ARTIGOS

Macapá (AP) — Quarta-feira, 21 de outubro de 2026


As esfinges da varanda

* Por Emanoel Reis

Muito tempo atrás, em minhas andanças pela Marambaia, na Belém dos anos 1990, conheci um casal de idosos com a mesma idade e que morava numa casa pequena, bem aconchegante, especialmente construída pelo filho caçula (meu colega de profissão e vizinho de bairro) em um terreno próprio, a poucos metros da casa dele. Sujeito boa-praça e bom filho, sem dúvida. Cuidava dos pais septuagenários com zelo admirável, atento a qualquer necessidade deles, antecipando remédios, consertos no telhado e o prato à mesa.
Nesse dia, o encontrei por acaso na feira da Tavares Bastos, localizada às proximidades do Cemitério São Jorge. Nos cumprimentamos efusivamente, até demais, achei; paramos na barraca da garapa e dos pastéis de vento, então, colocamos o papo em dia sob aquele calor úmido característico da manhã belemense. Ele carregava duas sacolas abarrotadas de cheiro-verde, farinha d’água, legumes e frutas frescas, e disse-me que uma delas era para os velhos. Ia à feira duas vezes por semana, sempre munido de duas listas detalhadas. A dos pais, ele mesmo fazia de cabeça, comprando o que faltava para completar a despensa. Achei bacana aquela dedicação afetuosa. Ele gesticulou com a mão como quem diz: “Não, não é nada disso”. Era preciso, contou-me, pois os pais viviam de boca fechada. Em silêncio cósmico. Não se falavam havia anos. Fiquei sobremodo surpreso. “Como pode?”, indaguei em tom de incredulidade genuína. Na hora, ele me ofereceu carona para que eu visse aquela rotina com meus próprios olhos.
Embora morássemos a apenas cinco quarteirões um do outro, nos víamos pouco. Aliás, pouco é puro eufemismo. Há mais de ano não trocávamos palavra. Trabalhávamos em empresas e horários diferentes, situadas em bairros distantes, engolidos pela correria diária. O encontro na feira fora, portanto, uma casualidade quase sobrenatural, dessas que o cotidiano costuma tramar sem avisar.
Ele morava na Terceira Rua, nas proximidades do terminal da linha de ônibus Marambaia–Ver-o-Peso, numa casa espaçosa com a mulher e duas crianças. Uma bela e barulhenta família, cheia de risos infantis e movimento constante. E logo ao lado, no mesmo lote cercado por mangueiras frondosas, erguia-se o refúgio dos pais: dois anciãos imóveis, mudos como duas esfinges de Gizé, sentados lado a lado numa varandinha, parecendo dois perfeitos desconhecidos que dividiam o mesmo banco de praça por mero acaso do destino.
Passavam dias, semanas, meses a fio mergulhados em silêncio monástico. Na ocasião, cheguei a cogitar que um já não lembrava o timbre da voz do outro. Na varandinha ventilada pela brisa da tarde, um ficava pacientemente escutando o silêncio do outro, dividindo apenas o chiar das cigarras e o ruído distante dos ônibus na pista. Fiquei vivamente impressionado com aquele enigma conjugal. Comentei o assombro com meu amigo enquanto ele descarregava as compras. Ele só deu de ombros, acostumado com aquele mistério doméstico que não cabia a ninguém decifrar. Nos despedimos, agradeci pela carona e pela prosa. Ao passar pela frente da casa dos idosos, olhei pelo gradil do portão de ferro e vi aquele estranho casal de velhinhos, fitando o horizonte como dois Moais na Ilha de Páscoa esquecidos pelo tempo.
Quase dois anos depois, após ter passado uma longa temporada a trabalho em São Luís do Maranhão, encontrava-me de volta à Marambaia, visitando alguns parentes, quando reencontrei aquele bom filho. Estava parado, pensativo, diante do balcão de uma antiga panificadora de esquina, esperando o pão quente da fornada. Ao ver-me, veio depressa em minha direção com o braço estendido e a mão espalmada. Tinha na boca trêmula um sorriso aguado, no rosto cansado uma expressão densa de profunda tristeza.
O pai havia morrido meses atrás, fulminado pela idade. Naquele instante, desarmado pelas lembranças, ele chorou um pranto contido. Eu também me comovi e chorei junto com ele. Em seguida, contou-me que o velho senhor partira sem dar um pio. Nem um murmúrio de despedida, sequer um simples gemido nos estertores da agonia. Nem um ai soprado para aliviar a passagem.
— E a tua mãe? — perguntei, tomado pela comoção daquela ausência repentina. — Como ela deve ter sofrido com o vazio da casa… — deduzi, comovido e solidário, imaginando a dor da companheira de uma vida inteira.
O amigo respirou fundo, baixou os olhos e gesticulou com a mão direita como quem diz: “Não sei. Até hoje, ninguém sabe”. Olhou para o fundo da rua e concluiu num sussurro:
— Não balbuciou nem uma prece durante o velório do marido. Não verteu lágrima vista. Continua sentada na mesma cadeira da varanda, sem olhar para o lado vazio. Não abre a boca nem para bocejar.

