Macapá (AP) — Segunda-feira, 20 de abril de 2026
Macapá é uma das 1.594 cidades com “vulnerabilidade dupla” a desastres climáticos e falta de recursos
Estudo revela que 69% das cidades do Amapá sofrem com alto risco climático e falta de recursos para obras urgentes

Macapá integra o grupo crítico de 1.594 municípios brasileiros que sofrem com a “vulnerabilidade dupla”: o alto risco de desastres climáticos somado à incapacidade financeira de reagir a eles. Um levantamento do Observatório do Clima, divulgado em março de 2026, revela que a capital e outras cidades do Amapá — estado onde 69% das localidades estão em situação de risco elevado — enfrentam ameaças crescentes de inundações e enxurradas sem possuir recursos em caixa ou crédito para obras de resiliência. O cenário em Macapá é agravado pela ausência de um plano de contingência adequado e por índices alarmantes de infraestrutura, como a coleta de esgoto de apenas 14,94%, evidenciando que a crise ambiental no extremo norte do país é, sobretudo, uma crise de desigualdade fiscal e descaso territorial.

Todos esses municípios brasileiros enfrentam hoje uma armadilha invisível e letal: a combinação de alto risco de tragédias climáticas com a incapacidade financeira de reagir a elas. O levantamento inédito, realizado pelo Observatório do Clima e divulgado recentemente, revela que 29% das cidades do país estão presas em um ciclo onde a vulnerabilidade ambiental encontra cofres vazios e crédito negado. Sem recursos próprios ou acesso a empréstimos devido a baixas notas de capacidade de pagamento junto ao Tesouro Nacional, essas prefeituras tornam-se reféns de eventos extremos que, para além da infraestrutura destruída, já impactam diretamente a saúde infantil, elevando os índices de desnutrição em áreas onde o calor supera a média histórica.
Enquanto o Fundo Clima
expande recursos, o dinheiro
só chega a quem já pode pagar,
deixando 1.594 cidades órfãs
de crédito para obras vitais.

A realidade desenhada pelos dados é um mapa da desigualdade brasileira sob uma nova lente: a da sobrevivência física diante do aquecimento global. Para chegar a esse diagnóstico, o estudo cruzou informações da plataforma AdaptaBrasil, do Ministério da Ciência e Tecnologia, que mede a probabilidade de deslizamentos e enxurradas, com a Capacidade de Pagamento (CAPAG), o termômetro do Tesouro que avalia a saúde fiscal dos entes federados. O resultado é um país dividido entre uma maioria que ainda respira financeiramente e uma fatia crítica de quase 1,6 mil localidades que não possuem sequer o direito de planejar o amanhã.

A geografia do risco tem endereço certo. O Norte do Brasil emerge como a região mais exposta a essa tempestade perfeita. No Acre, impressionantes 77% dos municípios estão sob vulnerabilidade dupla; no Maranhão, o índice é de 75%, seguido pelo Amapá com 69%. Em estados como Goiás e Tocantins, a marca também supera os 60%. O contraste com o Sudeste e o Sul é gritante: enquanto o Espírito Santo tem apenas 1% de suas cidades nessa situação de paralisia, São Paulo registra 3% e Santa Catarina, 5%. Essa disparidade regional evidencia que a crise climática não é um equalizador, mas um agravante de abismos sociais pré-existentes.
No Acre e no Amapá, quase
80% das cidades estão presas
em um ciclo de desastres e
cofres vazios, sem qualquer
plano de socorro financeiro.
Na prática, as cidades classificadas com notas C, D ou E pelo Tesouro Nacional estão de mãos atadas. Elas não conseguem oferecer garantias para obter financiamentos internacionais ou federais voltados à construção de encostas, sistemas de drenagem ou planos de contingência. Adriana Pinheiro, assessora do Observatório do Clima, alerta que o modelo atual de financiamento é excludente. Segundo ela, o Fundo Clima, embora tenha expandido seus recursos, foca majoritariamente em operações reembolsáveis. Ou seja, o dinheiro existe, mas é emprestado apenas para quem já provou que pode pagar. Para os territórios mais vulneráveis, onde a adaptação é uma questão de vida ou morte, o financiamento permanece uma miragem.

Essa paralisia financeira reverbera nos corredores do poder em Brasília, onde soluções legislativas e executivas parecem patinar. Em 2023, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, tentou emplacar a ideia de um estado de “emergência permanente” para mais de mil municípios reincidentes em desastres. O objetivo era desburocratizar o socorro e a prevenção, permitindo intervenções rápidas sem as amarras das licitações convencionais em momentos de crise. A proposta, contudo, não prosperou. No Congresso, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 31/2024 busca transformar o combate às mudanças climáticas em uma obrigação constitucional, com verbas carimbadas assim como ocorre com a Saúde e a Educação. Apesar do mérito, a proposta segue imóvel, sem sequer um relator designado para dar o primeiro passo formal.
Com apenas 14% de esgoto
coletado e sem plano de riscos,
a capital amapaense personifica
a injustiça ambiental de um
Brasil que racha sob o calor.
Enquanto o orçamento não chega e a política não se decide, o clima cobra seu preço no desenvolvimento humano. Um estudo paralelo conduzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) traz um dado que adiciona urgência humana aos números frios da economia: o calor está desnutrindo as crianças brasileiras. Ao analisar dados de mais de 6 milhões de crianças entre um e cinco anos, os pesquisadores descobriram que cada grau Celsius acima dos 26°C eleva em 10% a chance de baixo peso e em 8% o risco de desnutrição aguda.

A pesquisadora Priscila Ribas explica que o fenômeno não é apenas ambiental, mas biológico. O calor excessivo reduz o apetite, altera o metabolismo dos pequenos e aumenta drasticamente os episódios de diarreia, o que impede a absorção de nutrientes vitais. Assim, a criança que vive em um município sem verbas para saneamento ou adaptação térmica está duplamente exposta: ao risco de perder a casa em uma enxurrada e ao risco de ter seu desenvolvimento físico e cognitivo comprometido pelo aumento da temperatura global.

O cenário exige uma mudança de paradigma na gestão pública brasileira. A adaptação climática não pode mais ser vista como uma obra de engenharia isolada, mas como uma política de assistência social e saúde pública. A concentração de recursos em operações de mercado ignora que a resiliência dos mais pobres não gera lucro imediato, mas evita prejuízos humanos incalculáveis. A criação de um fundo específico para adaptação, com recursos não reembolsáveis destinados prioritariamente aos estados do Norte e Nordeste, surge como a única saída viável para evitar que o mapa da vulnerabilidade fiscal se transforme, definitivamente, em um mapa de tragédias anunciadas e fome infantil. Sem dinheiro em caixa e sem apoio federal direto, o Brasil das cidades “nota E” continuará a ver o clima ditar um futuro onde a sobrevivência é um luxo que elas não podem pagar.




