Macapá (AP) — Quarta-feira, 15 de abril de 2026
Desmatamento na Amazônia recua 42% em fevereiro e atinge menor nível em oito anos
Após picos críticos em anos anteriores, Amazônia registra apenas 69 km² desmatados em fevereiro, sinalizando avanço no controle e proteção ambiental

A Amazônia registrou uma queda de 42% no desmatamento em fevereiro de 2026, com a perda de cobertura vegetal recuando de 119 km² no mesmo período do ano passado para 69 km², conforme dados divulgados nesta semana pelo Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Instituto de Pesquisa Imazon. O monitoramento por satélite aponta que o resultado representa a preservação de uma área equivalente a 5 mil campos de futebol no mês, consolidando a menor taxa de destruição para o período desde 2017 e sinalizando uma retomada da eficácia nas políticas de fiscalização ambiental e controle territorial na região.

Este índice de 69 km² é um marco simbólico para a série histórica recente, especialmente quando comparado aos picos críticos observados em anos anteriores. Em 2023, por exemplo, o bioma perdeu 325 km² apenas em fevereiro; em 2022, a marca foi de 303 km². O cenário atual remete a patamares de meados da década passada, aproximando-se de registros como os de 2015, quando a devastação foi de 42 km², ou o histórico de 2016, que apresentou desmatamento zero para o mês. A oscilação positiva é vista por especialistas como um respiro necessário para a maior floresta tropical do mundo, que vinha sofrendo com o avanço da fronteira agrícola e do garimpo ilegal.

De acordo com Carlos Souza Jr., pesquisador e coordenador do Programa de Monitoramento da Amazônia do Imazon, a desaceleração da derrubada é uma peça-chave no tabuleiro geopolítico e ambiental brasileiro. A redução do desmate impacta diretamente o inventário de emissões de gases de efeito estufa do país, sendo a principal estratégia para o cumprimento das metas do Acordo de Paris. Souza Jr. reforça que a proteção da floresta é o antídoto mais eficaz contra o agravamento da crise climática, que tem se manifestado de forma severa através de secas prolongadas na própria região amazônica e tempestades atípicas no Centro-Sul, fenômenos que afetam a economia e a segurança alimentar.

A análise detalhada dos dados do SAD revela que o recuo não é apenas uma estatística isolada, mas o reflexo de uma mudança estrutural na dinâmica de ocupação do solo. Embora o mês de fevereiro seja historicamente marcado por uma cobertura de nuvens mais densa, o que dificulta o monitoramento óptico, as tecnologias de radar utilizadas pelo Imazon permitem uma leitura precisa da realidade sob o dossel das árvores. O esforço conjunto entre monitoramento autônomo e a presença mais ostensiva de órgãos de controle tem inibido a abertura de novas clareiras em áreas críticas de pressão.

A preservação desses 5 mil campos de futebol em apenas 28 dias carrega um valor ecossistêmico imensurável. Cada quilômetro quadrado mantido em pé significa a continuidade do ciclo dos “rios voadores”, as correntes de umidade que regulam o regime de chuvas em grande parte do continente sul-americano. Sem essa regulação, o agronegócio brasileiro, que depende diretamente da estabilidade hídrica, ficaria vulnerável. Por isso, a queda no desmatamento é celebrada não apenas por ambientalistas, mas por setores produtivos que compreendem a floresta como um ativo estratégico para a resiliência climática.

Olhando para a linha do tempo do monitoramento, o ano de 2018 ainda aparece como um ponto de inflexão negativo, com 214 km² destruídos naquele fevereiro. A reversão dessa tendência em 2026 sugere que o Brasil está conseguindo descolar o crescimento econômico da destruição ambiental, um desafio que exige vigilância constante. O Imazon destaca que, embora o número atual seja encorajador, o trabalho está longe de terminar, dado que o objetivo final é o desmatamento zero para garantir a sobrevivência de espécies endêmicas e a proteção de povos originários e comunidades tradicionais que dependem da floresta.

A transparência dos dados fornecidos pelo SAD também desempenha um papel fundamental na governança ambiental. Ao expor mensalmente onde a floresta está sendo atacada, o sistema permite que a sociedade civil e o setor público ajam com rapidez, direcionando recursos e equipes para as zonas de maior conflito. Essa agilidade tecnológica é o que diferencia o cenário de 2026 dos anos de 2014 e 2015, permitindo que a queda de 42% seja lida como um resultado direto da inteligência aplicada à conservação.

Portanto, o balanço de fevereiro serve como um termômetro para o restante do ano. O desafio agora é manter a curva descendente durante o “verão amazônico”, período de seca onde o acesso às áreas remotas fica facilitado e os índices de queimadas e derrubadas costumam disparar. Se o ritmo de preservação for mantido, 2026 poderá entrar para a história como o ano em que o Brasil finalmente reencontrou o caminho da sustentabilidade, provando que é possível proteger o patrimônio natural enquanto se combate o aquecimento global com ações concretas no chão da floresta.