* Jornalista, publicitário e escritor

Gostar de política

*Frei Betto

Há quem não gosta de política. Conheci um vizinho que abominava os políticos, mas não dispensava o salário mínimo, a aposentadoria, o posto de saúde, a escola dos netos, nem a segurança de andar na rua sem ser assaltado. Era um homem coerente, exceto pelo detalhe de ignorar que tudo isso que tanto valoriza tem alguma relação com aquilo que detesta.
Política? Não quero saber disso! — exclamava com a satisfação de quem acaba de resolver os problemas do mundo ao fechar a janela.
A política, porém, não se dava por vencida. Entrava pela porta sob a forma de conta de luz, sentava à mesa na hora do almoço, escondia-se no preço do feijão e, à noite, aparecia na TV para anunciar reformas que ele não compreendia até descobrir que haviam mexido em sua aposentadoria.
A política tem essa inconveniência: ocupa-se de nós mesmo quando não nos ocupamos dela. Está no prato do pobre e no banquete do rico; no remédio que chega à farmácia e naquele que falta; no professor que ensina, no policial que patrulha, no juiz que sentencia, no empresário que contrata e no trabalhador que procura emprego. Está no ar que respiramos, na água que bebemos, na floresta desmatada, no transporte que nos conduz e no imposto que pagamos. Até o silêncio, quando resulta de uma injustiça, pode ser uma manifestação política, embora seus praticantes prefiram apresentá-lo como prudência.
Meu vizinho, entretanto, dizia que não votar era uma forma superior de independência. Não queria sujar as mãos. Parecia-lhe que, abstendo-se, ficava acima da disputa, como um anjo que contemplasse homens brigando em um bar.
Expliquei-lhe que o anjo, se existisse, talvez pudesse dar-se a esse luxo; o cidadão, não. Este vive entre instituições, leis e interesses que não deixam de funcionar porque resolveu ignorá-los. Se não participa da escolha de quem governa, outros decidirão em seu lugar. E os eleitos não perguntarão se ele estava distraído quando foi decidido o destino do país.
A abstenção pode parecer um gesto sem consequências. Não é. Em uma eleição apertada, altera, ainda que minimamente, a relação entre os votos efetivamente computados. Mais importante: a indiferença coletiva enfraquece o hábito de participação que sustenta a democracia. Não significa que todo abstencionista seja indiferente, pois há ausências justificadas e impedimentos reais. Mas transformar a omissão em virtude cívica é uma maneira elegante de entregar a chave da casa a quem está disposto a saqueá-la.
Há, contudo, uma segunda espécie de eleitor, mais ativa e talvez mais curiosa. Não se abstém, vota com entusiasmo em quem promete acabar com a corrupção, restaurar a ordem, salvar a família e, se possível, devolver-lhe a juventude. Não lhe ocorre perguntar se o candidato respeitará as instituições que lhe permitem votar. Basta-lhe a promessa, essa moeda política que circula sem lastro e raramente sofre desvalorização antes da eleição.
O problema começa quando o candidato não pretende apenas governar, mas sobretudo reduzir a democracia à condição de escada na qual sobe e, uma vez no alto, trata de recolhê-la.
A democracia não consiste apenas em depositar uma cédula na urna. Pressupõe eleições livres, oposição legítima, imprensa independente, Justiça autônoma, liberdade de expressão e respeito aos resultados eleitorais. O governante eleito recebe um mandato, não a propriedade do Estado. O voto não lhe concede licença para perseguir adversários, intimidar instituições ou silenciar os que discordam. A maioria escolhe quem governa. Não recebe, por isso, o direito de abolir as garantias que protegem também as minorias.
É nesse ponto que o eleitor deve desconfiar dos salvadores da pátria. Alguns começam prometendo varrer os corruptos e terminam querendo eliminar os críticos. Outros dizem falar em nome do povo, como se o povo fosse uma pessoa só, dotada de uma única opinião, convenientemente igual à deles. Há ainda os que se apresentam como defensores da liberdade, desde que ninguém a utilize para contestá-los.
A história oferece exemplos suficientes de governantes que chegaram ao poder por meios legais e depois ignorou os controles democráticos. Vide Jair Bolsonaro e sua tentativa de golpe em janeiro de 2023. Nem toda divergência política anuncia uma ditadura, mas é preciso distingui-la da ameaça às regras que tornam possível a discordância.
Meu vizinho achou tudo isso exagerado. O senhor tem medo demais — disse-me ele. Respondi que talvez tivesse. A democracia é como a saúde, enquanto existe, muita gente a considera um patrimônio natural; quando se perde, descobre-se que dependia de cuidados cotidianos. Ninguém espera que o telhado desabe para admitir a importância das vigas. Com as instituições, porém, há quem prefira esperar o desabamento, talvez na esperança de que os escombros sejam de propriedade alheia.
Perguntei-lhe se a liberdade de criticar o governo lhe parecia importante. Disse que sim. Se gostaria de escolher os governantes. Também. Se aceitaria que um presidente anulasse eleições porque não gostou do resultado. Aí hesitou. Se admitiria que um adversário fosse preso apenas por discordar do poder. Negou com vigor. Pois bem, eu disse a ele, você acaba de defender a democracia sem perceber que falava de política.
O voto não resolve tudo, evidentemente. Não transforma um mau candidato em bom, não extingue interesses econômicos, não corrige de uma vez as desigualdades, nem impede, por si só, que os eleitos decepcionem seus eleitores. A cidadania não termina na urna. Continua na fiscalização, na organização popular, na cobrança de promessas, na defesa dos direitos e na disposição de ouvir quem pensa diferente.
Mas votar importa, porque os governos decidem sobre a vida de todos, inclusive dos que se julgam distantes da política. Importa porque as instituições podem ser aperfeiçoadas ou debilitadas. E importa porque quando se ameaça o direito de escolher, todos nós vemos diminuir nossa capacidade de influir no próprio destino.
Se a política influi em tudo o que nos acontece, por que haveríamos de lhe entregar, por omissão ou imprudência, o direito de decidir se continuaremos livres para discordar? Ora, quem não gosta de política é governado por quem gosta. E tudo que os maus políticos almejam é que detestemos a política para que fiquem à vontade no controle dela.
Dia 25 de outubro vote no fortalecimento da democracia. Vote Lula! Vote 13!

