ARTIGOS

Macapá (AP) — Terça-feira, 01 de setembro de 2026


Retratos de sol no Perpétuo Socorro

* Por Emanoel Reis

O domingo amanheceu com aquela claridade generosa que só a capital amapaense sabe entregar, tingindo o céu de azul vivo e prometendo um calor dos bons. Foi nesse clima que meu cunhado, Antônio Bessa, encostou o carro aqui em casa com aquele convite irrecusável para bater perna. Havia tempos que eu não via a orla do Perpétuo Socorro de perto, e aceitar a carona foi a melhor decisão da manhã. Esta terra, que segue altiva e cheia de expectativas no horizonte — inclusive com as promessas de novos tempos e riquezas para o estado —, guarda no seu cotidiano uma energia que dinheiro nenhum compra.
Chegando à orla, o movimento já mostrava a que veio. O entra e sai de carros desenhava o ritmo alegre do dia, com gente chegando de todo canto para aproveitar o sol e render homenagens àquela imensidão sem fim que é o rio Amazonas. Estar ali, de frente para tamanha grandiosidade, é uma experiência quase sublime. Basta puxar uma cadeira, pedir uma água de coco trincando de gelada ou uma cervejinha no ponto, e deixar o olhar se perder na linha d’água enquanto a brisa fresca alivia o calor na pele.
Resolvemos entrar pelas entranhas do bairro e fomos acolhidos por uma atmosfera vibrante. O Perpétuo Socorro é desses lugares populosos e cheios de alma, onde a vida ferve e não pede licença para acontecer. Em cada esquina, ruela ou avenida larga, o comércio vai levantando as portas e a vizinhança toma conta das calçadas. Vê-se de tudo um pouco: a fumaça acolhedora dos churrasquinhos improvisados subindo aos céus, as cadeiras de praia espalhadas sem cerimônia e as caixas de som entoando aquele brega romântico raiz, que embala conversas soltas e risos frouxos com vista privilegiada para o rio.
Perto do restaurante do Carlão, a crônica urbana da cidade se revelou em seu melhor retrato de humor e autenticidade. Nos deparamos com uma cena impagável: um cidadão robusto, refestelado em sua mesa, segurava firme uma garrafa de cerveja com uma das mãos enquanto o carro estacionado bem à sua frente tocava música com as portas escancaradas. Ele, no entanto, já havia se entregado completamente aos braços de Morfeu. Dormia um sono profundo, sereno, embalado pela brisa mansa do Amazonas que vinha por trás. Era a imagem perfeita de alguém em estado de graça, desconectado do mundo e em profunda conexão consigo mesmo.
Esse giro de domingo lavou a alma e me lembrou da força bonita do nosso povo. Ver as calçadas cheias, as portas abertas para a lida e o riso fácil no rosto das pessoas mostra que a cidade pulsa com vigor e esperança. Deixar o tempo passar sem pressa pelas margens do Amazonas, no coração do Perpétuo Socorro, é constatar que a felicidade muitas vezes mora na simplicidade de uma manhã ensolarada de domingo.

* Jornalista, publicitário e escritor

Importância da Educação Popular na implementação de Políticas Públicas

*Frei Betto

A história das políticas públicas no Brasil é marcada por tensão constante entre o Estado e a sociedade civil. De um lado, a formulação técnica, burocrática e institucional das políticas; de outro, a pressão dos movimentos sociais e das comunidades organizadas por participação e justiça social. Nesse entremeio, a educação popular — entendida como prática emancipatória e instrumento de consciência crítica — emerge como ponte essencial entre o povo e o poder público.
Mais do que uma metodologia pedagógica, a educação popular é uma forma de ação política que busca democratizar o conhecimento e empoderar sujeitos historicamente marginalizados para que se tornem protagonistas da transformação social. Nascida no bojo das lutas por alfabetização e cidadania, e tendo em Paulo Freire seu maior expoente, propõe uma pedagogia dialógica baseada em interlocução horizontal entre educador e educando, e voltada para a leitura crítica da realidade.
Essa perspectiva tem implicações diretas na implementação de políticas públicas. Afinal, nenhuma política — seja de saúde, educação, moradia, meio ambiente ou cultura — pode ser eficaz se for imposta de cima para baixo, sem o envolvimento ativo das comunidades a que se destina. A educação popular oferece o instrumento pedagógico e político que possibilita essa participação efetiva.

