POLÍTICA

Macapá (AP) — Quarta-feira, 02 de setembro de 2026


Lula acelera entregas antes de proibição eleitoral em maratona marcada por controvérsias

Às vésperas do defeso legal, presidente intensifica agendas em sete estados para consolidar redutos eleitorais e anunciar investimentos bilionários; falhas estruturais em projetos e reações da oposição marcam ofensiva do Palácio do Planalto na reta final do prazo

O presidente Lula vistoria, de helicóptero, o avanço de obras de infraestrutura pelo país, pouco antes de restrições eleitorais proibirem as tradicionais entregas oficiais de projetos concluídos — Foto: Ricardo Stuckert/PR

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
06/07/2026 | 17h29

A três meses da disputa presidencial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou uma maratona de 19 agendas políticas em sete estados brasileiros, entre 19 de junho e 3 de julho, para inaugurar obras e anunciar investimentos antes do início do “defeso eleitoral”. A corrida contra o relógio ocorreu para contornar as restrições da Lei das Eleições, que a partir de 4 de julho proibiu a participação de candidatos em entregas oficiais. A ofensiva, que misturou gestão pública e palanque eleitoral em redutos estratégicos, buscou consolidar o apoio popular em meio a projeções de um pleito acirrado, mas acabou marcada por falhas técnicas em projetos inaugurados e forte reação da oposição.


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O périplo presidencial cobriu municípios de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte. No total, os anúncios envolveram repasses de grande envergadura, incluindo R$ 140 bilhões para a Nova Indústria Brasil, R$ 97,3 bilhões para o Plano Safra e R$ 600 milhões voltados à ferrovia Transnordestina. A mobilização do aparato estatal, contudo, dividiu opiniões no eleitorado diante do caráter questionável de algumas das agendas.

O episódio mais emblemático do pacote de imprevistos ocorreu no Rio Grande do Norte, durante a inauguração do Túnel Major Sales, estrutura de 6,5 quilômetros integrada à transposição do rio São Francisco. O presidente, que pretendia celebrar publicamente a chegada das águas à região hídrica, deparou-se com o túnel completamente seco. O incidente decorreu de um erro de cálculo da empreiteira responsável: o fluxo hídrico, previsto para o meio-dia, só atingiu o local à meia-noite, gerando irritação no mandatário.

Irritado com o revés técnico, Lula cobrou publicamente os responsáveis e, dias depois, orientou o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, a reverter o impacto negativo. A estratégia governamental prevê a veiculação televisiva de vídeos da população aguardando a água, uma tentativa de transformar o revés logístico em peça de propaganda. A iniciativa, no entanto, pode esbarrar em sanções legais, uma vez que a publicidade institucional em período de campanha sofre severas restrições a partir de agosto.

Em outra frente de desgaste, na Bahia, o anúncio da construção da Ponte Salvador-Itaparica, orçada em R$ 11,6 bilhões, virou alvo de contestação. Adversários políticos locais lembraram que a promessa se arrasta há duas décadas. Críticos ironizaram o ato, acusando o governo federal de viver em uma realidade paralela distante dos reais prazos de execução das obras locais.

A despeito dos impasses estruturais, o Palácio do Planalto operou em formato de central de campanha na reta final do prazo legal. No último dia de entregas permitidas, o presidente comandou do Salão Nobre uma série de inaugurações simultâneas por videoconferência em 12 cidades, ladeado por ministros e pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, sob coros de militantes. Foi nesse ambiente que Lula, em tom de confronto com os críticos da política social de seu governo, fez um gesto obsceno com o dedo médio ao defender o programa Brasil Sorridente.

O estilo discursivo da viagem também buscou estabelecer paralelos históricos, com o petista associando sua imagem à de Getúlio Vargas e direcionando críticas indiretas ao senador Flávio Bolsonaro, principal artífice da oposição para a disputa presidencial. O esforço concentrado no Nordeste reflete a necessidade geopolítica de estancar perdas de votos registradas em levantamentos recentes na região, historicamente o principal bastião eleitoral do PT.

A avaliação interna no governo é de que o cenário até outubro exigirá intensa articulação política. Auxiliares presidenciais preveem um embate eleitoral polarizado e apontam a necessidade de negociar pautas de apelo popular no Congresso, como o fim da escala de trabalho 6×1. Para tanto, a interlocução com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, é vista como peça-chave para garantir estabilidade institucional enquanto o presidente foca na defesa de seu legado nas ruas. Se o pragmatismo das entregas de última hora surtirá o efeito desejado na opinião pública, a resposta caberá ao eleitorado nas urnas.

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