Macapá (AP) — Quinta-feira, 16 de abril de 2026
‘One To One’ revela detalhes do engajamento político de John Lennon e Yoko Ono
Documentário ‘One to One: John & Yoko’ cobre o primeiro ano da vida de John Lennon e Yoko Ono nos Estados Unidos e mostra como eles usaram sua fama para causas políticas

POR MAURA MARTINS
Publicado originalmente no site ESCOTILHA
14/04/2026 | 11h54
Há mais alguma coisa que possa ainda ser descoberta sobre os Beatles? Por vezes, as novidades têm a ver sobre novos modos de reorganizar o material sobre eles, possibilitando um olhar para a sua história sob outros ângulos. A proposta do documentário One to One: John & Yoko é a de nos fornecer relances da vida cotidiana e coletiva de John Lennon e Yoko Ono logo ao se mudarem para os Estados Unidos, amarrando-a com o que transcorria no mundo naquele momento.

Dirigido por Kevin Macdonald (de O Último Rei da Escócia), o filme situa a vinda dos Lennon para Nova York em agosto de 1971, onde eles moraram em um pequeno apartamento no West Village antes de mudarem para o edifício Dakota. Foi neste local que deram várias entrevistas que ficaram conhecidas e começaram a articular a sua vida nos Estados Unidos. Enquanto isso, explodia no país crises políticas (como as reivindicações das minorias, como a população negra, gay e a rebelião dos presos de Attica, além da crítica crescente à Guerra do Vietnã), contra as quais John e Yoko se posicionavam publicamente. Isso os colocou como inimigos declarados do presidente Richard Nixon, que articulou para que eles fossem deportados do país.

O casal Lennon tornou-se
inimigo declarado de Nixon
ao apoiar minorias e presos.
O ativismo radical de John
quase causou sua deportação.
As tantas imagens coletadas pelo documentário nos lembram que o casal era então uma peça-chave naquele cenário cultural, e que oportunamente os dois buscavam usar a atenção que recebiam para tentar promover mudanças reais no país. O tempo coberto pelo filme envolve um ano, período em que eles tentavam viabilizar ideias revolucionárias.
Uma delas era organizar a turnê “Free the People”, na qual o dinheiro que arrecadariam com ingressos seria usado para o pagamento da fiança de prisioneiros políticos injustamente encarcerados. Não dá certo, e eles passam a preparar o show beneficente “One to One”, que levantava fundos em prol da escola estadual Willowbrook, que cuidava de crianças com deficiência. O show ocorreu em 30 de agosto de 1972, e contou com a participação de convidados como Stevie Wonder e Roberta Flack.

Um dos aspectos mais interessante de One to One: John & Yoko é a costura narrativa que ele faz: a história é contada por meio de registros muito ricos de John e Yoko, incluindo gravações de conversas telefônicas, que são amarrados ao lado de cenas – como comerciais, coberturas jornalísticas e pronunciamentos políticos – que passavam na televisão estadunidense naquela época. E tudo isso é projetado dentro de uma tela de um aparelho de TV situado no quarto de John e Yoko, como se eles mesmos estivessem assistindo, zapeando tranquilamente.

Yoko Ono expõe o machismo
dos Beatles ao revelar que
nenhum integrante do grupo
a defendeu das agressões e
culpas pela separação da banda.
Em uma das primeiras cenas de One to One, ouvimos John Lennon dizer a um entrevistador que adorava ver TV, pois isso o lembrava da infância e fazia se sentir abraçado. Curiosamente, o que o filme vai nos dizendo é que, naquele primeiro ano em que viveu em Nova York, o casal provavelmente assistiu menos à televisão do que gostariam.
Pelo contrário: eles estiveram militando de forma ativa em prol de muitas causas. Para isso, buscaram se associar a nomes ligados à contracultura, como o poeta Allen Ginsberg, o ativista Jerry Rubin e o polemista AJ Weberman, que lutou em prol da causa de tornar os artistas mais políticos e menos burgueses. Weberman ficou conhecido por sua obsessão por Bob Dylan e por vasculhar o lixo dele (em uma das cenas mais curiosas do filme, Yoko implora a Weberman para que peça desculpas ao músico para que ele aceite participar da turnê “Free The People”).

De lixo vasculhado a moscas
vivas para performances, o
filme revela a obsessão da
contracultura e a dependência
total de John por Yoko Ono.
As diversas ligações telefônicas reproduzidas são, muito provavelmente, o fato mais inédito aos fãs no filme. Há nelas, de fato, muita riqueza a ser descoberta. Em diversos momentos, Yoko Ono fala com interlocutores sobre o machismo que sofre por ser acusada de ter separado os Beatles, e reclama que os músicos nunca se posicionaram publicamente para defendê-la (“isso é machismo”, ela proclama). Em outro, a então assistente de Yoko, May Pang (que depois ficaria conhecida por ter um caso com John Lennon no período que esteve separado da esposa), fala com várias pessoas para tentar conseguir moscas vivas que seriam usadas em uma exposição de sua chefe. O resultado da performance é nos exibido no filme.

Outro aspecto que fica bastante evidente é a devoção de John Lennon a Yoko – de quem ele dependia fortemente para toda e qualquer decisão da vida prática, conforme fica bem explicado no livro John, Yoko e Eu, de Elliot Mintz. Em várias entrevistas, ele se declara à esposa enquanto denuncia o machismo de que ela seja sempre chamada de feia, em uma caracterização que nunca era aplicada aos homens.

John Lennon tentou financiar
a soltura de presos políticos
com a turnê Free the People,
unindo o rock à militância
direta contra o sistema.
Tudo isso é intercalado por cenas do show “One to One”, que se tornou icônico. Nesses momentos, vemos John e Yoko entoar clássicos como “Mother”, “Come Together”, “Instant Karma! (We All Shine On)” e “Imagine”, misturando os formatos de documentário musical e focado em cenas de bastidores muito íntimas
A vida cotidiana do casal aparece de forma tocante no longa, com destaque ao sofrimento que Yoko sentia pelo afastamento de sua filha Kyoko, que teve antes de conhecer John (ele também já era pai de Julian Lennon). Kyoko foi afastada da mãe aos quatro anos e criada pelo pai em uma comunidade cristã, sem nunca ter acesso a ela. Nesta época, John e Yoko viajaram o mundo e gastaram muito dinheiro no intuito de recuperá-la. Essa dor é evidenciada no show “One to One” quando ela parece se rasgar inteira ao entoar “Don’t Worry Kyoko (Mummy’s Only Looking For Her Hand In The Snow)”.

De forma muito potente, One to One: John & Yoko se encerra mostrando a chegada das crianças da escola Willowbrook para conferir o show (Lennon declara em certo momento que essas crianças o comoviam pois elas carregavam toda a dor do mundo). É uma cena linda e que deixa muito claro o quanto essa dupla de artistas importou no mundo – no campo musical, mas também fora dele. É um documentário imperdível não só para quem é fã dos Beatles, mas qualquer um que se interesse por cultura.




