RELIGIÃO

Macapá (AP) — Quarta-feira, 14 de outubro de 2026


Entre apocalipse e política externa, J.D. Vance vê presença do anticristo nos bastidores do poder

Com discurso milenarista que associa tecnologia ao satanismo, declaração de J.D. Vance expõe aprofundamento de convicções de fé no poder executivo e acende alerta entre diplomatas aliados sobre previsibilidade em Washington

O vice-presidente J.D. Vance associa líderes mundiais a uma “escuridão espiritual” e não descarta a presença do anticristo, misturando fé e geopolítica em declarações polêmicas — Imagem: Divulgação

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
08/0892026 | 17h47

O vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, causou perplexidade na diplomacia internacional e reacendeu tensões sobre a influência do fundamentalismo religioso na Casa Branca ao declarar, durante entrevista concedida na quarta-feira (2) ao podcast do influenciador evangélico Bryce Crawford, que sente uma “escuridão espiritual” em reuniões com líderes mundiais e suspeita que o “anticristo esteja andando entre nós”. Em um relato intimista que entrelaça escatologia bíblica, disputas geopolíticas e ansiedades tecnológicas contemporâneas, o republicano afirmou estar focado em realizar “a obra de Deus”, desdenhando das consequências institucionais de suas ações: “Se isso levar ao fim dos tempos, tudo bem; e se nos levar a construir um mundo melhor, também será ótimo”.


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A retórica de teor milenarista reverbera diretamente nas estruturas do poder em Washington e repercute com intensidade entre cidadãos comuns que acompanham a guinada confessional do governo. O vice-presidente sustentou que o apocalipse é uma certeza histórica inevitável, restando apenas saber se o desenlace ocorrerá “daqui a milhares de anos ou daqui a alguns meses”. Embora reconheça o perigo de se fixar excessivamente em visões proféticas, Vance confessou que diálogos mantidos nos bastidores da alta cúpula global provocaram nele um alerta incomum, reforçando a crença de que forças malignas personificadas já operam nas entranhas das decisões internacionais.

Essa perspectiva não é um desvio retórico isolado, mas a culminação de uma trajetória pública cuidadosamente moldada pela fé. Autor do best-seller “Era uma Vez um Sonho” — adaptado para as telas pela Netflix —, Vance construiu sua projeção nacional retratando a decadência da classe trabalhadora branca do Cinturão da Ferrugem, antes de lançar neste ano uma nova obra autobiográfica na qual detalha sua conversão ao catolicismo conservador. Especialistas em religião e política apontam que essa fusão entre a ortodoxia católica e o evangelicalismo carismático cria uma ponte eficiente com a base eleitoral conservadora, mas projeta sombras sobre o pragmatismo da política externa. Relatórios de institutos como o Pew Research Center mostram que cerca de 40% dos adultos americanos acreditam que a humanidade está vivendo nos “últimos dias”, proporção que supera os 55% entre evangélicos de linha dura.

Para o cientista político Thomas Wright, da Brookings Institution, o teor das falas de Vance introduz um fator de imprevisibilidade nos canais diplomáticos. Ele avalia que governos aliados encaram tais declarações com reservas severas, já que a diplomacia tradicional exige acordos baseados em interesses materiais e compromissos de longo prazo, premissas enfraquecidas quando líderes de Estado encaram o próprio presente sob a ótica de um desfecho apocalíptico próximo.

O medo do imponderável também molda as posições do vice-presidente sobre a tecnologia moderna. Durante a conversa, Vance direcionou sua apreensão ao avanço descontrolado da inteligência artificial, que descreveu sob termos teológicos. Citando o caso de um conhecido que recorreu a softwares generativos para atuar como conselheiro matrimonial, ele classificou a prática como “uma espécie de coisa satânica”, sustentando que a substituição de vínculos humanos genuínos por algoritmos corrompe a dignidade moral.

O contraste entre a severidade moral aplicada ao desenvolvimento tecnológico e a complacência com as controvérsias do próprio governo ficou explícito quando o vice-presidente foi questionado sobre a recente crise envolvendo Donald Trump. O presidente americano provocou a indignação de entidades cristãs e da oposição democrata após publicar — e depois apagar — uma imagem manipulada por computador em que figurava vestido como Jesus Cristo, emanando luz das mãos para curar um enfermo com traços que lembravam o financista condenado por exploração sexual Jeffrey Epstein. Parlamentares de oposição classificaram a imagem como uma blasfêmia grosseira e cobraram retratações formais no Congresso.

Vance, contudo, minimizou o episódio como um mero mal-entendido alimentado por uma caricatura inofensiva da internet. “O presidente não teve a intenção de ofender. Obviamente, ele gosta dos cristãos”, justificou, definindo Trump como “um brincalhão” cujo humor não deve ser interpretado como pretensão de divindade.

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A naturalização de imagens messiânicas e o anúncio de um combate contra forças sobrenaturais expõem como a gestão atual reconfigura os limites entre a esfera civil e a experiência de fé. Enquanto analistas alertam para o isolamento institucional decorrente do sectarismo e comunidades religiosas debatem a apropriação de seus dogmas, a vida cotidiana do cidadão americano segue atravessada por uma administração que, em meio a crises econômicas e alianças estremecidas, passa a enxergar suas decisões terrenas como os passos preliminares de um julgamento definitivo.

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