A educação popular como base da participação cidadã
Uma das maiores dificuldades na execução de políticas públicas é a distância entre o planejado e o efetivado. Frequentemente, decisões tomadas em gabinetes ignoram a complexidade das realidades locais. A educação popular atua nesse ponto cego ao promover espaços de formação e reflexão coletiva que permitem às pessoas compreenderem seus direitos, reconhecerem os problemas e se organizarem para intervir.
Nos conselhos municipais, nos orçamentos participativos, nas conferências setoriais e nos fóruns de políticas públicas, o êxito da participação depende do nível de consciência política e organizativa das bases sociais. Experiências de educação popular — como as escolas de formação cidadã, os grupos de base nas pastorais sociais, ou as oficinas promovidas por ONGs e universidades— têm demonstrado que, quando o povo participa de forma informada e crítica, as políticas ganham legitimidade e eficiência.
Paulo Freire afirmava que “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão”. Essa frase resume a função da educação popular como mediadora entre o saber técnico e o saber popular. A libertação, nesse sentido, é também uma libertação do monopólio do conhecimento técnico e da linguagem burocrática que, muitas vezes, exclui o povo do debate público.

Políticas públicas com rosto e voz populares
Em diversos campos, a educação popular já demonstrou seu potencial transformador. No Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo, a Educação Popular em Saúde, reconhecida oficialmente pela Política Nacional de Educação Popular em Saúde (PNEPS-SUS), tem contribuído para o diálogo entre profissionais e comunidades, fortalecendo o controle social e a humanização do cuidado.
No campo da agroecologia e da economia solidária, práticas educativas participativas têm ajudado agricultores e cooperativas a desenvolverem autonomia e sustentabilidade.
No âmbito da assistência social, metodologias freireanas são aplicadas para fortalecer vínculos comunitários e resgatar o protagonismo das famílias em situação de vulnerabilidade. Na educação ambiental, o envolvimento de comunidades em processos formativos coletivos tem sido fundamental para a preservação de territórios e o manejo sustentável dos recursos naturais.
Essas experiências apontam para um princípio básico: as políticas públicas só se tornam públicas quando apropriadas pelo povo. E a educação popular é o caminho dessa apropriação — processo contínuo de formação, conscientização e ação.

Entre o discurso e a prática: desafios atuais
Apesar de seu potencial, a educação popular enfrenta obstáculos consideráveis. Em primeiro lugar, a resistência institucional. Governos e gestores preferem muitas vezes políticas “de resultados rápidos”, com foco em indicadores quantitativos, em detrimento de processos formativos lentos e qualitativos. Além disso, as dinâmicas políticas locais e os ciclos eleitorais curtos dificultam a consolidação de programas de formação cidadã de longo prazo.
Outro desafio é o desmonte de espaços participativos, que têm sido reduzidos ou esvaziados em vários níveis de governo. Sem conselhos atuantes, fóruns abertos e canais de diálogo, a prática da educação popular perde terreno institucional. Soma-se a isso o avanço de discursos autoritários e tecnocráticos, que desqualificam a participação popular e tratam a cidadania como obstáculo, e não força motriz das políticas públicas.
Há ainda a questão cultural: parte significativa da população foi historicamente educada para aceitar, não para questionar. Romper com essa cultura de subordinação é tarefa pedagógica e política que exige tempo, persistência e sensibilidade.