*  Frei Betto é escritor, autor de “O marxismo ainda é útil?” (Cortez), entre outros livros.

O sequestro intelectual do eleitor

*Por Luciano Martins

Quando a campanha transforma problemas antigos em promessas novas e apaga quem estava no poder enquanto eles se agravavam, o que se toma do eleitor não é apenas o voto. É a memória.
Pela fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai passa parte considerável da droga e das armas que abastecem o crime organizado do Sudeste. Ali, a palavra facção não é figura de retórica, e talvez por isso cause certo desconforto ver a facilidade com que ela virou slogan. Uma ideia atravessou esta eleição, dos palanques estaduais à disputa nacional, com a força das soluções que cabem numa frase: tratar o crime organizado como terrorismo. Não é proposta sem defensores sérios, e o tratamento jurídico das facções que dominam territórios merece ser discutido com rigor, inclusive com a severidade que o problema exige.
O rigor, porém, começa pela lei. A Lei 13.260, de 2016, define o terrorismo pela motivação de quem o pratica: xenofobia ou discriminação e preconceito de raça, cor, etnia ou religião, com a finalidade de provocar terror social ou generalizado. O traficante que domina um morro para vender droga e cobrar pedágio não cabe nessa moldura, e a equiparação exige, portanto, mudar a lei, e não apenas o discurso. A organização criminosa, por sua vez, está tipificada desde 2013, na Lei 12.850, que trouxe a colaboração premiada, a infiltração de agentes e a ação controlada, instrumentos que todos os governos da última década tiveram à disposição. O que a proposta oferece de novo é, em boa medida, o nome. Ela chega como se o país tivesse descoberto ontem que o crime organizado controla bairros inteiros, e como se ninguém no campo político que a apresenta tivesse governado estados, comandado polícias ou votado leis nos anos em que esse domínio se consolidou. A certeza vem pronta, e o passado fica de fora do pacote.
Chamo isso de sequestro intelectual do eleitor. Não depende de mentira no sentido clássico, e talvez por isso seja tão eficaz. Opera por subtração: retira o contexto, apaga a autoria e oferece a indignação legítima com o problema como se ela fosse prova da solução. O eleitor, que tem toda razão em estar farto da violência, concorda com o diagnóstico e entrega, junto com a concordância, o direito de perguntar. É a forma mais refinada de desonestidade intelectual, porque dispensa falsificar fatos; basta escolher quais lembrar. A honestidade intelectual faria o caminho inverso: admitiria que a política defendida ontem fracassou, explicaria por que mudou de ideia, responderia pelo que fez quando podia fazer.
Poucos lugares do país servem tão bem de laboratório quanto o Rio de Janeiro. Nos três últimos governos, o estado foi comandado por Luiz Fernando Pezão, do MDB, preso pela Polícia Federal em 2018, ainda no exercício do mandato; por Wilson Witzel, eleito pelo PSC prometendo uma polícia que miraria “na cabecinha”, afastado pelo Superior Tribunal de Justiça antes de completar dois anos de governo e cassado por impeachment em 2021, por irregularidades em contratos da saúde durante a pandemia; e por Cláudio Castro, que assumiu no lugar de Witzel e se reelegeu pelo PL. Recuando um pouco mais, todos os governadores eleitos no estado desde 1998 terminaram presos, afastados ou declarados inelegíveis. No meio desse percurso, o Rio experimentou um dos remédios mais fortes que a Constituição oferece. Em fevereiro de 2018, a segurança pública fluminense foi posta sob intervenção federal, a primeira decretada desde 1988, com um general do Exército no comando das polícias até o fim daquele ano. O problema sobreviveu à intervenção, como sobreviveu às trocas de sigla.
O capítulo de Castro foi escrito neste ano. Ele renunciou ao governo em 23 de março, véspera do julgamento em que o Tribunal Superior Eleitoral, por cinco votos a dois, reformou a absolvição obtida no TRE fluminense e o declarou inelegível até 2030 por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. A mesma decisão cassou o mandato do então presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar, e o tornou inelegível. O processo tratava de milhares de contratações sem transparência na Fundação Ceperj e na Uerj, com pagamentos feitos em boa parte por saque na boca do caixa. Talvez esteja aí uma das respostas que a campanha prefere não dar. Não faltou àquele governo capacidade de mobilizar a máquina pública em grande escala; faltou destiná-la ao que agora se promete. Com o governador fora, o vice sem o cargo e o chefe do Legislativo cassado, o estado chegou a ser governado interinamente pelo presidente do Tribunal de Justiça.
