ARTIGOS

Entre Pascal e alienígenas: a matemática da fé

* Por Emanoel Reis

A famosa “Aposta de Pascal”, formulada pelo matemático Blaise Pascal em sua obra “Pensées”, utiliza a teoria da probabilidade para demonstrar que a fé em Deus é a escolha mais lógica e vantajosa. Em vez de buscar uma prova científica para a existência divina, o argumento propõe um cálculo de custo-benefício diante do desconhecido. Se você aposta na existência de Deus e vive segundo preceitos religiosos, o ganho potencial é a eternidade, enquanto a perda, caso Ele não exista, é finita e irrelevante. Assim, na intersecção entre razão e espiritualidade, Pascal propõe que o ceticismo seja o pior negócio.
Por isso, quando me perguntam se acredito em extraterrestres — ou seja, na existência de vida fora do nosso planetinha azul e do nosso sistema solar —, respondo sem titubear: sim, acredito em ETs. Assim, por conta dessa perspectiva, olhar para o céu noturno de Macapá tornou-se não apenas um convite à contemplação, mas também um profundo mergulho no desconhecido, impulsionado pelas imagens e dados capturados recentemente por telescópios como o James Webb, da NASA.
Diante de galáxias ancestrais e da descoberta de exoplanetas com condições surpreendentemente semelhantes às da Terra, é natural que questionamentos profundos surjam em nossas mentes. Afinal, como conciliar a imensidão revelada pela astrofísica moderna com a narrativa milenar de Gênesis, que descreve a criação dos céus, da Terra e dos luminares dispostos no firmamento? Essa aparente colisão entre a ciência do espaço profundo e a fé em um Criador Divino, na verdade, abre espaço para um diálogo rico e integrativo sobre a nossa própria existência.
A astronomia e a espiritualidade não precisam caminhar em rotas de colisão, pois operam em dimensões distintas da experiência humana. Enquanto a ciência se debruça sobre a mecânica, o tempo e o “como” o universo se estruturou ao longo de bilhões de anos, a fé busca compreender o “porquê” e o propósito por trás de tudo. Observar o cosmos através das lentes da tecnologia atual não anula a possibilidade de um Designer Supremo. Pelo contrário, para muitos cientistas e teólogos, a precisão das leis da física, a complexidade e a assombrosa organização do tecido cósmico são justamente as assinaturas desse mecanismo divino. Em vez de excluir a autoria de Deus, as descobertas científicas revelam a grandiosidade e a escala das ferramentas que esse Ser Divino utilizou para estruturar a realidade.
Para compreender essa harmonia, é essencial despir o texto sagrado de uma exigência puramente literal ou cronológica rígida. O relato de Gênesis não foi escrito para ser um manual contemporâneo de astrofísica, mas sim uma mensagem teológica e poética profunda. Na antiguidade, os povos vizinhos adoravam os astros como deuses imprevisíveis e assustadores; a narrativa bíblica desconstrói esse politeísmo ao posicionar o Sol, a Lua e as estrelas como criações funcionais, feitas com o propósito de governar o dia e a noite e marcar as estações. Sob a perspectiva humana na Terra, essa função permanece cientificamente exata e observável até hoje. O texto bíblico dialoga com a nossa experiência vital e com o significado de nossa existência, validando nossa relação com o tempo e o espaço.
Se a imensidão do cosmos e a sacralidade da fé podem coexistir de forma tão bela, surge uma provocação natural: por que, diante de tantas evidências de planetas habitáveis, ainda é tão difícil para alguns aceitar a possibilidade de vida em outros lugares do universo? Talvez o desconforto não venha da ciência ou da teologia em si, mas de um antigo medo do descentramento humano. Durante séculos, o antropocentrismo nos fez crer que éramos o único foco de toda a criação. Admitir que o universo pode pulsar com outras formas de vida exige uma humildade profunda, pois nos obriga a expandir nossa percepção do divino. Longe de diminuir a fé, a existência de vida lá fora apenas sugeriria que a criatividade do Criador é ainda mais vasta e generosa do que jamais ousamos imaginar, mostrando que o mistério do cosmos é um convite constante à nossa evolução espiritual e intelectual.