Educação popular e democracia: uma relação indissociável
A democracia não se sustenta apenas pelo voto, mas pelo exercício cotidiano da cidadania. A educação popular é o que permite ao cidadão compreender o sentido das políticas públicas e se sentir parte delas. É, portanto, condição da democracia participativa, não simples complemento.
Em tempos de crise de representatividade e de desinformação, investir em processos educativos libertadores é também uma estratégia de defesa da democracia. Em comunidades vulneráveis, nas periferias urbanas e nos territórios tradicionais, a educação popular tem sido uma ferramenta de resistência e esperança — um modo de reafirmar a dignidade e reconstruir laços sociais.
Ao formar sujeitos críticos, a educação popular contribui para que as políticas públicas não sejam meras respostas emergenciais, mas expressões de um projeto de sociedade justa e solidária. Transforma o cidadão em coautor das políticas e não em simples beneficiário.

O papel do Estado e da sociedade civil
A promoção da educação popular não é tarefa exclusiva do governo, mas tampouco pode prescindir dele. Cabe ao Estado criar condições institucionais e orçamentárias para apoiar práticas educativas comunitárias, reconhecer saberes populares e valorizar metodologias participativas. À sociedade civil, cabe a mobilização, a criatividade e o compromisso ético com a emancipação coletiva.
Universidades públicas, Institutos Federais, movimentos sociais, pastorais, ONGs e coletivos culturais têm papel estratégico na construção de redes de formação popular, capazes de articular saberes acadêmicos e experiências comunitárias. A transversalidade da educação popular — sua presença em diversas áreas — é o que lhe confere força política.

Educar para transformar
A implementação de políticas públicas verdadeiramente democráticas exige mais do que técnicos competentes e recursos financeiros; exige povo consciente e organizado. E consciência não se decreta, se constrói. A educação popular é esse processo de construção coletiva de consciência e poder.
Não substitui o Estado, mas o humaniza; não nega a técnica, mas a subordina ao bem comum. Sua importância na implementação das políticas públicas reside justamente na capacidade de converter destinatários em protagonistas, dependência em autonomia, clientelismo em cidadania.
Em última instância, apostar na educação popular é apostar na capacidade do povo de pensar e decidir o próprio destino. É reconhecer que sem diálogo, não há democracia; sem consciência, não há liberdade; e sem educação popular, as políticas públicas correm o risco de se tornarem apenas políticas de papel.

*  Frei Betto é escritor, autor de “O marxismo ainda é útil?” (Cortez), entre outros livros.

A gigante do Xingu está parando?

* Por Lúcio Flávio Pinto

Cada uma das 18 turbinas instaladas na hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, consome cerca de 775 metros cúbicos de água por segundo. Isso, quando operam em sua capacidade máxima, de pouco mais de 11 mil megawats.
Em meados do ano passado, essa potência foi sendo reduzida. A usina estava praticamente sem funcionar quando a Norte Energia reduziu a vazão para 300 metros cúbicos. Agora, não vai além de 300 m3. E já pediu a redução da passagem de água pelo canal para 100 metros cúbicos.
O Ministério das Minas Energia e o Ibama aprovaram essa redução. Não apenas pela estação seca do rio neste período, como pela ameaça prevista do El Niño. A redução no trecho normalmente mais crítico do Xingu, com 100 quilômetros de extensão, significa que nenhuma turbina de Belo Monte está funcionando. Os danos e prejuízos causados dos dois lados das margens do rio serão enormes para a população humana e da fauna nesse ponto, conhecido como Grande Curva do Xingu.
Sempre foi um problema a compatibilização da geração de energia com o bloqueio do Xingu. A Norte Energia reduziu a potência de projeto do rio, um dos maiores do mundo, em virtude da grande redução natural nível, para responder às críticas de ambientalistas sobre o perigo de maios um reduzir as críticas à formação de mais um lago artificial enorme na Amazônia. A empresa se comprometeu a manter uma vazão mínima de 750 m3
Para conseguir o licenciamento ambiental para a obra, a empresa se comprometeu a manter 750 metros cúbicos por dia. Essa previsão falhou completamente. E a enorme barragem de Belo Monte está sem o volume necessário de água, talvez até o fim, do período de secas. Trata-se de um impacto de grandes proporções para as comunidades da região. E uma ameaça de redução da energia que é transferida para o sul do país o sul do país.
Assim, a quarta maior hidrelétrica do mundo e a maior inteiramente nacional está parada gerar energia.

* Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Acesse o novo site do jornalista aqui http://www.lucioflaviopinto.com.

Quando as máquinas falham

* Por Fernando Gabeira

A morte da menina de 13 anos numa transmissão ao vivo na plataforma Discord trouxe um grande e importante debate. Apesar de tantas intervenções esclarecedoras, fiquei com muitas dúvidas.
O Discord comunicou ao governo que suas máquinas de aprendizagem detectaram o problema, mas foram incapazes de mensurar sua gravidade e acionar o alarme. Na verdade, quem parece ter acionado o alarme foi a vigilância humana de um núcleo digital da Polícia Civil de São Paulo.
Minha primeira questão: se as máquinas de aprendizagem foram incapazes de acionar o alarme, não seria o caso de voltarem para a escola, aprenderem melhor a lição? Não sei como funcionam, mas, se obedecem à lógica da inteligência artificial, trabalham basicamente com linguagem.
A história da IA mostra que nem sempre as máquinas de aprendizagem estão maduras para uso humano em sua fase inicial. Esse é o tema de um grande debate entre os grupos que trabalham na segurança de um modelo e os que o desenvolvem e precisam colocá-lo no mercado. Os grupos de segurança querem precisamente evitar tragédias, enquanto os outros precisam correr para responder aos investidores, ávidos pelo retorno de seu capital.
No caso dos grandes modelos de IA, houve muita discussão na época do lançamento do GPT-3. O sistema depende da infusão de milhões de dados, colhidos na internet. É difícil filtrá-los. Nos primórdios, as máquinas produziam textos simpáticos aos supremacistas brancos e elogiavam Hitler.
Um famoso artigo de pesquisa intitulado “Sobre os perigos dos papagaios estocásticos: os modelos de linguagem podem ser grandes demais?” foi durante algum tempo referência no debate. Sua coautora, Timnit Gebru, chegou a perder o emprego pela ousadia de denunciar a imaturidade dos sistemas de IA.
No caso do GPT-3, alguns usuários chegaram a denunciar os delírios do modelo. Se alguém perguntasse sobre o problema da Etiópia, a máquina responderia: o problema da Etiópia é a própria Etiópia; a solução é destruir a Etiópia. Durante a semana, me perguntei se as máquinas de aprendizagem do Discord não sofrem da mesma imaturidade, se não foram postas em ação antes de todos os testes de segurança.
Muitos pesquisadores afirmam que esses sistemas aprendem com a prática. É preciso escala, muita prática para que se aperfeiçoem. Mas a pergunta fundamental permanece: quando estão prontos para a comercialização, qual é a margem de segurança adequada?
Creio que a mesma pergunta vale para os carros autônomos. Dependem da análise de milhões de imagens para rodar com segurança. Essas imagens que absorvem são analisadas por milhares de trabalhadores no Quênia e também na Venezuela. Mas qual o momento para afirmar que estão prontas para sair por aí se dirigindo? Houve casos, nos testes, de atropelamentos de alguém empurrando uma bicicleta. Não notaram a imagem.
Essas reflexões não são uma oposição ao desenvolvimento tecnológico. Ele deveria obedecer às necessidades humanas e sociais de segurança. No entanto, obedece à lógica do retorno do capital investido. Às vezes fico pensando que a menina morta é uma vítima desse mecanismo. Espero que as investigações respondam a essa pergunta e transcendam a questão superficial de banir ou não uma plataforma.

