritor Colin Stuart a construir uma das apresentações didáticas mais assistidas da plataforma educacional TedEd, demonstrando como o tempo é maleável e como o espaço pode isolar um homem não apenas geograficamente, mas também cronologicamente.

O resgate daquele isolamento político e científico só ocorreu quando o governo alemão injetou o capital necessário na cambaleante economia russa para garantir uma vaga para o astronauta na cápsula de retorno Soyuz TM-13. Quando Krikalev finalmente sentiu a gravidade terrestre e saiu da escotilha, exausto, pálido e com o uniforme exibindo a bandeira vermelha da foice e do martelo, ele encontrou um cenário radicalmente diferente daquele que havia deixado dez meses antes. A cidade de Leningrado, onde nascera, voltara a se chamar São Petersburgo e a bandeira tricolor da Federação Russa tremulava no Kremlin.

Apesar do trauma psicológico e do desgaste físico de ter ficado confinado no espaço o dobro do tempo planejado originalmente, o cosmonauta recusou a aposentadoria precoce e continuou a escrever seu nome na história aeroespacial. A sua vasta experiência em lidar com crises em ambientes extremos fez com que ele fosse requisitado tanto pela Roscosmos quanto pela agência espacial norte-americana, a Nasa, atuando como uma ponte viva no período de cooperação pós-Guerra Fria. Krikalev integrou a primeira equipe de montagem da Estação Espacial Internacional (ISS) em 1998 e, no ano de 2000, fez parte da histórica Expedição 1, que inaugurou a ocupação humana permanente do novo complexo orbital. Reconhecido mundialmente por sua capacidade técnica, ele foi condecorado com os títulos máximos de Herói da União Soviética e Herói da Rússia, unificando em seu peito as honrarias de dois mundos que ele mesmo ajudou a conectar através do tempo.




