CULTURA

Macapá (AP) — Terça-feira, 20 de outubro de 2026


Filme de terror disponível no Prime Video desafia Hollywood ao trocar redenção por tiro militar

O longa-metragem “Extraterrestrial” recicla clichês da ficção científica e do terror adolescente para subverter totalmente as expectativas de Hollywood, trocando a tradicional catarse da sobrevivência por um desfecho niilista e sombrio

Brittany Allen brilha como April neste terror de ficção científica. O que seria um fim de semana de festa na floresta transforma-se em uma luta aterrorizante pela sobrevivência contra alienígenas impiedosos que cercam a cabana — Foto: Divulgação

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
09/10/2026 | 18h50

O cinema industrial nos habituou à anestesia do final feliz. Há décadas, o espectador médio é conduzido por narrativas de manual, fórmulas milimetricamente desenhadas para que conflitos se dissipem no terceiro ato e os protagonistas alcancem a redenção. Sobreviventes de catástrofes, casais reconciliados e heróis improváveis costumam encerrar suas jornadas fitando o horizonte à beira de um penhasco ou à beira-mar, banhados pela luz dourada da superação. Essa promessa reconfortante de ordem restaurada, contudo, sofre um curto-circuito deliberado em “Extraterrestrial” (lançado no Brasil com o redundante subtítulo “Encontro Paranormal”), longa-metragem de 2014 disponível no catálogo do Prime Video.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

Dirigido por Colin Minihan — creditado sob a alcunha de The Vicious Brothers —, o filme opera inicialmente sob o manto do lugar-comum. A premissa não faz cerimônia ao reciclar os chavões mais batidos do terror adolescente: um grupo de amigos viaja para passar o fim de semana em uma cabana isolada na floresta, longe do sinal de celular e cercada por densa vegetação. É o clássico microcosmo de imprudência juvenil e consumo de substâncias, cenário propício para o colapso iminente. No entanto, no lugar de um maníaco mascarado empunhando ferramentas cortantes, o catalisador da desgraça surge do céu noturno sob a forma de um objeto voador não identificado.

A partir desse ponto de virada, a obra se assume como uma colcha de retalhos devotada à ficção científica de baixo orçamento. Ao descobrirem os invasores alienígenas, os personagens entram em espiral de pânico, culminando na abdução e no confinamento dentro da nave espacial. Lá dentro, o roteiro não economiza em imagens viscerais: os seres humanos são submetidos a exames invasivos e experimentos grotescos, resgatando a mitologia clássica da ufologia sensacionalista dos anos 1990. Os recursos visuais e os sustos são conhecidos de qualquer um que já tenha transitado pelo gênero B, executados com aquela urgência ruidosa que beira o pastiche, mas que mantém o motor da diversão funcionando com notável vigor.

O grande mérito da experiência, contudo, reside na sua recusa em conceder a catarse da sobrevivência. Se a cartilha de Hollywood exigiria que o casal central escapasse miraculosamente da abdução e vivesse para contar a história, “Extraterrestrial” prefere puxar o tapete do público com um cinismo cortante. Ao retornarem à Terra após sobreviverem aos horrores extraterrenos, os jovens apaixonados não encontram acolhimento, socorro médico ou o aconchego dos braços familiares. Em vez disso, deparam-se com a frieza burocrática e impiedosa do exército norte-americano.

Os militares executam sumariamente os sobreviventes e carbonizam seus corpos para apagar qualquer vestígio biológico ou testemunho do contato intergaláctico. O destino trágico se alastra para os demais membros da turma pelas mãos de uma figura sombria vestida de preto, um aceno nada sutil ao emblemático Canceroso da série “Arquivo X”. Não há espaço para heroísmo, comoção pública ou denúncia triunfante; a engrenagem institucional da paranoia e do acobertamento governamental é tão brutal e implacável quanto a sonda alienígena.

Essa reviravolta desconcertante eleva o projeto acima da média do terror descartável que povoa os serviços de streaming. Ao trocar o abraço reconciliador por um tiro à queima-roupa e um maçarico militar, a produção subverte a expectativa básica do conforto narrativo. O horror real não reside apenas no desconhecido que desce das estrelas para violar nossa carne, mas na certeza mundana de que o próprio Estado nos transformará em cinzas para proteger seus segredos sujos.

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Longe de ser uma obra-prima de sutileza dramática, o filme funciona precisamente porque compreende suas origens e abraça o descaro do entretenimento de gênero. Trata-se de uma sessão despretensiosa, por vezes pueril na execução de suas convenções estéticas, mas que se agiganta pela ousadia de seu desfecho niilista. Em uma época dominada por algoritmos que calculam minuciosamente o nível de afago e satisfação do espectador, encontrar uma fita disposta a encerrar sua história sem sorrisos e sem sobreviventes é um sopro genuíno de rebeldia pop.

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