VARIEDADES


Sabor ancestral do tacacá é reconhecido globalmente após destaque importante em pesquisa culinária

Reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, caldo amazônico ganha visibilidade global e coroa a tradição cultural e o trabalho das tacacazeiras tradicionais

Mais do que um caldo marcante servido em cuias tradicionais, o tacacá carrega a força da floresta, a herança indígena e o orgulho de toda a Região Norte — Foto: Divulgação

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
23/09/2026 | 16h28

O tacacá, tradicional caldo da culinária amazônica feito com tucupi, goma de tapioca, jambu e camarão seco, conquistou a 27ª posição entre as cinquenta melhores sopas do mundo no ranking divulgado em 21 de setembro de 2026 pela plataforma internacional TasteAtlas. Com nota 4,3, a iguaria alcançou o posto de prato brasileiro mais bem colocado na seleção global, reforçando a força da gastronomia nortista fora do país. A conquista coroa um período de valorização histórica para a iguaria, que tem origem indígena e ganhou projeção internacional graças à votação de usuários da plataforma de culinária, validada por mecanismos de filtragem que atestam a relevância cultural do prato em meio a centenas de receitas avaliadas em todo o planeta.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

Para além da repercussão digital e do sabor marcante que provoca uma leve dormência na boca devido à presença do jambu, a iguaria carrega um profundo significado social e econômico consolidado no cotidiano das cidades amazônicas. Em capitais como Belém, o consumo nas tradicionais cuias e o trabalho das tacacazeiras formam uma paisagem urbana singular, especialmente no fim da tarde. Esse cenário cotidiano foi chancelado institucionalmente em novembro de 2025, quando o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional registrou oficialmente o Ofício de Tacacazeira da Região Norte como Patrimônio Cultural do Brasil, abrangendo técnicas ancestrais e a comercialização típica presente em sete capitais nortistas.

Especialistas em patrimônio cultural apontam que o reconhecimento internacional e o tombamento federal caminham lado a lado, pois validam saberes tradicionais transmitidos por gerações e protegem a cadeia produtiva da mandioca-brava. A feirante Maria das Graças Silva, de 34 anos, que atua há três décadas como tacacazeira, relata com emoção a transformação na valorização do seu trabalho diário. “Antes a gente era vista apenas como vendedora de rua, mas hoje o nosso suor é reconhecido como parte da história do Brasil e do mundo, o que enche de orgulho cada mulher que acorda de madrugada para preparar o tucupi com todo o cuidado”, afirma ela.

O processo de fabricação do caldo exige rigor técnico e conhecimento profundo dos ingredientes da floresta, fundamentais para garantir a segurança alimentar e o padrão de qualidade exigidos pela tradição. O tucupi, por exemplo, precisa passar por um longo e cuidadoso cozimento para eliminar a toxina da mandioca-brava antes de ser misturado aos camarões secos e à goma aquecida. Esse rigor artesanal, segundo pesquisadores da culinária regional, é o grande diferencial que atrai turistas e estudiosos da antropologia alimentar, transformando a degustação do tacacá em uma verdadeira experiência sensorial imersiva na cultura e na biodiversidade da Amazônia.

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Com o primeiro lugar da lista internacional ocupado pelo vori-vori paraguaio com nota 4,7, o ranking do TasteAtlas funciona, segundo a própria empresa, como uma referência baseada em avaliações populares que mapeiam tendências globais de consumo. Para os moradores e apreciadores da Amazônia, contudo, a marca alcançada pelo tacacá vai muito além dos números ou das notas atribuídas por algoritmos na internet. Ela representa a vitória definitiva de um ritual afetivo que ultrapassou as fronteiras regionais e firmou-se como patrimônio vivo, garantindo que o calor, o aroma e a tradição da culinária amazônica continuem alimentando a memória e o orgulho de todo o país.