* Jornalista, publicitário e escritor

A Excomunhão dos Fundamentalistas

*Frei Betto

Em 2 de julho de 2026, o Dicastério para a Doutrina da Fé, órgão do Vaticano, decretou a excomunhão de seis bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) — mais conhecidos como lefebvrianos —, além de todos os sacerdotes e fiéis leigos que aderem formalmente ao grupo. O ato, definido como “de natureza cismática”, consumou o primeiro grande racha da Igreja Católica sob o pontificado de Leão XIV, eleito em maio de 2025.
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X foi fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre (1905-1991) como reação às reformas do Concílio Vaticano II (1962-1965). Os lefebvrianos rejeitam mudanças como a substituição da missa em latim pelo vernáculo, a posição do sacerdote de frente para os fiéis, o diálogo inter-religioso e o ecumenismo.
O conflito com Roma não é novo. Em 1988, Lefebvre consagrou quatro bispos sem autorização do Papa João Paulo II — Alfonso de Galarreta, Bernard Fellay, Richard Williamson e Bernard Tissier de Mallerais. Todos foram excomungados automaticamente. Em 2009, Bento XVI removeu a excomunhão dos quatro bispos em um gesto de reconciliação, mas a FSSPX manteve-se em situação canônica irregular, sem estatuto jurídico pleno na Igreja.
Em 1º de julho de 2026, na localidade suíça de Écône — o mesmo lugar das consagrações de 1988 —, a FSSPX realizou nova cerimônia. Os bispos Alfonso de Galarreta (sagrante principal) e Bernard Fellay (co-sagrante) consagraram quatro novos bispos: Pascal Schreiber (Suíça), Michael Goldade (EUA), Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier (ambos da França).
O Papa Leão XIV fez apelos reiterados para que desistissem. Em carta escreveu: “Cheio de afeto cristão, imploro-vos e peço-vos do fundo do coração: voltem atrás”. Alertou que “rasgar a túnica de Cristo é um pecado de extrema gravidade”. O superior-geral da FSSPX, padre Davide Pagliarani, respondeu que a consagração era “uma medida extrema para salvar almas, em meio à confusão doutrinal e moral em que a Igreja se encontra”.
No dia seguinte, o cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, assinou o decreto declarando que o ato configurou “delito de cisma”. A excomunhão é latae sententiae — automática — e reservada à Sé Apostólica. O decreto baseou-se na Constituição Apostólica Ecclesia Dei (1988), que já definira que “tal desobediência — que implica rejeição prática do Primado Romano (ou seja, autoridade do papa) — constitui um ato cismático”.
Foram excomungados os dois bispos consagrantes (Galarreta e Fellay), os quatro recém-consagrados, todos os sacerdotes da FSSPX e os fiéis leigos que aderem formalmente à Fraternidade.
Os excomungados ficam proibidos de receber os sacramentos até que se arrependam e peçam perdão. A FSSPX não pode mais celebrar casamentos nem ouvir confissões de forma válida.
As autorizações especiais para celebrar os sacramentos da confissão e do matrimônio, concedidas pelo Papa Francisco aos sacerdotes lefebvrianos, foram revogadas.
A excomunhão coloca os membros da FSSPX em “situação de separação da Igreja de Roma”. Trata-se de uma ruptura grave e formal no seio da comunidade católica.
Em carta pública a Leão XIV, o padre Pagliarani rejeitou a excomunhão como “objetivamente injusta e inválida”. Afirmou que a FSSPX não age “em espírito de amargura ou rebelião”, sente-se encorajada “a amar a Igreja”. Os lefebvrianos consideram-se os verdadeiros guardiões da Tradição e veem o próprio papa como herege.
A excomunhão de 2026 representa mais um capítulo — possivelmente definitivo — do longo divórcio entre a FSSPX e Roma. Para o Vaticano, trata-se da defesa da autoridade papal e da unidade da Igreja. Para os lefebvrianos, é a confirmação de que a Igreja oficial abandonou a Tradição. O pontífice resumiu com pesar: “Se tomarem essa decisão, lamento. Mas precisamos seguir em frente”. O cisma está consumado — e suas consequências ainda se desenrolarão nos anos vindouros.
Vale notar que os católicos progressistas, como os adeptos da Teologia da Libertação, nunca quebraram a unidade da Igreja Católica. Os cismas sempre chegam pela direita.