* Escritor, Jornalista e ex-deputado federal

Mais união. Precisamos falar sobre isso. Agora

* Por Marli Gonçalves

Quase uma conclamação: precisamos aprender a nos unir para tentar nos fazer ouvir, uma vez que pouco está adiantando solitariamente recorrer aos canais oficiais, e as barbaridades se aglomeram. Sou testemunha – tenho quase um “colar” de registros feitos, pedidos, à Prefeitura de São Paulo, que não deram em nada, no canal oficial Portal 156. Estão lá, todos até irritantemente marcados como atrasados, por exemplo, um, em 894 dias; outro, em 119 dias. Esse automático deles sabe contar, mas não resolver. As administrações regionais aqui da cidade tomadas como feudos eleitorais e partidários.
Semana passada, em uma exposição de arte – aliás, imperdível, de Alex Flemming no Palacetes da Sé, Centro velho de São Paulo, um espaço histórico – encontrei um amigo, e depois outro que passava se juntou à conversa; não se conheciam. Chamou a atenção a confluência de preocupações e a mesma descrença em obter atenção para o cotidiano. São Paulo tem sérios problemas de zeladoria, de desrespeito às regras mínimas, falta de fiscalização. Já era ruim, mas agora e além disso com a transformação imobiliária desmedida em todas as regiões, beira o insuportável.
Ah, claro, ouviremos que há fiscalização. O que parece apenas provar que – e de forma evidente – se há fiscais, a corrupção continua campeando, e que muitos comerciantes e empresários ainda preferem molhar mãos do que pagar multas ou resolver os problemas.
Acompanho há tempos, pelas redes sociais. Um desses amigos, morador no Centro, está até rouco de tanto reclamar do barulho, de festas madrugada adentro no seu vizinho Edifício Itália, as gigantescas concentrações e shows no Vale do Anhangabaú, da balbúrdia dos bares na praça Dom José Gaspar. Essa lista vai longe. Outro dia viu sendo cimentado o pé de uma árvore, e quando interviu, ouviu o que eu também estou cansada de escutar (e obviamente revidar, no tom merecido), “o que é que ele tinha a ver com isso?”.
É assim sempre. Com o perigoso sabão jogado no passeio, como se todos gostassem de cair ou ficar com pés molhados pelas mangueiras, ser atropelados ao seguir pela rua. O desaforo dos motoqueiros, ciclistas e etc. na contramão, furando faixas. O absurdo dos bueiros tampados pelo cimento despejado das obras. O lixo espalhado e em árvores. A privatização dos espaços públicos com parklets, cada vez maiores e que viraram extensão de mesas de bares e restaurantes. Desrespeitos à Lei Cidade Limpa. Ih, a lista é interminável. Tudo perto de nós, na porta de nossas casas.
Não devemos, acredito, sermos poucos a notar ou atingidos. A imprensa engole notas oficiais vazias quando instada a denunciar. Precisamos de mais, nos unir, nos juntar, fazer “barulho”. Aliás, para tudo. Lembrando que em tempos eleitorais “eles” não gostam de ser expostos – quem sabe consigamos soluções? Não custa tentar.

