CLIMA

Macapá (AP) — Terça-feira, 20 de outubro de 2026


Levantamento nacional aponta que população cobra ações governamentais firmes contra crises e mudanças climáticas

Dados inéditos mostram que quase oitenta por cento dos entrevistados apoiam priorizar políticas ambientais mesmo diante de eventuais custos econômicos, cobrando maior responsabilidade de empresas, indústrias e do governo federal

Uma equipe de brigadistas tenta conter o avanço das chamas na floresta amazônica. A destruição do bioma libera toneladas de carbono na atmosfera, agravando a crise climática e ameaçando a biodiversidade mundial — Foto: Folha/UOL

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
17/09/2026 | 11h43

Enquanto ondas de calor extremo e secas severas redesenham a paisagem urbana e rural do país, 91% dos brasileiros exigem que os candidatos às eleições de 2026 coloquem o enfrentamento das mudanças climáticas no centro de seus debates, segundo levantamento nacional divulgado na última quinta-feira (17). Realizada pela consultoria Ipsos a pedido do Observatório do Clima, a pesquisa ouviu 1.800 pessoas de 18 anos ou mais em todo o território nacional entre os dias 17 e 20 de agosto, revelando um paradoxo: embora o cidadão comum sinta no próprio cotidiano os efeitos implacáveis do colapso ambiental, o tema ainda briga por espaço com mazelas históricas como a violência urbana e a inflação.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP
CLASSIFICADOSCLASSIFICADOS12 de maio de 2020Emanoel Reis, Macapá – AP

O cenário exposto pelo estudo traduz o drama vivido por milhões de brasileiros nas periferias e grandes centros, onde a rotina se transformou em uma sucessão de adaptações forçadas. É o caso da vendedora paulistana Maria das Graças Silva, 42, moradora de uma zona periférica que sofre com a falta de arborização e o bafo quente do asfalto nos dias de pico térmico. “A gente acorda sufocada e vai dormir rezando para chover ou para a energia não acabar. O clima mudou, a gente percebe no bolso e na saúde dos meus filhos, mas parece que quem governa só lembra da gente na época de voto”, desabafa.

Os números do levantamento corroboram o sentimento de Maria das Graças. Para 87% dos entrevistados, as mudanças climáticas são responsáveis diretas pelo agravamento de secas, tempestades violentas e ondas de calor. Além disso, 85% afirmam que o fenômeno já impacta diretamente o dia a dia da população, e 79% defendem que a pauta seja priorizada mesmo que isso exija sacrifícios ou custos econômicos.

Apesar da alta percepção de urgência — com 62% considerando o tema “muito importante” para o próximo pleito —, a crise climática aparece em nono lugar (19%) nas prioridades imediatas dos eleitores. À frente estão a segurança pública e a criminalidade, citadas por 49% dos participantes, seguidas pelo aumento do custo de vida e inflação (41%), violência contra a mulher (36%) e saúde pública (34%). Para especialistas ouvidos pelo Observatório do Clima, essa distância entre a preocupação com o futuro e as urgências do presente reflete um déficit de políticas públicas integradas que conectem a sobrevivência econômica imediata à estabilidade ambiental.

“O brasileiro não desconecta o clima de sua sobrevivência, mas o peso da inflação e da violência diária sufoca a capacidade de mobilização a longo prazo”, analisa a socióloga e pesquisadora de opinião pública Ana Beatriz Mendonça. Ela aponta que o problema é percebido pela sociedade como um déficit sistêmico: o levantamento mostra que 78% avaliam negativamente o papel das pessoas comuns na preservação, 75% criticam as empresas privadas e 71% reprovam a atuação do governo federal.

O estudo também joga luz sobre lacunas técnicas na compreensão pública dos fatores de aquecimento global. Embora 58% apontem a atividade humana como a principal causa das alterações climáticas e 67% cobrem maior responsabilidade das indústrias, o papel do gás metano — substância com potencial de aquecimento muito superior ao do dióxido de carbono — permanece pouco compreendido pela maioria. Enquanto 64% associam o gás majoritariamente a aterros e lixões, o principal vetor de emissão no Brasil, que é a pecuária extensiva, muitas vezes escapa do debate cotidiano dos eleitores.

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Diante desse mosaico de desafios, o levantamento indica que quatro em cada cinco brasileiros adotam uma postura de cautela ou proteção ambiental, com 43% rejeitando qualquer tentativa de flexibilização das normas vigentes de proteção à natureza. Para os cidadãos que enfrentam a poeira das secas e as enchentes repentinas, a mensagem para a classe política em 2026 é inequívoca: a chave para o futuro não reside apenas na promessa de crescimento econômico, mas na garantia de que ainda haverá um ambiente habitável para as próximas gerações.

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