VARIEDADES


Morre Déa Maiorana a grande matriarca da comunicação paraense que transformou o jornalismo e a filantropia

Líder de um dos maiores conglomerados de mídia do Norte, Lucidéa Maiorana morre aos 91 anos. Com trajetória marcada pela superação, ela consolidou a TV Liberal e o jornal impresso, destacando-se como comendadora e fervorosa incentivadora das artes e educação

Dona Déa e Romulo Maiorana em registro histórico da trajetória que transformou a imprensa paraense. Juntos, o casal adquiriu O Liberal em 1966 e fundou a TV Liberal dez anos depois — Foto: Arquivo de Família

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
01/05/2026 | 11h12

Lucidéa Batista Maiorana, carinhosamente conhecida como Dona Déa, presidente do Grupo Liberal e uma das figuras mais influentes da sociedade paraense, faleceu na quinta-feira (30), em Belém, em decorrência de causas naturais, a apenas dez dias de celebrar seu 92º aniversário. Viúva do jornalista Romulo Maiorana e líder de um dos maiores conglomerados de comunicação da Amazônia desde 1986, ela deixa um legado que transcende as redações, consolidando-se como uma das maiores incentivadoras da cultura, da educação e da assistência social no Pará ao longo de quase quatro décadas de gestão empresarial e filantrópica.


A partida de Dona Déa encerra um capítulo fundamental da história da imprensa brasileira. Sua trajetória não foi apenas a de uma sucessora, mas a de uma construtora. Ao lado de Romulo, com quem se casou e teve sete filhos, participou ativamente de cada degrau que transformou o jornal O Liberal, adquirido pelo casal em 1966, em uma potência midiática. Juntos, eles não apenas modernizaram o parque gráfico e a narrativa jornalística do estado, mas expandiram fronteiras ao fundar, em 1976, a TV Liberal, consolidando a parceria com a Rede Globo que perdura até hoje. A morte de Lucidéa mobilizou autoridades, artistas e profissionais da comunicação, que destacam nela a síntese da resiliência e da elegância no comando de negócios complexos em uma região de desafios geográficos e sociais únicos.

CLIQUE NA IMAGEM

O olhar apurado de Dona Déa para a cultura foi um de seus diferenciais mais marcantes. Ela foi o alicerce que permitiu o fortalecimento do Arte Pará, criado em 1982 e hoje um dos salões de artes visuais mais longevos e respeitados do país. Mais do que uma gestora de bastidores, Lucidéa era presença constante nas vernissages, percorrendo as exposições com o entusiasmo de quem entendia que a comunicação só se completa quando aliada à identidade artística de seu povo. Essa sensibilidade tinha raízes em uma biografia marcada pela superação. Nascida em 10 de maio de 1934, no município de Monte Alegre, Lucidéa teve uma infância de origem humilde e atravessou o período formativo em um orfanato. A mudança para Belém, ainda na adolescência, para morar com a avó, foi o ponto de virada onde conheceu o homem que seria seu parceiro de vida e de empreitadas históricas.

CLIQUE NA IMAGEM

Após a morte de Romulo, em 1986, coube a ela a tarefa de capitanear o Grupo Liberal em períodos de intensas transformações tecnológicas e políticas. Sob sua presidência, o conglomerado manteve o protagonismo regional, enquanto Lucidéa equilibrava a firmeza corporativa com uma profunda vocação cristã. Sua fé católica não era apenas contemplativa, mas se traduzia em ações práticas de amparo aos mais necessitados. No início dos anos 2000, ela foi peça-chave na fundação do Instituto Criança Vida, uma organização sem fins lucrativos que se tornou referência no atendimento a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social no Pará. Seu trabalho no campo da saúde também foi notável, sendo homenageada em 2001 pelo Governo do Estado por seu apoio irrestrito às campanhas de combate ao câncer.

CLIQUE NA IMAGEM

O reconhecimento oficial de sua importância para o estado veio por meio de inúmeras honrarias que pontuaram sua vida pública. Em 1997, recebeu a Ordem ao Mérito da Assembleia Legislativa do Pará. Anos depois, em 2002, foi agraciada com o grau de comendador da Ordem ao Mérito Grão-Pará, a mais alta distinção concedida pelo governo estadual por serviços prestados à coletividade. Essas condecorações, no entanto, pareciam pequenas perto da reverência que Dona Déa recebia cotidianamente de seus funcionários e dos cidadãos que viam nela uma matriarca da identidade paraense.


Nos últimos anos, mesmo com a idade avançada, Lucidéa permanecia como o farol moral do Grupo Liberal, acompanhando as diretrizes das empresas geridas por seus descendentes. Sua presença era um símbolo de continuidade e estabilidade. A notícia de seu falecimento nesta quinta-feira gerou uma onda de consternação em todo o Norte do país. O velório e o sepultamento, cercados de homenagens, refletem a dimensão de uma mulher que saiu de um orfanato no interior para se tornar o coração de um império de comunicação, sem nunca perder a simplicidade que lhe rendeu o apelido pelo qual será lembrada. Dona Déa parte deixando um estado mais conectado e uma cultura mais valorizada, confirmando que sua maior obra não foram as máquinas de impressão ou as antenas de televisão, mas a marca indelével de humanidade que imprimiu em tudo o que construiu.