ECOLOGIA

Macapá (AP) — Domingo, 30 de agosto de 2026


Capacitação técnica em energia solar conecta territórios remotos e amplia cidadania na floresta amazônica

Parceria entre comunidades tradicionais, Senai e Aneel impulsiona formação técnica em energia limpa, viabilizando sinal estável de internet, consultas médicas a distância e combate ao isolamento em regiões isoladas

Em parceria com Senai e Aneel, a Rede Conexão Povos da Floresta capacita agentes de energia solar no Amapá para garantir internet estável, saúde e educação em áreas isoladas — Foto: Divulgação

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
25/08/2026 | 11h00

No coração da Amazônia Legal, onde a densa vegetação impõe barreiras geográficas históricas, cerca de 1 milhão de pessoas continuam vivendo sem acesso regular e adequado à eletricidade. Para reverter o isolamento e garantir direitos básicos, a Rede Conexão Povos da Floresta — com apoio de instituições financeiras nacionais e internacionais, como o Fundo Vale — estruturou o programa Agentes Comunitários de Energia. A iniciativa capacita ribeirinhos, indígenas, quilombolas e extrativistas para instalarem, operarem e manterem sistemas solares fotovoltaicos off-grid. Esses painéis solares asseguram o fornecimento contínuo de energia para kits de internet banda larga via satélite, transformando a autonomia energética em uma ferramenta vital de cidadania, saúde e preservação ambiental em áreas remotas.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP
CULTURACULTURA20 de outubro de 2016Emanoel Reis, Macapá – AP

Segundo dados levantados pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), a carência energética na região historicamente força comunidades a dependerem de geradores movidos a óleo diesel. Trata-se de uma alternativa financeiramente onerosa, altamente poluente e sujeita a frequentes desabastecimentos, o que inviabiliza a manutenção ininterrupta de serviços essenciais. Ao todo, a Rede Conexão Povos da Floresta já marca presença em 2.689 comunidades espalhadas pelos nove estados da Amazônia Legal, alcançando diretamente 68.538 usuários cadastrados e beneficiando mais de 205 mil pessoas. Para sustentar a conexão em locais sem rede elétrica 24 horas por dia, a organização já conta com cerca de 350 kits de energia solar em pleno funcionamento.

Mulheres da floresta assumem o protagonismo na instalação de painéis fotovoltaicos, aprendendo a levar luz e internet sustentável para suas comunidades isoladas na Amazônia, reduzindo a dependência do diesel

A virada de chave para a sustentabilidade desses sistemas começou a se consolidar em 2025, com a formatura da primeira turma piloto de 32 agentes na região do Tapajós, no Pará. Uma das formadas é Reginalva Alves, moradora da comunidade Anarrio-Arapiuns, na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns. Para ela, o domínio técnico sobre as placas solares e baterias tem um valor simbólico e prático fundamental para a liderança feminina na floresta, superando a dependência crônica do diesel. Ao seu lado, Marcelo Rodrigues, da comunidade Samaúma, ressalta que o treinamento permitiu entender a gestão correta da carga e combater o desperdício, garantindo que os equipamentos nunca deixem a comunidade desconectada. Sabrina Costa, coordenadora do Núcleo de Operações da rede, explica que a capacitação técnica uniu módulos virtuais e presenciais e agora avança para novos polos territoriais.

A expansão ganhou tração oficial com o início da segunda turma em 16 de junho de 2026, reunindo 48 participantes de comunidades tradicionais do Amapá. Desta vez, o treinamento foi formalizado como curso de Qualificação Profissional pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), alinhado à Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), fruto de uma cooperação técnica com a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). Com carga horária de 160 horas dividida em três etapas, o módulo prático intensivo ocorre na Escola Agroextrativista do Carvão, no município de Mazagão (AP).

Essa aproximação institucional redefine a presença estatal na floresta. Letícia Lengruber, especialista em regulação da ANEEL, destaca que a capacitação cria pontes fundamentais, pois as comunidades aprendem a calcular suas demandas de carga enquanto o órgão regulador compreende a realidade das áreas isoladas para aprimorar as políticas públicas. Na visão de Alessandra Mathyas, analista de conservação do WWF-Brasil, os agentes comunitários tornam-se aliados indispensáveis do poder público na fiscalização e na implementação qualificada da eletrificação, abrindo caminho para integrar essas iniciativas a programas estruturantes como o Luz para Todos e às distribuidoras locais, como a Energisa.

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Longe de ser apenas um arranjo técnico, a combinação de sol e conectividade funciona como infraestrutura social. Na área da saúde, o programa Conexão Saúde alcançou em maio de 2026 a marca de 710 comunidades integradas à plataforma de telessaúde, somando 4.585 pessoas cadastradas e 5.123 atendimentos — entre teleconsultas com especialistas, telelaudos e monitoramento de sinais vitais. O recurso poupa moradores de viagens de barco que costumavam levar dias até os centros urbanos. Na educação, o programa Sabedoria Digital já capacitou 724 facilitadores comunitários em segurança digital. No território, o sinal estável possibilita monitorar focos de desmatamento em tempo real com geotecnologias, denunciar queimadas e comercializar produtos do extrativismo. Como resume Mária Soares, gerente do Fundo Vale, a energia limpa deixa de ser um insumo isolado e passa a viabilizar a garantia de direitos humanos e a preservação do bioma amazônico.

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