LITERATURA

Macapá (AP) — Quarta-feira, 15 de julho de 2026


Obra premiada de Tony Bellotto mergulha nos paradoxos brasileiros através do suspense policial

Ao investigar o desaparecimento de um jovem sob a ditadura, o livro abre mão de respostas fáceis para evidenciar a complexidade e as profundas contradições da formação brasileira

Com estilo que mistura alta cultura e ritmo ágil, o guitarrista e romancista Tony Bellotto lança narrativa impactante sobre os mistérios que permanecem sem solução na formação nacional — Foto: Divulgação

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
07/07/2026 | 11h05

O músico e escritor Tony Bellotto condensa as contradições históricas e culturais do Brasil em seu novo romance, “Vento em Setembro”, obra vencedora do Prêmio Jabuti de 2025 que choca o sagrado e a contracultura ao narrar uma sombria investigação ambientada nos anos 1970. No livro, o sumiço de um jovem do interior paulista após um grotesco ritual de iniciação sexual promovido pelo próprio pai mobiliza o intelectual Davi Zimmerman. A partir desse mistério, que se desenrola sob a atmosfera sufocante da ditadura militar, o autor cruza o suspense policial com uma pesquisa biográfica sobre o escultor Aleijadinho para radiografar um país cindido entre a violência colonial e o desejo de transcendência artística.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

Ao transitar pela brutalidade e pela alta cultura, Bellotto constrói uma narrativa ágil que reflete as marcas de sua consolidada trajetória na ficção policial, gênero no qual se consagrou com a série do detetive Remo Bellini. Em “Vento em Setembro”, essa bagagem se manifesta na fluidez do texto, na estrutura de capítulos curtos e no encadeamento preciso das cenas, recursos que fisgam o leitor logo nas primeiras páginas. O ponto de partida estético é sintetizado na imagem de uma igreja colonial de Ouro Preto pichada com os dizeres “Deus está morto”, uma provocação que estabelece o atrito central da obra: o embate constante entre o barroco mineiro e a efervescência do rock.

No entanto, a escolha consciente do autor por deixar certas interrogações sem resposta produz uma tensão evidente com o próprio ritmo veloz da narrativa. O leitor habituado aos esquemas tradicionais do romance policial pode experimentar um sentimento de interrupção abrupta quando as pistas investigativas não desaguam em um esclarecimento convencional. Esse esvaziamento das respostas, embora legítimo como proposta literária, por vezes parece decorrer mais de uma imposição da estrutura do que de uma maturação orgânica da própria linguagem do livro, o que desafia as expectativas do público.

Essa mesma oscilação se projeta na construção de Davi Zimmerman, o narrador em primeira pessoa incumbido de conectar o passado colonial ao presente da narrativa. Zimmerman atua como uma ponte essencial entre o olhar acadêmico refinado e a crueza dos fatos que testemunha, mas sua personalidade nem sempre se impõe com o vigor necessário. Embora o texto mencione sua solidão, sua fragilidade emocional e uma paranoia latente, esses traços raramente alteram sua percepção do ambiente, transformando o protagonista em um observador eficiente, mas distante, o que reduz o potencial enigmático que o próprio narrador poderia assumir.

Em “Vento em Setembro”, obra vencedora do Jabuti, o autor cruza os anos de chumbo com o barroco mineiro para expor as feridas abertas de uma sociedade cindida

Por outro lado, o romance alcança seus momentos de maior potência quando se lança à dimensão puramente simbólica. A figura histórica de Aleijadinho é resgatada não apenas como um dado biográfico de pesquisa, mas como uma imagem central da identidade nacional. O artista barroco, marcado pela dor física devastadora e capaz de esculpir a beleza a partir do sofrimento do corpo, surge como um espelho do próprio Brasil, um território historicamente habituado a extrair manifestações sublimes de suas profundas cicatrizes sociais. Quando esse paralelo se consolida de forma fluida, o livro ganha uma densidade impressionante, embora em algumas passagens as referências intelectuais soem um tanto artificiais.

A ironia refinada também desempenha um papel estrutural na engrenagem narrativa de Bellotto. Ao descrever episódios de extrema violência sem qualquer tipo de ênfase moral ou julgamento explícito, o autor cria um distanciamento crítico que torna o cenário retratado ainda mais desconfortável e impactante para quem lê. Esse recurso explicita o horror cotidiano daquela década de chumbo de forma muito mais perturbadora do que se estivesse acompanhado de explicações didáticas ou justificativas históricas.

Em última análise, “Vento em Setembro” consolida-se menos como uma crônica sobre o desaparecimento de um jovem e mais como um ensaio ficcional sobre as lacunas explicativas que definem a formação brasileira. Estão ali representadas as violências naturalizadas pelas elites, as heranças coloniais mal resolvidas e os impulsos de ruptura contracultural que esbarram em estruturas arcaicas de poder. Bellotto demonstra compreender que os mistérios mais profundos da sociedade não foram feitos para serem solucionados pelo detetive da vez, mas sim observados em sua totalidade. É justamente nessa recusa didática que reside o maior mérito do livro: a coragem de usar a literatura não para simplificar a realidade, mas para evidenciar sua incômoda complexidade.

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