ECOLOGIA

Macapá (AP) — Sábado, 30 de maio de 2026


Imazon registra alta no desmatamento em março impulsionada por agropecuária e crimes ambientais

A expansão da agropecuária e a grilagem de terras públicas reativam motosserras e queimadas na região, interrompendo uma sequência de queda estatística. Especialistas alertam que a vegetação mais seca facilita o fogo, favorecendo crimes ambientais em áreas de difícil fiscalização

Dados do Imazon revelam que a pressão da grilagem e da pecuária irregular persiste. Combater o financiamento dessas redes criminosas é urgente para garantir a floresta em pé — Foto: Marizilda Cruppe / Greenpeace

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
27/04/2026 | 20h55

As motosserras e as queimadas voltaram a ganhar fôlego na Amazônia no último mês, resultando em um aumento de 17% nas áreas sob alerta de desmatamento em março de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025. Os dados, consolidados pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) por meio de seu sistema de monitoramento via satélite, revelam que a pressão sobre a floresta persiste devido à expansão da agropecuária, à grilagem de terras e ao avanço do garimpo ilegal, especialmente nos estados do Pará e de Roraima. Embora o acumulado do primeiro trimestre de 2026 ainda apresente uma redução de 17% em relação ao ano anterior, a aceleração verificada em março acende um sinal de alerta sobre a capacidade de fiscalização em um cenário de vulnerabilidade climática e avanço de redes criminosas.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP
POLÍTICA APPOLÍTICA AP2 de agosto de 2021Emanoel Reis, Macapá – AP

O índice negativo de março interrompe uma sequência de calmaria estatística e joga luz sobre as feridas abertas no tecido florestal. O avanço do desmatamento ilegal é impulsionado, majoritariamente, pela abertura desenfreada de novas pastagens e pela expansão da fronteira agrícola voltada ao cultivo da soja. Esse movimento é frequentemente acompanhado pela grilagem, onde terras públicas são invadidas e descaracterizadas para fins de especulação fundiária. Onde a árvore cai, o fogo costuma vir em seguida: as queimadas permanecem como uma ferramenta comum para a limpeza de terrenos já degradados, intensificando a perda de biodiversidade e lançando toneladas de carbono na atmosfera em um ciclo de destruição que se retroalimenta.

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A geografia do dano em 2026 tem endereços conhecidos, mas com contornos mais graves em certas regiões. O Pará mantém sua histórica e triste liderança na concentração de áreas desmatadas, mas é Roraima que desperta maior preocupação dos analistas neste momento. O estado apresentou uma alta significativa nos índices de degradação ambiental, um fenômeno que precede o corte raso e indica que a floresta está sendo “comida pelas bordas”. A situação em solo roraimense é agravada pela persistência de redes criminosas que exploram o garimpo e a extração ilegal de madeira, operando em áreas de difícil acesso onde a presença do Estado ainda é intermitente e as dificuldades de logística favorecem a impunidade.

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Para além da ação humana direta, o fator climático surge como um catalisador silencioso da tragédia. Mudanças recentes nos regimes de chuvas na bacia amazônica tornaram a floresta mais seca e, consequentemente, mais vulnerável. Com o solo menos úmido e a vegetação mais inflamável, o trabalho dos criminosos é facilitado. O fogo, que antes encontrava resistência na umidade natural da mata primária, agora se espalha com rapidez, permitindo que áreas vastas sejam “limpas” em intervalos menores de tempo. Esse cenário de vulnerabilidade ambiental acaba sendo explorado por grupos que se aproveitam de brechas na fiscalização contínua para consolidar o domínio sobre territórios protegidos.

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Apesar do tom de urgência impresso pelos números de março, especialistas do Imazon e órgãos ambientais buscam contextualizar o fenômeno dentro de uma perspectiva sazonal. O fechamento do primeiro trimestre de 2026, com uma queda consolidada de 17% no desmatamento total em relação aos primeiros três meses de 2025, sugere que as políticas de controle e as operações de campo ainda mantêm uma trajetória de eficiência no médio prazo. O aumento pontual de março é lido como um “repique” — um alerta de que a vigilância não pode ser relaxada — mas que, por ora, não tem força suficiente para reverter a tendência de queda acumulada que vem sendo registrada desde o início do ciclo 2025/2026.

A resiliência das redes criminosas, no entanto, é o grande desafio para o restante do ano. A complexidade do crime ambiental na Amazônia hoje envolve uma estrutura profissionalizada de logística e financiamento que vai muito além do pequeno posseiro. São redes que operam com capital intensivo para burlar sistemas de satélites e monitoramento remoto. A dificuldade de manter equipes de fiscalização em solo de forma permanente em toda a extensão da região amazônica cria janelas de oportunidade que são rapidamente aproveitadas. O aumento de março serve como uma lembrança incômoda de que a floresta vive sob um equilíbrio frágil, onde qualquer redução na pressão estatal é traduzida em hectares de árvores no chão.


Portanto, os próximos meses serão decisivos para entender se o salto de 17% em março foi um evento isolado causado por condições específicas ou se marca o início de uma nova ofensiva contra o bioma. O sucesso da meta de desmatamento zero depende não apenas da repressão ao crime, mas de uma resposta rápida à grilagem e ao ordenamento territorial. Enquanto a terra nua for vista como um ativo financeiro mais valioso do que a floresta em pé, a Amazônia continuará a travar uma batalha diária contra os índices que, ano após ano, insistem em desafiar a sustentabilidade do planeta.

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