Macapá (AP) — Terça-feira, 01 de setembro de 2026
Fenômeno raro e inédito revela buraco negro devorando estrela longe do centro de galáxia distante
Com apoio do satélite Swift, pesquisadores detectam clarão extraordinário e comprovam a existência de buracos negros supermassivos atuando fora do eixo principal das galáxias

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
04/08/2026 | 10h58
Astrônomos da Nasa e de instituições internacionais confirmaram a descoberta de um fenômeno cósmico raro e sem precedentes: um buraco negro gigante devorando uma estrela em uma galáxia distante a 750 milhões de anos-luz da Terra, em um ponto localizado fora do núcleo galáctico. A observação foi realizada por uma força-tarefa de observatórios espaciais e terrestres — liderada pelo satélite Neil Gehrels Swift, da agência espacial americana — e os detalhes científicos foram publicados na segunda-feira (27) no periódico The Astrophysical Journal Letters pelo astrofísico Robert Stein. O achado valida uma nova abordagem de varredura espacial ao comprovar que eventos de destruição estelar por forças gravitacionais extremas, conhecidos como eventos de ruptura de maré, podem ocorrer longe do centro das galáxias, onde até então se acreditava estarem restritos todos os colossos gravitacionais conhecidos.


A intrincada sequência de detecção começou ainda em novembro de 2025, quando um levantamento astronômico conduzido pelo Observatório Palomar, no sul da Califórnia, identificou um brilho atípico emanando de uma região periférica de uma galáxia distante. O clarão ultrabrilhante chamou a atenção dos pesquisadores pela sua intensidade e comportamento óptico singular. O pulso de radiação era a assinatura inequívoca de uma estrela sendo despedaçada e gradualmente absorvida — um processo em que a matéria estelar é esticada e superaquecida pela atração gravitacional implacável de um buraco negro monstruoso, cuja massa equivale a cerca de um milhão de vezes a massa do nosso Sol.


Para desvendar a natureza exata do clarão, a equipe internacional ativou uma rede global de instrumentação avançada. Inicialmente, o telescópio SOAR (Southern Astrophysical Research), localizado no Chile, foi acionado para analisar a composição espectral da luz emitida. Os dados obtidos em solo chileno corroboraram a hipótese inicial de ruptura de maré, descartando fenômenos convencionais como explosões de supernovas. No entanto, para obter uma confirmação incontestável, era preciso observar comprimentos de onda invisíveis para a atmosfera terrestre. Foi quando entrou em ação o telescópio espacial Swift da Nasa, cujos sensores ópticos e de raios X conseguiram mapear a radiação de alta energia associada à destruição estelar.

“A combinação de todos esses dados nos ajudou a descartar outras explicações e a afirmar com segurança que se trata de um evento de ruptura de maré, apesar de sua localização incomum”, afirmou Jonathan Carney, doutorando da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill e coautor do estudo.

A surpresa da comunidade científica não reside apenas no espetáculo da destruição, mas na geografia do evento. Praticamente todas as galáxias conhecidas abrigam um buraco negro supermassivo firmemente ancorado em seu centro geométrico. Nesses núcleos densos, calcula-se que a cada 100 mil anos uma estrela deslize perigosamente para perto do abismo gravitacional, desencadeando a ruína estelar. Embora raros dentro de uma única galáxia, a vastidão do universo faz com que astrônomos monitorem milhões de sistemas simultaneamente, registrando cerca de 30 desses cataclismos ao ano em escala global.

Até 2024, no entanto, todas as rupturas de maré registradas haviam ocorrido exclusivamente no coração das galáxias. Esse viés de observação decorria do fato de que os cientistas direcionavam seus telescópios prioritariamente para as regiões centrais, onde a concentração de massa e a presença de buracos negros de grande porte eram dadas como certas. Afinal, buracos negros de menor massa não possuem intensidade gravitacional suficiente para despedaçar uma estrela inteira antes de tragá-la. Encontrar um titã gravitacional de um milhão de massas solares fora do eixo central galáctico redefine o entendimento sobre a dinâmica e a migração dessas estruturas no espaço profundo.

“Com essa descoberta, que é uma das poucas confirmadas até agora, validamos uma nova técnica e podemos usá-la para buscar mais eventos semelhantes pelo cosmos”, explicou Robert Stein, pesquisador da Universidade de Maryland e do Centro de Voos Espaciais Goddard da Nasa.

A consolidação dessa nova técnica metodológica abre um horizonte promissor para a astrofísica de observação. Com a validação do modelo de busca fora de núcleos centrais, os pesquisadores já preparam novos programas de monitoramento espacial. Os próximos passos envolvem a utilização dos dados do recém-inaugurado Observatório Vera C. Rubin, no Chile — empreendimento financiado conjuntamente pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos e pela Fundação Nacional de Ciência —, além de futuras missões espaciais integradas da Nasa. A expectativa é que, ao expandir o olhar para além do centro das galáxias, a ciência consiga catalogar uma população até então invisível de buracos negros itinerantes ou desalinhados no universo.