* Jornalista


Furlan esgota caixa bilionário e acumula dívidas milionárias

O ex-prefeito de Macapá, Antônio Furlan (PSD), conduziu a capital amapaense a um severo estrangulamento fiscal ao acumular um déficit financeiro superior a R$ 300 milhões após exaurir uma reserva bilionária herdada de seu antecessor, recorrendo a empréstimos milionários enquanto a cidade enfrentava um descompasso estrutural entre o gasto público e a arrecadação municipal. O colapso nas contas da prefeitura ocorreu em meio a escolhas administrativas questionáveis e ao aumento no contracheque do próprio gestor, desenhando um quadro de descontrole orçamentário que colocou em xeque a sustentabilidade fiscal do município.
Ao assumir a administração da capital em janeiro de 2021, Furlan recebeu a prefeitura em uma situação financeira confortável: cofres sem dívidas e um saldo disponível estimado em R$ 1,2 bilhão, deixado pelo ex-prefeito e atual governador Clécio Luís. No entanto, entre 2021 e 2022, esse volume expressivo de recursos foi dilapidado. Em vez de consolidar uma gestão com capacidade própria de investimento, a administração municipal passou a registrar sucessivos saldos negativos, consumindo integralmente as reservas e empurrando a capital para o endividamento.
A fragilidade das contas públicas ficou evidente ainda em novembro de 2022, quando o Executivo municipal protocolou na Câmara de Vereadores o Projeto de Lei nº 021/2022-PMM. O texto solicitava autorização para a tomada de uma operação de crédito no valor de R$ 200 milhões, aprovada pelo legislativo no final do mesmo mês. A justificativa oficial para o endividamento bancário apontava para investimentos em infraestrutura, mobilidade urbana e acessibilidade. Posteriormente, a prefeitura promoveu uma chamada pública para selecionar a instituição financeira responsável por fornecer os recursos.
O socorro financeiro obtido por meio do empréstimo, contudo, não estancou a sangria orçamentária. Dados do Tesouro Nacional revelaram que a Prefeitura de Macapá manteve um padrão de gastos desproporcional à sua capacidade real de arrecadação. No ano passado, o déficit nas contas municipais atingiu R$ 242.385.787. O quadro piorou no primeiro semestre daquele exercício, que registrou um rombo adicional de R$ 65,4 milhões, consolidando um rombo fiscal histórico na capital amapaense.
Defensores da gestão municipal alegam que o endividamento e a expansão das despesas são reflexos da transformação de Macapá em um extenso canteiro de obras. Contudo, relatórios orçamentários indicam que a maior parte dos empreendimentos públicos realizados na cidade não decorre de investimentos custeados por recursos próprios do Tesouro Municipal, mas sim de emendas parlamentares federais captadas para a infraestrutura local. A disparidade expõe a ausência de planejamento fiscal e a inobservância da regra basilar da gestão pública de manter o teto de gastos compatível com as receitas arrecadadas.
Paralelamente à crise fiscal e ao achatamento dos investimentos com receita própria, o topo do funcionalismo municipal viu seus subsídios aumentarem expressivamente. Em outubro de 2024, a Mesa Diretora da Câmara Municipal de Macapá propôs e o plenário aprovou um projeto de lei que reajustou em 67,8% o salário do prefeito. A remuneração de Antônio Furlan subiu de R$ 19,3 mil para R$ 31,9 mil a partir de janeiro de 2025. A medida legislativa também elevou os salários do vice-prefeito, dos secretários municipais e dos próprios vereadores da capital, aprofundando o contraste entre a bonança da cúpula política e a deterioração do equilíbrio financeiro do município.

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CIDADES MAIS VIOLENTAS
As dez cidades mais violentas do Brasil estão concentradas no Nordeste, segundo dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O relatório, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública com base nos registros de 2025, traz a Bahia na liderança do ranking negativo, com cinco municípios, seguida pelo Ceará, com três. Pernambuco e Paraíba completam a lista com uma cidade cada. As estatísticas consideram as taxas de Mortes Violentas Intencionais (MVI) por 100 mil habitantes. Apesar da concentração regional, o país registrou queda geral de 8,2% nesses crimes em relação a 2024, atingindo o menor índice da série histórica desde 2012, com 40.775 ocorrências registradas em todo o território nacional.

CONSTRUÇÃO EM RITMO DE ESPERA
A indústria da construção desacelerou em junho. O nível de atividade do setor caiu 1,9 ponto, atingindo 47,2 pontos, segundo a Sondagem da CNI/CBIC. O emprego no segmento também recuou para 47,9 pontos. Apesar do tropeço no mês, os dois indicadores seguem acima da média histórica para o período, o que preserva um pano de fundo de relativa estabilidade. Nos bastidores das canteiros, a Utilização da Capacidade Instalada cravou 67%. O pesadelo do empresariado continua sendo o aperto financeiro: juros altos, crédito escasso e insumos pressionados por conflitos globais corroem as margens de lucro. A melhora pontual no trimestre não alivia a insatisfação geral da classe.