*  Frei Betto é escritor, autor de “O marxismo ainda é útil?” (Cortez), entre outros livros.

Não à utopia

* Por Lúcio Flávio Pinto

Lúcio Flávio Pinto resgata história de quando foi consultado por técnicos do BNDES para falar sobre o Fundo Amazônia, há quase 20 anos, e como sua ideia foi ignorada. ‘Sugeri que, ao invés de distribuir o dinheiro do programa, pulverizando os recursos disponíveis, podiam definir um único alvo: a formação de cientistas para encarar os desafios amazônicos.’

Não tenho certeza, mas acho que foi em 2008. Um grupo de técnicos do BNDES com atuação no meio ambiente veio me visitar em casa. Queria sugestões e opiniões sobre o Fundo Amazônia, que completa agora 18 anos de vida. Sugeri que, ao invés de distribuir o dinheiro do programa, pulverizando os recursos disponíveis, podiam definir um único alvo: a formação de cientistas para encarar os desafios amazônicos. Não como retaguarda a recolher a massa de pães, como na história de João e Maria, mas como personagens de vanguarda nas frentes de ocupação ainda em sua dinâmica irracional.
Dei a essas unidades o título de kibutz. Nada a ver com agricultura ou qualquer outra atividade produtiva de Israel. Os candidatos empenhados nessa filosofia poderiam ser recrutados no país e no exterior. Uma vez aprovados, ficariam em um campus para cursos de cinco ou seis a sete anos, contínuos, orientados pelos maiores e melhores nomes de cientistas das diversas áreas de ensino e pesquisa.
Só poderiam se retirar com o título de doutor, sem poder usar os créditos conseguidos. E só seriam aprovados do centro se alcançassem o título de doutor. Doutores formados nos kibutzim, espalhados pelos mais importantes centros e ecossistemas sociais da Amazônia. Junto com o diploma, receberiam um título de propriedade, com cláusula resolutiva no contrato, se cada projeto apresentado chegasse à sua aplicação correta, de uso coletivo (os campi seriam vizinhos dos núcleos humanos bem delimitados.
Essa correção derivaria do desempenho de cada um dos alunos que cumprissem o programa, fossem assíduos e exercessem um papel de renovação e disseminação do conhecimento. Os centros seriam implantados em locais que necessitassem do convívio com esses alunos e tirassem conhecimento prático dessa relação. Além de todo material didático, os alunos receberiam uma bolsa (imagino que em valor acima de R$ 15 mil), sem qualquer despesa.
Percebi o desencanto dos técnicos do BNDES. No livro publicado sobre o Fundo Amazônia, nem minha foto nem minhas observações foram incluídas. Talvez se eu apelasse para um modelo inteiramente estabelecido pela Folha de S. Paulo, na sua insólita apresentação desse método, eu teria mais sorte?

* Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Acesse o novo site do jornalista aqui http://www.lucioflaviopinto.com.

