LITERATURA

Macapá (AP) — Quarta-feira, 15 de abril de 2026


Javier Cercas e a Jornada Literária em “O Louco de Deus do Fim do Mundo”

Entre o anticlericalismo e a admiração, Javier Cercas investiga o enigma da vida eterna e a rebelião cristã contra a morte em obra que disseca o papado de Francisco

O escritor espanhol Javier Cercas lança “O Louco de Deus no Fim do Mundo” (Ed. Record). Sendo ateu e anticlerical, o livro narra sua viagem com o papa Francisco e a busca por respostas sobre a fé e o mistério da vida eterna — Foto: Divulgação


O escritor espanhol Javier Cercas, ateu confesso e racionalista militante, lançou nesta semana o livro “O Louco de Deus no Fim do Mundo” (Ed. Record, 2026), uma obra que mistura crônica e investigação biográfica para decifrar o enigma da fé. A publicação surge após uma experiência singular: Cercas aceitou um convite inédito do Vaticano para acompanhar o papa Francisco (1936-2025) em uma viagem à Mongólia, tendo total liberdade de acesso e escrita. O autor buscou, no coração da instituição milenar, uma resposta para o consolo de sua mãe enferma sobre a vida eterna, confrontando seu ceticismo com a promessa cristã da ressurreição em um Ocidente que, segundo ele, vive um vazio existencial pela ausência de Deus.


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A jornada de Cercas começou com uma definição provocadora de si mesmo: um ímpio rigoroso e anticlerical a caminho de um encontro com o vigário de Cristo. O que parecia um paradoxo transformou-se em um “romance policial” da alma. Para o autor de “Soldados de Salamina”, todos os grandes livros são investigações, e o mistério aqui não era um crime comum, mas a “pedra de toque” do cristianismo: a ressurreição da carne. Ao observar Francisco, o escritor não buscava converter-se, mas entender o “superpoder” que permitia à sua mãe idosa acreditar, com uma força que ele próprio invejava, que reencontraria o marido após a morte.

Nesta obra que entrelaça o relato de viagem com reflexões profundas, Cercas diagnostica o estado atual da espiritualidade. Ele argumenta que vivemos em um mundo “pós-grandes narrativas”, onde o marxismo e a psicanálise falharam em substituir o sentido pleno que a religião oferecia. Esse vácuo, no entanto, não significa que a religião tenha voltado a ser “moda” na Europa, o antigo centro do cristianismo. Embora o catolicismo pulse com vigor na América Latina e cresça na África, o autor observa que o Ocidente apenas tateia substitutos parciais na arte ou na política, muitas vezes resultando em uma angústia que ele mesmo sentiu ao perder a fé na adolescência.

Um dos pontos centrais da reportagem narrativa de Cercas é a distinção entre o “espírito burguês” e a mensagem revolucionária de Jesus Cristo. Citando Charles Péguy, o autor reforça que o verdadeiro cristianismo é antitético ao acúmulo de poder e dinheiro. Ele elogia a postura de Francisco, que durante seu pontificado combateu o “constantinismo” — a união entre Igreja e Estado — e o clericalismo, que ele definia como um câncer. Para Cercas, o abuso de poder na Igreja é um sintoma direto dessa hierarquia perversa onde o clero se coloca acima dos fiéis. Ele vê em Jesus uma figura subversiva que preferia a companhia de marginalizados, uma essência que, segundo ele, a instituição muitas vezes distorceu ao longo de dois milênios.

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A convivência com o Vaticano também serviu para desmistificar lendas. Cercas admite que entrou na Santa Sé carregado de preconceitos, esperando encontrar uma estrutura sombria e fechada, mas deparou-se com uma abertura surpreendente. O livro utiliza o humor para contrastar as expectativas do autor com a realidade de uma cúria complexa. Ele descreve a fé não como uma escolha lógica, mas como um dom quase biológico: ou se tem, ou não se tem. Ao comparar a fé de sua mãe com a de Francisco, o autor chega a uma conclusão audaciosa: a devoção genuína e simples daquela mulher parecia mais robusta e serena do que a complexa estrutura teológica do pontífice.

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Sobre o sucessor de Francisco, Cercas mantém um olhar atento, porém cauteloso. Ele descreve o novo papa como uma figura de transição, um missionário de perfil mais suave e tradicional que tenta costurar as divisões internas deixadas pelo antecessor inovador. No entanto, o autor ressalta que o “superpoder” da Igreja não reside na diplomacia ou na política, mas na sua rebelião contra a finitude. O cristianismo é, em sua essência, a única narrativa que promete a vitória definitiva sobre a morte, algo que ressoa profundamente no desejo humano de persistência.

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O livro termina de forma íntima, retornando à figura materna. Mesmo permanecendo agnóstico e influenciado pelo pensamento de Hannah Arendt, Cercas reflete sobre uma forma secular de imortalidade. Ele visualiza a ressurreição não como um evento metafísico, mas como a continuidade da matéria e da identidade: seus pais vivem nele, em suas células e em sua memória. É uma forma de resistência contra o desaparecimento total que ele tanto abomina.


Ao final, “O Louco de Deus no Fim do Mundo” é menos sobre a Igreja como instituição política e mais sobre a necessidade humana de um “grande relato”. Cercas reconhece que a linguagem atual da Igreja tornou-se hermética e pouco atraente, perdendo o brilho que as parábolas de Jesus possuíam. No entanto, ele admite que a beleza de uma catedral ou a perfeição de uma peça de Bach ainda são pontes capazes de seduzir até o mais convicto dos ateus, provando que, embora Deus possa ter morrido para a razão, a sede pelo sagrado permanece como um vestígio indelével na literatura e na vida.

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