ONDA DO VOTO ÚTIL AVANÇA
A nova pesquisa Real Time Big Data acendeu o alerta nas campanhas presidenciais a três meses do primeiro turno. O levantamento revela que 67% dos eleitores de Flávio Bolsonaro (PL) aceitam trocar de candidato no primeiro turno para tentar derrotar Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Do outro lado da disputa, o cenário é de forte blindagem: 73% do eleitorado lulista garante fidelidade irrestrita ao atual presidente, rejeitando qualquer migração estratégica. A assimetria expõe a fragilidade da candidatura do PL, dependente do pragmatismo da direita, enquanto o PT ostenta uma base blindada. Com margem de erro de dois pontos, o dado consolida o voto útil como a grande chave do pleito.

DIREITA SOB ALTA VOLATILIDADE
A “dureza do voto” mensurada pelo Real Time Big Data escancara a vulnerabilidade dos pré-candidatos de centro-direita para a eleição presidencial. O levantamento revela que 82% dos eleitores de Ronaldo Caiado (PSD) e de Romeu Zema (Novo) admitem trocar de candidato no primeiro turno por cálculo tático. Flávio Bolsonaro (PL) vem em seguida, com 67% de volatilidade, enquanto Renan Santos (Missão) registra 45%. Na ponta oposta, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) exibe a base mais resiliente: apenas 27% cogitam migrar. Os dados confirmam que a oposição opera sob forte risco de deserção estratégica, desafiando articuladores a evitarem uma debandada desordenada do eleitorado antipetista antes da hora.

CAIADO LIDERA PELA HERANÇA
Ronaldo Caiado desponta como o principal herdeiro do eleitorado de Flávio Bolsonaro. Segundo a pesquisa Real Time Big Data, o ex-governador de Goiás é a segunda opção de 25% dos eleitores do senador, seguido por Renan Santos (22%) e Romeu Zema (20%). O apelo do goiano ganha força no segundo turno: ele é o único oposicionista a aparecer numericamente à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, com 44% contra 43% — empate técnico no limite da margem de erro. Em outros cenários, Lula supera Flávio, Zema e Renan. Curiosamente, Caiado também lidera a preferência entre os lulistas sem opção (9%), embora 59% da base do petista não veja alternativa.

POLARIZAÇÃO REVELA MARGEM
A rejeição aos líderes da disputa presidencial reforça o teto enfrentado pelas duas maiores forças do país. Segundo o Real Time Big Data, Flávio Bolsonaro (PL) lidera o índice de rejeição com 50%, seguido de perto por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 48%. Ronaldo Caiado (PSD) registra 39%, despontando com menor resistência eleitoral. O levantamento da Genial/Quaest confirma o tombo do liberal, cuja rejeição atinge 57%, ante 50% do petista. Por outro lado, o governo Lula voltou a ter aprovação superior à desaprovação (48% a 47%), impulsionando o favoritismo do atual presidente: 55% dos brasileiros apostam na sua reeleição, contra 25% que creem na vitória de Flávio.

STF ORDENA INVESTIGAÇÃO
O ministro André Mendonça, do STF, autorizou a Polícia Federal a investigar o repasse de R$ 61 milhões para o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. A apuração mirará recursos transferidos pelo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, após articulação do senador Flávio Bolsonaro (PL). A PF investigará se verbas foram desviadas para custear a vida do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos EUA, além da destinação de R$ 1 milhão em emendas parlamentares. A produtora do longa, Go Up Entertainment, atua sob gestão de empresária já investigada em São Paulo. Relator do caso Banco Master, Mendonça atendeu a pedido da PF respaldado pela PGR. O clã Bolsonaro mantém silêncio.

MAIS TEMPO PARA O ADAPTAÇÃO
O Ministério da Fazenda e o Comitê Gestor do IBS adiaram para 1º de janeiro de 2027 as obrigações de inscrição no CNPJ e emissão de notas fiscais para pessoas físicas, nanoempreendedores, transportadores autônomos e produtores rurais. Formalizada pelo Decreto 13.075/2026 e pela Resolução CGIBS 13/2026, a medida concede mais fôlego para adequação à reforma tributária, eliminando riscos de sanções já em agosto pelo não destaque da CBS e do IBS. A mudança beneficia diretamente locadores de imóveis e produtores rurais, além de impactar cadeias do agronegócio, como frigoríficos e cooperativas. Especialistas avaliam o adiamento como um alívio necessário para organizar o novo cadastro único dos tributos.