A alma perdida na Copa

* Por Fernando Gabeira

Quando era menino, jogávamos futebol num campo improvisado. Um dia, chegou um circo perto do campo. Um ator veio nos ver jogar. Chamava-se Raul e trabalhava todas as noites. O circo encenava um dramalhão ao som de uma música de Vicente Celestino:
Disse um campônio à sua amada/ Minha idolatrada, diga o que quer. A amada pedia o coração da mãe do campônio. E, todas as noites, Raul aparecia com o coração num prato. Fora disso, era um bom cara.
Um dia, depois do jogo, ele disse para o nosso time:
— Vocês jogaram com alma. Aprendam isto: tudo o que fizerem na vida, façam com alma.
Lembrei-me dele vendo o jogo da Argentina. Eles perdiam por 2 a 0, faltavam pouco menos de 20 minutos. Viraram para 3 a 2 e ainda choraram ao comemorar a vitória. Isso é alma.
Ela não aparece apenas nas vitórias. O time de Cabo Verde tem alma. Vem de um arquipélago de 530 mil habitantes, compete pela primeira vez, empata com uma campeã do mundo, a Espanha; dá um tremendo trabalho à outra campeã, a Argentina.
O nome do goleiro, Vozinha, já é um indício de emoção. Quando o lateral faz um gol, dispensa abraços, corre para a arquibancada e dá um beijo na amada.
Pensando no Brasil, pergunto-me onde perdemos a nossa alma. Foi na tática passiva do técnico? Foi na declaração do craque de que deveria estar de férias, mas era obrigado a jogar o Mundial de Clubes? Ou foi nessa tóxica mistura de cartolas e ministros do STF?
Um desastre nem sempre tem uma causa única. A Argentina não chorará por nós, seu grande vizinho e rival. O Brasil virou apenas uma lembrança. Temos de sair em busca da alma perdida. Lamento também por Bangladesh: todos aqueles olhos brilhando sem perceber que o Brasil que admiram não existe mais. Somos apenas um pedaço de história no futebol e um país do futuro que jamais chegou.
É muito arriscado estabelecer uma relação entre o futebol e o país. A Noruega foi mais longe que a Suécia. Isso significa alguma diferença nacional? Não creio. Dentro dos seus limites, ambos vão bem e orgulham seus habitantes.
O Brasil vive um momento especial. Há um escândalo no ar, sem as consequências que teria em outros países. O embate político não promete um futuro desejável.
Aqui na nossa província, quase todo dia um político é preso, uma nova roubalheira é descoberta. Sentimos que somos governados por bandidos e, o que é pior, estamos naturalizando essa aberração. Da mesma forma que convivemos em silêncio com a ocupação armada do território urbano pelo tráfico e pela milícia.
Pode ser que estejamos perdendo a alma, lentamente, fora do campo também. Nesse caso, o trabalho para recuperá-la é muito amplo, transcende a formação de um time competitivo.
É algo mais parecido com a lição do ator Raul. Não se trata apenas de fazer as coisas com alma, mas de ter orgulho de ser brasileiro. Não creio que seja tão difícil assim. Vivemos tempos complicados, com o avanço de tendências autoritárias, mas temos tudo para achar um caminho, mesmo nessa loucura do mundo.
Mas, antes, temos de voltar a ter alma.

* Escritor, Jornalista e ex-deputado federal

Tempos bem quentes em dias frios

* Por Marli Gonçalves

No segundo semestre de 2026 promete mesmo, e desde já, fortes emoções. Se passarmos para a nova fase da Copa do Mundo, ao menos com alguma alegria. Senão, o mau humor vai ser mais um item a ser considerado.
Muita gritaria e dedo em riste, especialmente nessa briga que está até divertida, dos Bolsonaros de sobrenome, da Michelle soltando cobras e lagartos em vídeo para ninguém duvidar que a coisa não está boa entre eles, contra o enteado Flávio já montado apavorado em um cavalo que refuga, para se manter azarão, tal qual no filme caro que inventaram para se promover. Cavalos refugam com o despreparo e erros de quem os monta, dá comandos confusos, prende a rédea. Um caso que chama a máxima: nessa briga de muitos ficamos do lado da briga.
Tantos resultados que esperamos, este será mais um. No Brasil que adora novelas e séries, os capítulos se desenrolam como no streaming quando temos que aguardar o dia da outra semana quando prometem liberar a continuidade da história.
Assim vamos saber no que vai dar o jogo. O que acontecerá com o dono do revólver que saiu da prisão domiciliar, foi passear em Brasília, e flagrado a caminho da assistência técnica. Quem mais vai entrar orando na briga da direita que se comunica, se ataca e se defende armada com enigmáticos versos bíblicos. Qual boi, se o Caprichoso ou o Garantido, se o azul ou o vermelho, levará a melhor no Festival de Parintins.
Qual bordoada de tarifas a mais está sendo tramada por Trump contra o nosso país, com os seus amigos traidores da pátria. Como o PT vai se virar para calar seus calores internos, suas fusões eleitorais, o burburinho das manchas de batom.
Com os dias saberemos, infelizmente, e com muito mais precisão, o número de vítimas do abalo na Venezuela, país tão abatido e vilipendiado onde as pessoas cavam com as mãos a busca por desaparecidos nos escombros, à espera de alguma solidariedade.
Mas tem mais uma coisinha passando batida, além de falta de respostas concretas sobre o esquisito “Misantropic4”, alerta severo recebido por milhões na madrugada. Aceito sem questionamentos e aproveitando todo esse calor e frio: o tal aplicativo SmartSampa cidadão. Como assim, o cidadão, de forma anônima, vai ajudar a polícia a achar veículos roubados ou clonados? Hummm, me parece caminho certo para evoluir nas tais guardas de vizinhança, como os Comitês de Defesa da Revolução (CDR), em prática na Cuba nada livre.
Assim, contudo, portanto, todavia, vamos lá: Feliz Réveillon do segundo semestre.