Agora, a cédula. Entre os que pediram o voto para governar o estado nesta eleição estiveram um ex-governador que, depois de deixar o cargo, comandou a Secretaria de Segurança e prometeu uma nova tropa de elite para ocupar de vez as áreas do tráfico, e um candidato que até há pouco integrava o secretariado do governo agora marcado pela inelegibilidade e que, em campanha, disse desaprovar a gestão da qual fez parte. Os dois puseram a segurança no centro de suas propostas. O primeiro abriu mão de defender o registro da própria candidatura depois da apuração; o segundo terminou o primeiro turno à frente, com quase metade dos votos válidos. O mesmo critério vale para o adversário que ficou em segundo lugar, que foi secretário de um dos governadores depois presos e se elegeu prefeito pela primeira vez com o apoio dele. Ninguém nesta disputa chega de fora da história que promete corrigir, e não há nada de errado nisso. O problema começa quando o passado é tratado como assunto encerrado. O Rio apenas exibe com mais nitidez um mecanismo que se repete, em escala menor, em quase todos os estados e na disputa nacional: quem governou enquanto o problema se formava se apresenta agora como quem vai resolvê-lo.
Discutir apenas se a proposta é dura o bastante, portanto, é discutir pouco. Interessa saber por que não foi feita antes e, se foi, por que não funcionou; se não podia ser feita, o que impedia; se faltavam instrumentos legais, quais; se faltou apoio político, quem o negou. Em campanha, perguntas assim soam como provocação. São apenas a forma elementar da prestação de contas que a Constituição, no parágrafo único do artigo 70, impõe a quem administra dinheiro, bens e valores públicos. Quem já passou por uma controladoria pública sabe que esse rito é pouco glamoroso, feito de documentos, prazos e explicações que ninguém aplaude, e sabe também como é fácil, para quem governa, tratá-lo como formalidade. O eleitor, curiosamente, costuma dispensá-lo justamente de quem lhe pede o voto.
O sequestro só se completa com a colaboração da vítima, e aí está a parte menos confortável desta reflexão. Antes de saber se uma afirmação é verdadeira, aprendemos a perguntar de que lado está quem a fez, e a mesma mudança de posição que no aliado parece amadurecimento vira, no adversário, prova de incoerência. O algoritmo, que redescobriu sozinho o que a política sabe há séculos, faz o resto e entrega a cada eleitor uma versão personalizada do país, em que todos os fatos lhe dão razão. Contra isso, a defesa mais barata é uma instituição antiga, sem assessoria de imprensa nem verba de impulsionamento, chamada memória. Ela pede pouco: saber quem diz, o que fez quando teve poder, quem esteve ao seu lado, o que mudou desde então e que evidência sustenta o que promete. É um exame singelo, que serve à esquerda e à direita, a quem promete ordem e a quem promete justiça social, desde que a régua seja a mesma para todos.
Ninguém deveria exigir políticos sem passado; basta exigir que respondam por ele. Governar é escolher, quem escolhe erra, e o erro, por si só, raramente degrada a política. Ela se degrada pela desonestidade de quem apaga o próprio rastro e pela complacência de quem aceita a borracha porque gosta do desenho que sobra. Todo sequestro termina quando o refém se lembra de quem é. No caso do eleitor brasileiro, de qualquer estado e diante de qualquer cargo em disputa, lembrar de quem é significa lembrar do que viu, de quem governava quando viu e do que lhe foi prometido antes. Promessa sobre o futuro qualquer um faz, e só o passado permite conferi-la. Por isso, antes de perguntar ao candidato onde ele estava, convém fazer a nós mesmos a pergunta que nenhuma campanha gostaria que fizéssemos: o que, exatamente, estamos dispostos a esquecer para continuar acreditando?

