VARIEDADES


Elaborado por 40 etnias, primeiro manual de jornalismo indígena busca transformar cobertura da imprensa

Desenvolvido ao longo de um ano e meio, o documento gratuito propõe transformar a formação universitária e a cobertura diária da imprensa sobre as comunidades originárias e seus direitos fundamentais

Com páginas repletas de conceitos antirracistas, o inédito guia lançado na Câmara dos Deputados traduz a diversidade dos territórios originários para guiar redações de todo o país no combate a estereótipos — Foto: Reprodução WEB

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
11/08/2026 | 11h19

Na segunda-feira, 10 de agosto, a Câmara dos Deputados, em Brasília, tornou-se o palco do lançamento do Poranga Marandúa, o primeiro manual de jornalismo indígena do Brasil, gestado ao longo de um ano e meio para transformar a cobertura da imprensa sobre os povos originários por meio de diretrizes linguísticas, éticas e conceituais elaboradas por quem vive essa realidade. O documento inédito é fruto da união de profissionais e comunicadores de mais de 40 etnias integrados à Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas, em parceria com a Organização Indígena Instituto Kaingáng, responsável pela edição e revisão do texto. Editado para servir de bússola a redações, universidades e órgãos públicos de todo o país, o projeto nasce da urgência de combater estereótipos históricos, nomenclaturas pejorativas e a invisibilização sistemática das pautas comunitárias, oferecendo uma ponte pedagógica e antirracista disponível gratuitamente na internet.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

O título da obra busca inspiração direta na linguagem do território: em Nheengatu, idioma da família Tupi-Guarani, a expressão Poranga Marandúa traduz-se literalmente como “boa notícia”. Para quem vive o cotidiano das redações ou acompanha a presença indígena no noticiário, contudo, o lançamento representa mais do que uma novidade agradável; trata-se de um marco de reparação narrativa. A coordenadora geral da articulação de jornalistas originários, Luciene Kaxinawá, reforça que o material carrega a imensa diversidade cultural do país e reafirma o compromisso absoluto com uma comunicação construída a partir dos próprios territórios, das línguas ancestrais e das formas autênticas de transmitir os fatos. O objetivo é substituir termos ultrapassados e conceitos que desumanizam ou folclorizam esses povos por construções precisas, contextualizadas e respeitosas.

A iniciativa responde a uma demanda histórica sobre o papel dos meios de comunicação na formação da opinião pública e no impacto direto sobre os direitos territoriais e humanos. O Brasil abriga cerca de 1,7 milhão de indígenas, divididos em mais de 300 etnias que falam ao menos 274 línguas, segundo os dados oficiais do último Censo Demográfico do IBGE. Apesar dessa magnitude, a cobertura midiática tradicional frequentemente peca pela simplificação excessiva, pela omissão dos nomes das etnias ou pelo uso inadequado de terminologias que reforçam estigmas coloniais. Ao longo de dezoito meses de debates profundos, escutas e compilação de termos, o coletivo buscou delimitar horizontes claros sobre como abordar conflitos fundiários, rituais, governança comunitária e a emergência climática sem incidir em desinformação.

Para além de guiar o trabalho imediato dos repórteres nas redações diárias, a publicação propõe uma alteração estrutural no ambiente escolar e universitário. Sônia Kaingáng, comunicadora do Instituto Kaingáng e uma das vozes pioneiras na imprensa originária do país, ressalta que o caminho percorrido até essa conquista foi pavimentado pelo acesso e pela defesa da educação. Em sua visão, a ferramenta precisa ser compreendida tanto como um instrumento de trabalho diário para os profissionais da comunicação quanto como um recurso pedagógico essencial para toda a sociedade brasileira, em um momento em que os debates do país demandam maior letramento racial e inclusão.

A lacuna na formação universitária é apontada como a origem de muitos dos erros cometidos no jornalismo factual. A pesquisadora e comunicóloga Andreza Baré argumenta que os profissionais recém-formados frequentemente chegam às redações sem o preparo necessário, o que contribui para perpetuar a invisibilidade ou o viés distorcido sobre as comunidades tradicionais. Para a pesquisadora, a inclusão do manual nos currículos e nas ementas dos cursos de jornalismo do país oferece uma oportunidade concreta de implementar uma prática de redação genuinamente antirracista, capaz de reformular não apenas como se fala dos povos indígenas, mas também de quilombolas e demais populações tradicionais.

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Ao ser disponibilizado de forma aberta, o Poranga Marandúa busca influenciar as decisões cotidianas de editores, repórteres e estudantes, desmistificando abordagens e aproximando a sociedade urbana das realidades do campo e da floresta. Em última análise, a obra projeta uma transformação na maneira como o país lê a si mesmo, demonstrando que o direito à informação correta e humana começa com o respeito à voz e à identidade de quem constrói a história em seus próprios territórios.