* Jornalista


CONVENÇÃO DO PSD NO AMAPÁ SELA ALIANÇA SECRETA ENTRE ANTÔNIO FURLAN E FAMÍLIA BOLSONARO

Nos próximos dias, em Macapá, a convenção estadual do PSD selará a candidatura do ex-prefeito Antônio Furlan ao Governo do Amapá para o pleito de outubro, oficializando uma aliança estratégica com o PL que converte o candidato no verdadeiro representante da família Bolsonaro no estado. Sob o pretexto de renovação política, a costura comandada pelo senador Flávio Bolsonaro garante à chapa tempo de televisão e acesso aos vultosos recursos do fundo eleitoral, unindo a imagem de Furlan à extrema-direita e à tradicional e controversa dinastia da família Gurgel.
A coreografia dessa união se materializa na provável indicação da ex-deputada Luciana Gurgel (PL) como vice na chapa. Ela é casada com o deputado federal Vinicius Gurgel (PL), apontado como o elo de confiança de Flávio Bolsonaro no Amapá. O arranjo expõe a sobrevivência de um clã que há décadas domina a política local, espalhando parentes por cargos públicos, e que agora tenta abocanhar o Palácio do Setentrião vestindo um intrigante “novo figurino”.
Contudo, o verniz de novidade dessa aliança esbarra nos recentes episódios policiais que rondam seus bastidores. Em fevereiro deste ano, Vinicius Gurgel foi o alvo principal de uma operação da Polícia Federal que investiga desvios de recursos nas obras da BR-156, em um esquema conectado à diretoria do DNIT local. Os desdobramentos da investigação, cujas raízes remontam à Operação Pedágio de 2019, resultaram em mandados de busca e apreensão na residência do deputado e na própria sede do PL em Macapá, onde malas de dinheiro e veículos já haviam sido retidos no passado.
Ao abraçar o PL e a estrutura dos Gurgel, Dr. Furlan encena um espetáculo pragmático e perigoso de sobrevivência eleitoral. Longe de representar a ruptura que seu discurso sugere, a composição revela a velha política de balcão, onde o pragmatismo das verbas partidárias e o fisiologismo local pesam mais do que a coerência ideológica. Para o eleitorado amapaense, o que se projeta nos palanques não é um horizonte de transformação, mas a repetição de um drama familiar histórico, agora sintonizado com o bolsonarismo e blindado pelo aparato de poder de Brasília. Resta saber se o público aceitará esse enredo conhecido travestido de estreia.

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FARRA DAS EMENDAS SOB MIRA
O controle do orçamento federal virou caso de polícia e disputa judicial no STF. Enquanto o Congresso direcionou R$ 37 bilhões em emendas impositivas apenas no primeiro semestre, o ministro Flávio Dino bloqueou bens de caciques políticos como Valdemar Costa Neto e Eduardo Cunha. Ambos são acusados de “terceirizar” a execução orçamentária, ditando o destino de verbas mesmo sem mandato. Dino suspendeu repasses pendentes e deu 30 dias para as Casas Legislativas comprovarem transparência. Sem critérios técnicos, o mecanismo que injetou R$ 300 bilhões em uma década fomenta desvios e alimenta campanhas. A ofensiva judicial tenta frear o festival de fraudes investigado pela Polícia Federal.

LULA REAGE TARDE AO TARIFAÇO
O governo Lula retardou ao máximo as negociações com Washington para conter o tarifaço americano. Jamieson Greer, representante de comércio dos EUA, revelou que “reuniões construtivas” com o Brasil só começaram nas últimas seis semanas. Antes disso, a diplomacia petista limitou-se ao envio de duas cartas, uma visita presidencial e comunicados ideológicos que tensionaram a relação bilateral. A letargia governamental reflete uma estratégia política: a administração aposta que o embate externo impulsionará a popularidade de Lula nas pesquisas de opinião, repetindo o cenário do ano passado. No entanto, o custo dessa inércia diplomática não será pago pelo Planalto, mas sim pelos exportadores e trabalhadores brasileiros atingidos.