*Luciano Martins é advogado

Banco Mundial apoia hidrelétricas de alto risco

* Por Lúcio Flávio Pinto

A pior enchente da história do Nepal motivou a sociedade civil internacional a pedir ao Banco Mundial que suspenda o financiamento de projetos hidrelétricos “de alto risco”. O banco realiza sua reunião anual em Bangcoc nesta semana. Por alto risco, 122 organizações da sociedade civil de 38 países entendem tratar-se de grandes usinas hidrelétricas “em vales montanhosos vulneráveis”, após o desastre das enchentes no Nepal em agosto.
Seria o caso de essas entidades pedirem um levantamento mais amplo, mesmo em relação a hidrelétricas que não têm uma localização em terrenos extremamente movimentados e com extensas geleiras. A Amazônia, por exemplo, é uma planície, em alguns trechos um planalto. Mas nelas funcionam atualmente quatro das maiores usinas do planeta.
As empresas privadas e o governo não consideraram os problemas ecológicos e sociais com suficiente profundidade, como o fenômeno climático El Niño, que tem causado as mais severas secas e diminuído o nível e o volume das águas, impedindo que essas hidrelétricas mantenham sua geração. Mas também impactando pessoas e a fauna, que dependem do rio para a sua sobrevivência.
Um deslizamento de rochas e gelo na fronteira entre o Nepal e o Tibete provocou uma inundação repentina no corredor fluvial entre os rios Bhotekoshi e Trishuli, matando 1.455 pessoas; 5.285 permanecem desaparecidas, ente os quais estão centenas de trabalhadores do projeto hidrelétrico Upper Trishuli-1, financiado pelos braços do setor privado do Grupo Banco Mundial, a IFC e a MIGA, e cofinanciado por um consórcio de outras instituições financeiras de desenvolvimento.
Os signatários da carta argumentam que o impacto do desastre reflete falhas sistêmicas na forma como o Grupo Banco Mundial financia a energia hidrelétrica. O banco continua a apoiar barragens em vales montanhosos de alto risco, enquanto suas regras de salvaguarda permitem que os projetos avancem sem uma avaliação completa dos riscos. É o que consta do seu Documento de Abordagem para Hidroeletricidade de 2026.
Além disso, está ampliando o financiamento de projetos hidrelétricos em todo o mundo, aprofundando a dependência dos países em uma tecnologia que as mudanças climáticas estão tornando mais arriscada e menos confiável. Ao mesmo tempo, o grupo Banco Mundial está voltando a financiar grandes. Os grupos alertam que a reconstrução de usinas hidrelétricas nos mesmos vales de alto risco exporia trabalhadores e comunidades a um novo desastre.
Com a maior bacia hidrográfica do planeta, a Amazônia é um a das regiões mais visadas, a pretexto de proporcionar energia limpa, uma visão que já não se sustenta mais. Precisa receber uma nova concepção.
O que os grupos estão pedindo
A carta convida o Grupo Banco Mundial a deixar de tratar as grandes centrais hidroelétricas como uma solução climática e a:
Declarar rios de montanha com risco de indisponibilidade para grandes projetos hidrelétricos e outras mega infraestruturas, começando pela Ásia de Alta Montanha.
Impor uma moratória imediata em todas as grandes centrais hidroelétricas e em cascata em seu portfólio até que sejam realizadas avaliações de risco independentes em toda a bacia.
Eliminar as brechas que permitem que projetos sejam aprovados e financiados antes que as avaliações de risco e os planos de salvaguarda estejam concluídos.
Apoie a recuperação do Nepal por meio de reparações e doações, e não por meio de novas dívidas que perpetuam os mesmos riscos.
Ajudar os países dependentes da energia hidroelétrica a diversificar seus sistemas energéticos.
A carta conta com o apoio de 122 organizações de 38 países, quase metade delas do Sul da Ásia, incluindo 24 do Nepal. Os signatários variam de grupos indígenas, juvenis e jurídicos nepaleses a redes de defesa de rios, clima e responsabilidade financeira na Ásia, África, Europa e Américas.

* Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Acesse o novo site do jornalista aqui http://www.lucioflaviopinto.com.

Uma eleição on-line

* Por Fernando Gabeira

A eleição não acabou, mas posso dizer que foi uma das mais singulares da História. Assisti a algumas antes e a todas depois da redemocratização. Uma das características de agora é a incontestável hegemonia das redes sociais.
Ouso dizer que essa hegemonia provoca nos eleitores o mesmo efeito que já vemos em nosso cotidiano: um déficit de atenção. Não discutimos tópicos de programas. Saltamos de um tema para outro, e eles se sucedem com rapidez. Nossa Senhora, “Dark Horse”, uma ou outra frase mal colocada pelos adversários. Os problemas deixam de tratar do futuro nacional e se transformam em simples trends.
Isso significa uma perda de conteúdo. Pouco sabemos da política externa do candidato vitorioso no primeiro turno. Claro, sabemos que se alinhará aos Estados Unidos. Mas isso não basta. Um país é diferente de outro, tem interesses específicos. Quem seremos nós, além de aliados dos americanos? Abriremos mão de nossa identidade, nos suicidaremos nos braços do outro?
Acho inadequado o termo pacificação. Não estamos em guerra. Mas uma tentativa, ainda que modesta, de unificar um país dividido poderia ajudar em alguns temas que dependem de um esforço nacional. Estamos diante de um dos mais poderosos El Niños da História. Podemos enfrentá-lo em conflito ou ter algumas concordâncias essenciais para reduzir os estragos.
Antes mesmo do segundo turno, as tendências vingativas aparecem aqui e ali. A expressão “sem anistia” muda de lado com uma incrível facilidade, como se a punição fosse uma das responsabilidades dos vencedores.
O que digo aqui não significa passar pano nos erros do Supremo. Eu mesmo fiz pressão por afirmar, um pouco antes do tempo, que era preciso reformá-lo de ponta a ponta. Os vencedores precisarão saber que o Brasil é um país complexo, que não é qualquer governo que consegue atender às expectativas de nosso povo. Essa história de ficar décadas no poder é uma ilusão. A alternância é a possibilidade mais forte. Olhem os Estados Unidos. Trump está à beira de perder suas primeiras grandes eleições.
Os eleitores de esquerda estão fazendo um extraordinário esforço para virar o jogo. Foram levemente minoritários no primeiro turno. Sua dedicação é algo que aponta também para o futuro. Nem sempre os líderes estiveram à altura de tanta energia positiva. Certamente, depois das eleições, os eleitores se tornarão mais importantes ainda e deverão avaliar sem paixão se a liderança, em caso de vitória ou derrota, não deveria se renovar, entendendo por isso não apenas a atração de jovens, mas uma sacudida nas suas ideias.
A História não acaba com a ascensão da direita. Ela pode se arrastar um pouco, mas o exemplo da Hungria está aí para mostrar como é dinâmico o curso das coisas num país.
Não sei se verei a eleição de 2030. Dentro dos limites, estarei aqui para lembrar como é surpreendente e rica nossa História. O diabo é que também é algo difícil de interpretar, tão rápidas e amplas são suas mudanças.