BC EXPANDE PIX EM CONTAS
O Banco Central vai regulamentar o uso de contas-salário para operações do Pix Automático, integrando a agenda evolutiva da modalidade para o segundo semestre de 2026. Atualmente restrita a contas correntes e de pagamentos, a ampliação permitirá que trabalhadores quitem despesas recorrentes, como contas de luz, telefone, mensalidades e assinaturas, diretamente por onde recebem. A medida elimina a necessidade de transferir os fundos para outra conta antes de agendar os pagamentos. Embora a plenária do Fórum do Pix previsse o início para julho, os trâmites de regulação continuam em andamento. A inovação avança mesmo sob críticas externas recentes.

POPULISMO DISTANTE DO LIBERALISMO REAL
A economista Daniella Marques, cotada como vice de Flávio Bolsonaro, carrega a fama de “Paulo Guedes de saia”, mas o liberalismo da chapa naufraga na prática. Em live recente, a dupla flertou abertamente com o estatismo e o assistencialismo ao propor o fornecimento de celulares e internet gratuita para 70 milhões de mulheres e idosos. Mirando dividendos eleitorais e tentando reagir ao desfavorecimento nas pesquisas contra Lula, as propostas mimetizam o populismo fiscalmente irresponsável. Flávio ainda defendeu transformar a Caixa Econômica no “Itaú da favela”, ampliando a atuação da estatal. A guinada revela uma estratégia pragmática de pré-campanha que atropela a cartilha econômica liberal.

HIPOCRISIA MARCA DEMISSÕES NO ICL
O empresário Eduardo Moreira, dono do site ICL Notícias e aliado do presidente Lula, virou alvo de duras críticas nas redes sociais. Em vídeo, ele justificou a demissão de 15 jornalistas revelando que antecipou a distribuição de lucros aos sócios para evitar o pagamento de R$ 5 milhões com a nova tributação sobre dividendos. A manobra escancara a contradição do discurso progressista do “banqueiro do bem”, ferrenho defensor da justiça fiscal e do imposto sobre os mais ricos. Após tentar uma vaga no conselho da Petrobras e criticar os lucros da estatal, Moreira aplica na própria empresa o oposto do que prega, sacrificando empregos para blindar o próprio caixa.

CONGRESSO BUSCA REELEIÇÃO EM MASSA
As eleições de 2026 devem registrar o maior índice de parlamentares buscando a reeleição na série histórica monitorada pelo Diap. Um levantamento preliminar aponta que 448 dos 513 deputados federais planejam disputar um novo mandato, o que representa expressivos 87,32% da composição atual da Câmara. O forte movimento supera os índices observados em 2022. Segundo analistas, fatores como a facilidade de acesso a vultosos recursos eleitorais, o peso das estruturas partidárias e o endurecimento das regras para siglas menores favorecem diretamente quem já está no cargo. O cenário indica um forte bloqueio à renovação política tradicional e a consolidação das forças atuais no Congresso.

SUPERIORIDADE?

POR IZALCI LUCAS

STF: herói da democracia ou vilão de seus interesses?

Se o STF deseja ser visto como guardião da democracia, precisa primeiro aprender as bases desse regime…

EMERGÊNCIA

POR FÁTIMA GUEDES

A situação atual na Amazônia exige ação imediata

Padecimentos maiores e piores afetam violentamente outras vidas – florestas, águas, ar, bichos, microrganismos…

COMPLACENTE

POR GUI MACALOSSI

Lula dá a Maduro o respiro que o ditador tanto almejava

É evidente que nunca houve qualquer disposição de Maduro em criar margem para deixar o poder pelo voto…


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