CONAFER FRAUDOU DADOS DE MORTOS
A Operação Sem Desconto, da Polícia Federal, expôs uma fraude escandalosa envolvendo a Conafer e o INSS. Investigações revelaram a inclusão de 3.366 beneficiários já falecidos em listas de cobrança de descontos associativos. A entidade utilizava dados colhidos em programas como “Mais Pecuária Brasil” e “Mais Previdência Brasil” para alimentar o sistema, sem qualquer critério de validação, aproveitando-se de pessoas mortas há meses. O esquema, que operava com inserção massiva de dados, teria gerado prejuízos superiores a R$ 700 milhões aos cofres previdenciários. Ao todo, 52 pessoas foram indiciadas por crimes como organização criminosa, corrupção e inserção de dados falsos. O caso evidencia a fragilidade dos sistemas de controle diante da exploração criminosa de dados.

CONVENÇÕES DEFINEM DESTINO DO FUNDO
As convenções partidárias começam nesta segunda-feira (20), abrindo a fase decisiva das eleições de 2026. Até 5 de agosto, partidos e federações devem oficializar seus candidatos e selar coligações, já que a lei proíbe candidaturas avulsas. Mais do que escolher nomes, o período é estratégico por definir como as cúpulas distribuirão o Fundo Eleitoral. Com o fim das doações empresariais, as lideranças nacionais concentram o poder de direcionar verbas públicas aos nomes prioritários. O momento também exige atenção redobrada nas federações legislativas, que exigem união por quatro anos, impactando diretamente a governabilidade. As urnas de outubro começam a ser desenhadas agora, nos bastidores dos partidos.

TSE PROPÕE SELO PARA PESQUISAS
O presidente do TSE, ministro Nunes Marques, sugeriu a criação do “Selo Acurácia Eleitoral” para premiar os institutos de pesquisa que mais se aproximarem dos resultados oficiais das urnas em outubro. A proposta ocorreu após a Corte suspender um levantamento presidencial. O tribunal abriu prazo até esta sexta-feira (17) para receber sugestões de critérios. A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa criticou duramente a iniciativa. Em nota, a entidade alertou que pesquisas refletem o momento e não são previsões, demonstrando preocupação com o fato de a Justiça Eleitoral assumir o papel de árbitra. Para a associação, a medida pode desvalorizar o rigor científico e estimular práticas oportunistas.

ALERTA DA CARNE NA CHINA
O deputado Gustavo Gayer (PL-GO) acionou três ministérios para cobrar ações do governo Lula sobre a exportação de carne bovina à China. O parlamentar alerta para o risco de o país ultrapassar a cota anual de 1,1 milhão de toneladas fixada por Pequim. Acima do teto, a tarifa de importação salta de 12% para proibitivos 67%, ameaçando a competitividade do agronegócio. Gayer exige que os ministérios da Agricultura, Relações Exteriores e Desenvolvimento detalhem as negociações diplomáticas e os planos de contingência caso a cota se esgote. A oposição cobra estratégias para mitigar prejuízos aos frigoríficos e a abertura urgente de novos mercados consumidores para escoar a produção nacional.

EUA TAXAM BRASIL; PLANALTO REAGE
A decisão de Washington de taxar produtos brasileiros em 25% acionou um alerta imediato em Brasília. O Palácio do Planalto anunciou que aplicará “imediatamente” a Lei de Reciprocidade (Lei nº 15.122), sancionada em 2025 sob o eco das tensões comerciais com Donald Trump. O dispositivo permite ao Brasil suspender concessões, cortar isenções ou sobretaxar bens e serviços importados na mesma proporção do prejuízo sofrido. A legislação blinda o país contra interferências na soberania nacional e retaliações ambientais unilaterais que excedam o Acordo de Paris. Embora o texto priorize a via diplomática para conter a escalada, o governo brasileiro sinaliza que não aceitará passivamente o golpe comercial americano.