* Escritor, Jornalista e ex-deputado federal

Cuidado com o canto da sereia, crianças

* Por Marli Gonçalves

No momento esse imenso navio é o Brasil. Não é só uma sereia que nesse momento entoa o canto melodioso e confuso que enquanto fala em liberdade pode, ao invés disso, tomá-la de assalto; é um sobrenome cercado de gente estranha, de tubarões e outros seres saídos sabe-se lá de qual buraco sombrio, talvez digitais, muitos jovens. Não lembro de na vida ter ouvido tantas bobagens como a que sai dessas bocas que, aliadas, já nos infernizam abertamente antes até do fim desta viagem que pode acabar muito mal.
Não adiantará taparmos nossos ouvidos – essa “sereia”, da enorme e terrível familícia, mais os seus aliados, lembram a turma da bruxa Úrsula, mulher, sereia de tentáculos vorcarianos de polvo, da história de Ariel, A Pequena Sereia, e que dela rouba a voz com promessas. Maligna, envolvendo o povo com seus acordos perigosos em troca, sim, de suas almas e vozes. O horror de um pulo ao desconhecido. Mais um salto na história que na realidade sabemos – já vivemos outras vezes – onde pode levar.
Na ânsia de muitos que seja alcançado um lugar seguro, diferente, trocando o certo (ok, mais ou menos certo, mas ao menos bem conhecido) pelo duvidoso, nossas pernas podem se trançar, trazendo muita dor como no conto (Hans Christian Andersen, 1837) da sereinha que, por um príncipe, trocou seu belo rabo.
As sensações e a angústia que vejo também em meus pares, que ainda acreditam obstinadamente na possibilidade de salvação tem feito nesses dias meu coração disparar como nunca. Dou graças a recentemente ter passado por um check-up total analisado pelo meu querido cardiologista Charles Mady. Senão, diria até que essa palpitação, essa verdadeira dor que sinto, ampliada essa semana, seria um problema. Tudo bem. O diagnóstico atual é de uma ansiedade enorme, baseada na intuição cultivada ao longo de décadas de vida, de jornalismo, de política, de campanhas, de detecção até espiritual que tantas vezes me salvou, me livrou do mal, alertando. Um radar que não para de apitar. Na verdade, gritar. Mas sozinho ninguém faz um verão. E nem todos verão, infelizmente, o que me parece tão transparente.
Ainda na historinha infantil, baseada em fábula que desde menina me fascina, lembro dos alertas de perigo dados à sereinha, do desespero do Linguado, do caranguejo Sebastian. Vejo a gaivota Sabichão que, com conselhos errados, impulsiona Ariel a acreditar no tal reinado em terra firme.
Tudo muito errado, esquisito, lento e precipitado, nos dividindo ainda mais. Essa sereia terrível não canta, mas está produzindo uma espuma doce e pegajosa de atração ao tal poder, atraindo para si quem dele quer se lambuzar, como moscas, derrotados rancorosos em busca de pequenas vitórias que os mantenham. Vitórias de Pirro. Aquela, do sucesso inútil, que se equipara ao tamanho da imensa derrota, que só conhecerão de verdade quando traídos e jogados ao mar. Naufragarem. Virarão espuma, arrependidos.

* Jornalista


Ficha Limpa ameaça políticos eleitos em 2026

Eleitos nas urnas de outubro de 2026, o senador paranaense Deltan Dallagnol (Novo) e o governador amapaense Antônio Furlan (PSD) enfrentam turbulências jurídicas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob a acusação de terem renunciado previamente a cargos públicos para escapar da Lei da Ficha Limpa, gerando forte instabilidade institucional e incerteza política em dois importantes estados brasileiros.
A controvérsia jurídica gira em torno da interpretação de dispositivos da Lei Complementar número 64 de 1990, que busca coibir manobras de desincompatibilização simulada. Enquanto o Ministério Público Eleitoral aponta que ambos os políticos anteciparam suas saídas de funções públicas para blindar seus mandatos contra processos disciplinares pendentes, suas defesas sustentam a plena legalidade das movimentações e o respeito aos prazos constitucionais exigidos para a disputa.
No caso de Dallagnol, que obteve cerca de 2,9 milhões de votos, o plenário do TSE julga nesta quinta-feira (8) um recurso crucial que pode definir o destino de sua cadeira no Senado Federal. O político já havia sido barrado pelo TSE em 2023 quando era deputado federal, mas agora tenta reverter o entendimento desfavorável após obter liberação inicial por quatro votos a três no Tribunal Regional Eleitoral do Paraná.
Já o processo de Antônio Furlan, que deixou a prefeitura de Macapá no dia 5 de março de 2026 — um dia após uma representação política na Câmara Municipal —, está travado na mais alta Corte Eleitoral desde 24 de setembro, após pedido de vista do ministro André Mendonça. O relator Dias Toffoli já votou pelo indeferimento do registro por entender que a renúncia teve o objetivo oculto de soterrar denúncias de cassação.
Especialistas em direito eleitoral apontam que a decisão final do TSE nestes dois processos servirá de jurisprudência definitiva para balizar o rigor da aplicação da Ficha Limpa em todo o país. Para os eleitores que depositaram suas expectativas nas urnas, a demora e a polarização jurídica representam um golpe duro na previsibilidade democrática, deixando a governabilidade de regiões inteiras sob a sombra da incerteza e da desconfiança institucional.
Diante do impasse, juristas e observadores políticos alertam para a urgência de uma padronização mais transparente nas regras de desincompatibilização para evitar que manobras de bastidor continuem sobrepujando a vontade popular expressa pelo voto. Resta saber se o plenário do TSE priorizará o rigor moralizador da legislação ou a soberania das urnas, definindo o rumo de lideranças que mobilizaram milhões de eleitores.

