Macapá (AP) — Terça-feira, 02 de junho de 2026
Davi Alcolumbre articula com a oposição para barrar a indicação de Jorge Messias ao STF
Oposição utiliza estratégia de Alcolumbre para tentar impor derrota ao governo Lula no Senado, tratando a rejeição de Jorge Messias como resposta à sociedade e aos escândalos envolvendo o Judiciário

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
29/04/2026 | 13h15
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), deflagrou, em Brasília, uma ofensiva política nos bastidores para sabotar a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), oferecendo um ultimato à oposição para barrar o nome escolhido pelo Planalto em troca do controle sobre processos de impeachment de magistrados. A manobra, motivada pela frustração de Alcolumbre ao não emplacar o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) na vaga de Luís Roberto Barroso, utiliza o poder da pauta para condicionar novas indicações ao calendário eleitoral de outubro, o que fragiliza o governo Lula e abre espaço para as pretensões da ala bolsonarista no Judiciário.

A temperatura nos corredores do Congresso Nacional subiu com relatos de uma “traição” declarada. Alcolumbre, que detém o controle regimental das sabatinas, teria enviado um recado contundente aos parlamentares de oposição: se não aproveitarem o momento para derrotar Jorge Messias, devem cessar as pressões para que ele paute pedidos de impeachment contra atuais ministros da Corte. Embora o senador negue oficialmente qualquer articulação nesse sentido, quatro congressistas confirmaram que a “moeda de troca” foi colocada na mesa para garantir uma resistência absoluta ao atual chefe da Advocacia-Geral da União (AGU).

Para o Palácio do Planalto, o cenário é de isolamento e fogo amigo. Além da barreira imposta pelo comando do Senado, o núcleo governista reclama abertamente da omissão do ministro Flávio Dino. Recém-chegado ao STF, Dino é acusado de não demonstrar empenho para pavimentar o caminho de seu ex-colega de Esplanada. A ironia é acentuada pelo fato de Dino ter enfrentado sua própria via crucis no Senado, detendo o recorde de maior rejeição na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) neste século, com dez votos contrários, e uma aprovação modesta de 47 votos no plenário. A percepção no governo é de que o magistrado, uma vez empossado, deixou Messias à mercê das manobras de Alcolumbre.

Do outro lado do espectro político, a oposição abraçou a estratégia com uma retórica agressiva, transformando a votação de Messias em um referendo sobre a credibilidade do próprio STF. Senadores contrários ao Planalto passaram a pregar que a rejeição do indicado seria o “impeachment possível” diante da crise de reputação que atinge a Corte. Parlamentares ouvidos pela reportagem argumentam que barrar o nome de Messias é a resposta que a sociedade exige frente ao envolvimento de ministros com interesses financeiros, citando especificamente polêmicas relacionadas ao banqueiro Daniel Vorcaro. “A sociedade brasileira pede esse não para o Supremo tomar vergonha na cara”, resumiu um senador sob reserva.

A tática de Alcolumbre vai além da derrota imediata de um nome. Ao prometer que, em caso de rejeição, só pautará uma nova indicação após as eleições de outubro, o senador amapaense alimenta os sonhos da ala bolsonarista. O objetivo desse grupo é manter a cadeira vaga até que o cenário eleitoral se defina, vislumbrando a possibilidade de que Flávio Bolsonaro, hoje pré-candidato ao Planalto, possa vir a ser o responsável pela escolha do próximo ministro. Dessa forma, o atraso provocado pelo presidente do Senado deixa de ser apenas uma manobra regimental para se tornar uma aposta política de longo prazo no redesenho do Judiciário.

O isolamento de Jorge Messias é o sintoma de um Congresso que reafirma sua autonomia e poder de veto sobre as escolhas do Poder Executivo. Ao ignorar os apelos do Planalto e unir interesses com a oposição, Davi Alcolumbre consolida sua posição como o fiel da balança em Brasília. O resultado desta queda de braço não definirá apenas quem ocupará a próxima vaga no Supremo, mas também o grau de governabilidade que restará ao governo Lula para dialogar com um Senado que parece disposto a cobrar um preço cada vez mais alto por sua cooperação, enquanto o indicado da vez vê suas chances minguarem diante de uma articulação implacável.