TSE E BIG TECHS UNIDOS
O Tribunal Superior Eleitoral selou um pacto crucial com gigantes da tecnologia para blindar as eleições de 2026. Sob a liderança do ministro Nunes Marques, redes sociais e empresas de inteligência artificial assinaram um memorando que reativa o programa de combate à desinformação, ativo desde 2022. O foco central é combater o uso ilegal de IA para manipular vozes e imagens de candidatos, além de frear a misoginia digital. Conforme as regras vigentes, algoritmos não podem sugerir votos, e as plataformas responderão judicialmente caso ignorem perfis falsos ou postagens ilegais. A ofensiva busca garantir a integridade dos pleitos de outubro.

BC EXPANDE PIX EM CONTAS
O Banco Central vai regulamentar o uso de contas-salário para operações do Pix Automático, integrando a agenda evolutiva da modalidade para o segundo semestre de 2026. Atualmente restrita a contas correntes e de pagamentos, a ampliação permitirá que trabalhadores quitem despesas recorrentes, como contas de luz, telefone, mensalidades e assinaturas, diretamente por onde recebem. A medida elimina a necessidade de transferir os fundos para outra conta antes de agendar os pagamentos. Embora a plenária do Fórum do Pix previsse o início para julho, os trâmites de regulação continuam em andamento. A inovação avança mesmo sob críticas externas recentes.

POPULISMO DISTANTE DO LIBERALISMO REAL
A economista Daniella Marques, cotada como vice de Flávio Bolsonaro, carrega a fama de “Paulo Guedes de saia”, mas o liberalismo da chapa naufraga na prática. Em live recente, a dupla flertou abertamente com o estatismo e o assistencialismo ao propor o fornecimento de celulares e internet gratuita para 70 milhões de mulheres e idosos. Mirando dividendos eleitorais e tentando reagir ao desfavorecimento nas pesquisas contra Lula, as propostas mimetizam o populismo fiscalmente irresponsável. Flávio ainda defendeu transformar a Caixa Econômica no “Itaú da favela”, ampliando a atuação da estatal. A guinada revela uma estratégia pragmática de pré-campanha que atropela a cartilha econômica liberal.

HIPOCRISIA MARCA DEMISSÕES NO ICL
O empresário Eduardo Moreira, dono do site ICL Notícias e aliado do presidente Lula, virou alvo de duras críticas nas redes sociais. Em vídeo, ele justificou a demissão de 15 jornalistas revelando que antecipou a distribuição de lucros aos sócios para evitar o pagamento de R$ 5 milhões com a nova tributação sobre dividendos. A manobra escancara a contradição do discurso progressista do “banqueiro do bem”, ferrenho defensor da justiça fiscal e do imposto sobre os mais ricos. Após tentar uma vaga no conselho da Petrobras e criticar os lucros da estatal, Moreira aplica na própria empresa o oposto do que prega, sacrificando empregos para blindar o próprio caixa.

CONGRESSO BUSCA REELEIÇÃO EM MASSA
As eleições de 2026 devem registrar o maior índice de parlamentares buscando a reeleição na série histórica monitorada pelo Diap. Um levantamento preliminar aponta que 448 dos 513 deputados federais planejam disputar um novo mandato, o que representa expressivos 87,32% da composição atual da Câmara. O forte movimento supera os índices observados em 2022. Segundo analistas, fatores como a facilidade de acesso a vultosos recursos eleitorais, o peso das estruturas partidárias e o endurecimento das regras para siglas menores favorecem diretamente quem já está no cargo. O cenário indica um forte bloqueio à renovação política tradicional e a consolidação das forças atuais no Congresso.

SUPERIORIDADE?

POR IZALCI LUCAS

STF: herói da democracia ou vilão de seus interesses?

Se o STF deseja ser visto como guardião da democracia, precisa primeiro aprender as bases desse regime…

EMERGÊNCIA

POR FÁTIMA GUEDES

A situação atual na Amazônia exige ação imediata

Padecimentos maiores e piores afetam violentamente outras vidas – florestas, águas, ar, bichos, microrganismos…

COMPLACENTE

POR GUI MACALOSSI

Lula dá a Maduro o respiro que o ditador tanto almejava

É evidente que nunca houve qualquer disposição de Maduro em criar margem para deixar o poder pelo voto…


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