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MANAUS SUFOCA EM NÉVOA TÓXICA
Há duas semanas, Manaus amanhece sob densa fumaça e cheiro forte de queimadas, elevando a média de poluição para mais do que o dobro do recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Com dados alarmantes do sistema Selva, da Universidade do Estado do Amazonas, a qualidade do ar é péssima, forçando moradores a usarem máscaras devido a irritações nos olhos e vias respiratórias. O fenômeno é agravado pelo El Niño e por temperaturas recordes, como os 38,6°C recentes. O Inpe registrou alta de 244% nos focos de incêndio no estado em setembro, espalhando chamas também para a região metropolitana.

CALOR EXTREMO TRAZ RISCO MORTAL
Relatório do Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago projeta 451 mil mortes adicionais relacionadas ao calor globalmente entre junho de 2026 e fevereiro de 2027. No Brasil, a estimativa chega a 13,3 mil óbitos. A pesquisa analisou dados de 24.378 regiões cruzados com previsões de longo prazo. Com temperaturas terrestres estimadas em 1,2°C acima do normal e um aumento de 44% nos dias de calor extremo, o estudo alerta que o cenário antecipa condições climáticas previstas para daqui a duas décadas. Esse forte El Niño funciona, portanto, como um verdadeiro cartão-postal do futuro, evidenciando os graves riscos climáticos que exigem atenção imediata.

STF COBRA SENADO SOBRE ACESSOS
O ministro Luiz Fux, do STF, deu dez dias para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, se manifestar sobre os registros de entrada e saída de oito pessoas desde fevereiro de 2019. A lista inclui Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, Daniel Vorcaro e Fábio Luís Lula da Silva. A ação originou-se de pedidos de acesso à informação feitos por um vereador de Curitiba via LAI. Fux assumiu a relatoria após Moraes declarar impedimento. Por ora, o STF não ordenou a divulgação imediata dos dados, aguardando as informações do Senado e, em seguida, o parecer do Ministério Público.

A RELAÇÃO COM O BANQUEIRO
Novas mensagens revelam que o advogado Walfrido Warde informou ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, em janeiro de 2025, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria agradecido por um whisky e enviado um abraço. A conversa ocorreu após um encontro entre Warde e o presidente, 49 dias depois de uma reunião oficial de Vorcaro no Planalto. Os diálogos também mostram que o advogado tentou intermediar aproximações anteriores a pedido da equipe presidencial. O Palácio do Planalto negou o recebimento de presentes, o envio de recados e qualquer outro contato, ressaltando que foi na atual gestão que o Banco Central liquidou o Banco Master e Vorcaro foi preso.

PF APURA CONTRATOS DA UNIGEL
Mensagens apreendidas pela Polícia Federal no celular da lobista Roberta Luchsinger revelam que ela enviou a um ex-assessor do Senado documentos sobre contratos da Unigel. A investigação apura corrupção e tráfico de influência. Posteriormente, a subsidiária Proquigel firmou 19 contratos com a Petrobras, totalizando R$ 176,8 milhões sem licitação a partir de 2025. Luchsinger também tentou viabilizar reuniões no BNDES e na Petrobras, cobrando o ex-chefe de gabinete presidencial Marcola por intermediação. Amiga do filho de Lula, ela recebeu doação de um diretor da Unigel em 2018. A empresa negou qualquer vínculo contratual ou representação institucional por parte da empresária investigada.

CALOR INTENSO ATINGE O AMAPÁ
O Amapá enfrenta semanas de calor intenso com máximas que podem chegar a 36°C em Macapá, acompanhadas de sol forte. O cenário é impulsionado pelo fenômeno El Niño 2026-2027, que apresenta probabilidade superior a 90% de alcançar intensidade muito forte entre setembro e novembro. O prognóstico climático indica chuvas reduzidas em várias regiões, aumentando os riscos de seca e queimadas. Apesar de algumas áreas do centro e norte ainda registrarem chuvas próximas à média, a recomendação das autoridades é clara: reforce a hidratação, evite a exposição solar prolongada e redobre os cuidados com crianças e idosos durante este período de altas temperaturas prolongadas.

