Macapá (AP) — Segunda-feira, 01 de junho de 2026
Inflação impulsionada pelo petróleo atinge famílias amapaenses e força cautela nos juros do Banco Central
Com a alta do diesel e dos fretes, a inflação de 2026 ameaça estourar o teto da meta. O cenário pressiona a popularidade do governo Lula em ano eleitoral, enquanto o consumidor no Amapá sente o impacto direto nos supermercados

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
03/05/2026 | 15h30
A inflação voltou a assombrar o cotidiano de milhares de amapaenses em abril de 2026, impulsionada pela escalada da guerra no Irã, que desestabilizou o mercado global de petróleo e forçou um aumento generalizado nos custos de vida na Amazônia e no Brasil. O fenômeno, que ocorre após um período de relativa calmaria em 2025, manifesta-se através de altas acentuadas nos combustíveis, fretes e alimentos, pressionando o Banco Central a adotar cautela na redução dos juros e criando um revés político para o governo Lula em pleno ano eleitoral. De acordo com indicadores recentes como o IPCA-15, o choque internacional elevou a inflação acumulada para 4,4%, aproximando o índice do teto da meta e corroendo o poder de compra das famílias que ainda se recuperavam dos impactos econômicos da pandemia.

O otimismo que marcou o início do ano, amparado pela valorização do real, deu lugar a uma preocupação persistente nos lares e nos gabinetes de Brasília. O gatilho para essa reversão foi o ataque sofrido pelo Irã no final de fevereiro, desferido por Estados Unidos e Israel, o que comprometeu o fluxo de exportações de uma das regiões mais vitais para a produção petrolífera mundial. Em questão de dias, o barril do petróleo saltou de 70 dólares para a casa dos 100 dólares, gerando uma onda de choque que atravessou oceanos e fronteiras. Para Danilo Igliori, economista-chefe do banco digital Nomad, o cenário é de alerta máximo: mesmo que o conflito cessasse imediatamente, os danos estruturais nos preços da energia já seriam suficientes para manter a inflação em patamares elevados por um longo período.

Nas cidades brasileiras, o impacto é sentido de forma imediata e visível. O diesel, motor do transporte de cargas no país, registrou um salto de 16% nas bombas apenas em abril, conforme os dados da prévia da inflação oficial. A gasolina, embora ainda aguarde reajustes formais nas refinarias da Petrobras, subiu 6% devido à antecipação estratégica dos donos de postos, que ajustam seus estoques para evitar prejuízos na reposição. Guilherme Moreira, coordenador do IPC-Fipe, explica que o movimento tende a ser generalizado, uma vez que o encarecimento dos transportes atua como um imposto invisível sobre todos os produtos que circulam pelo território nacional.

O efeito dominó atinge com especial crueldade as gôndolas dos supermercados. A inflação dos alimentos acelerou para 1,7% em abril, quase o dobro do registrado no mês anterior e a maior variação mensal em dois anos. A explicação reside no campo: a produção agrícola brasileira é dependente do diesel para operar máquinas e tratores, além de ser altamente vinculada ao uso de fertilizantes, insumo que também sofre com a crise no Oriente Médio. André Braz, coordenador de indicadores da Fundação Getulio Vargas (FGV), nota que o repasse de custos na indústria ocorre de forma granular — o consumidor pode não ver um aumento súbito e drástico em um único item, mas percebe o esvaziamento do carrinho de compras à medida que cada produto encarece centavos a cada semana.

Esse ambiente de pressão disseminada desfez a perspectiva de que a inflação encerraria o ano dentro do centro da meta de 3%. Economistas do setor privado, como Luciana Rabelo, do Itaú, já projetam que o IPCA dificilmente ficará abaixo do teto de 4,5% ao fim de 2026. As projeções de mercado coletadas pelo Banco Central apontam para um índice de 4,9%, o que marcaria a quarta vez em seis anos que o país falha em cumprir seus objetivos inflacionários. A persistência desse cenário reforça as dificuldades históricas do Estado brasileiro em blindar sua economia contra choques externos de oferta, independentemente da orientação política do governo de turno.

No campo da política monetária, a inação dos preços forçou o Banco Central, sob a presidência de Gabriel Galípolo, a puxar o freio de mão. Na última reunião do Copom, a taxa Selic foi reduzida em apenas 0,25 ponto percentual, fixando-se em 14,5% ao ano. Antes da guerra, a aposta majoritária era de cortes mais audaciosos que pudessem baratear o crédito e estimular o consumo. Agora, a autoridade monetária encontra-se em um dilema: manter os juros altos para conter a inflação ou reduzi-los para não sufocar o crescimento econômico. Francisco Campos, do Deutsche Bank, reforça que este é um desafio global, já que o choque no petróleo atua como um freio na economia de todo o continente americano.

Para o cidadão comum, os números abstratos dos índices de preços traduzem-se em escolhas difíceis e adiamento de sonhos. O crédito caro dificulta o financiamento da casa própria e a compra de bens duráveis, enquanto a inflação do dia a dia consome o aumento real do salário mínimo e das rendas médias. Em um ano de eleições, a economia torna-se o principal cabo eleitoral — ou o maior adversário. A “carestia”, termo que volta ao vocabulário popular, contamina o humor do eleitorado e coloca o governo em uma posição defensiva, buscando soluções que amenizem o impacto nos preços sem comprometer o equilíbrio fiscal. Com o conflito no Irã sem sinais de trégua, o Brasil inicia o segundo trimestre de 2026 em uma batalha contra o tempo e contra as bombas que, embora distantes geograficamente, explodem diariamente no bolso do consumidor brasileiro.