O LUXO CARO DE LULA
Quem quiser desfrutar da mesma experiência de Lula no Hyatt Grand Central New York precisa preparar o bolso. A suíte presidencial custa cerca de R$ 30 mil por dia e oferece 130 metros quadrados de puro luxo, incluindo sala de jantar para seis pessoas e banheiro de mármore com hidromassagem. Bem localizado próximo ao Central Park e ao Empire State, o hotel também pesa no estômago e no orçamento: pratos individuais no restaurante custam mais de R$ 175 cada. Vale lembrar que o pagador de impostos bancou a luxuosa viagem de 48 horas do petista aos Estados Unidos, hospedando a comitiva em dois hotéis diferentes, incluindo o Park Lane. A fatura total ultrapassa a marca de R$ 3,2 milhões.

PF MIRA DESVIOS NO AMAZONAS
A Polícia Federal deflagrou a Operação Combustão nesta quinta-feira (24) para cumprir seis mandados de busca e apreensão e bloquear R$ 17 milhões em bens. A investigação apura um suposto esquema de desvio de recursos públicos da Aadesam para financiamento eleitoral ilegal nas eleições de 2022, no primeiro mandato de Wilson Lima. O caso ganha novos contornos com indícios de reedição do esquema na campanha atual de Roberto Cidade. Mensagens revelam cobrança de dados de funcionários para atuação política. Os suspeitos podem responder por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro, corrupção e falsidade ideológica eleitoral.

DEBATE SOBRE A DEFESA AMAZÔNICA
Durante dois dias, a Unifap transformou-se no epicentro dos debates sobre segurança, soberania e os desafios das fronteiras amazônicas. O 7º Simpósio de Defesa Nacional reuniu pesquisadores, militares e pós-graduandos para discutir temas estratégicos cruciais, como migração, direitos humanos, segurança marítima e a proteção da chamada Amazônia Azul. A programação do evento destacou a urgência da integração entre os países da região das Guianas para promover o desenvolvimento e a vigilância dessas áreas sensíveis. Além das mesas-redondas enriquecedoras, o encontro contou com minicursos práticos e uma conferência internacional de grande relevância, consolidando o papel acadêmico e geopolítico da universidade federal no estado.

POPULISMO DISTANTE DO LIBERALISMO REAL
A economista Daniella Marques, cotada como vice de Flávio Bolsonaro, carrega a fama de “Paulo Guedes de saia”, mas o liberalismo da chapa naufraga na prática. Em live recente, a dupla flertou abertamente com o estatismo e o assistencialismo ao propor o fornecimento de celulares e internet gratuita para 70 milhões de mulheres e idosos. Mirando dividendos eleitorais e tentando reagir ao desfavorecimento nas pesquisas contra Lula, as propostas mimetizam o populismo fiscalmente irresponsável. Flávio ainda defendeu transformar a Caixa Econômica no “Itaú da favela”, ampliando a atuação da estatal. A guinada revela uma estratégia pragmática de pré-campanha que atropela a cartilha econômica liberal.

HIPOCRISIA MARCA DEMISSÕES NO ICL
O empresário Eduardo Moreira, dono do site ICL Notícias e aliado do presidente Lula, virou alvo de duras críticas nas redes sociais. Em vídeo, ele justificou a demissão de 15 jornalistas revelando que antecipou a distribuição de lucros aos sócios para evitar o pagamento de R$ 5 milhões com a nova tributação sobre dividendos. A manobra escancara a contradição do discurso progressista do “banqueiro do bem”, ferrenho defensor da justiça fiscal e do imposto sobre os mais ricos. Após tentar uma vaga no conselho da Petrobras e criticar os lucros da estatal, Moreira aplica na própria empresa o oposto do que prega, sacrificando empregos para blindar o próprio caixa.

CONGRESSO BUSCA REELEIÇÃO EM MASSA
As eleições de 2026 devem registrar o maior índice de parlamentares buscando a reeleição na série histórica monitorada pelo Diap. Um levantamento preliminar aponta que 448 dos 513 deputados federais planejam disputar um novo mandato, o que representa expressivos 87,32% da composição atual da Câmara. O forte movimento supera os índices observados em 2022. Segundo analistas, fatores como a facilidade de acesso a vultosos recursos eleitorais, o peso das estruturas partidárias e o endurecimento das regras para siglas menores favorecem diretamente quem já está no cargo. O cenário indica um forte bloqueio à renovação política tradicional e a consolidação das forças atuais no Congresso.

DEBOCHE

POR JOSÉ P. C. FILHO

Afinal de contas, de quem riem os ilustres ministros?

A cena em Lisboa deixa muito evidente de quem o poder realmente zomba: riem de todos nós.

ANCESTRALIDADE

POR FÁTIMA GUEDES

Entre a cartilha e a vida, saberes populares resistem

Ao analisar pontes invisíveis de dominação, o debate alerta sobre a perda da sensibilidade e da ancestralidade.

COLHEITAS

POR PERCIVAL PUGGINA

Blindagem no Senado tenta tapar o sol com peneira

A imagem de ministros rindo retrata o descaso de autoridades diante da maior crise do Judiciário brasileiro.


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