Macapá (AP) — Quinta-feira, 03 de setembro de 2026
Perda de sensibilidade por diabetes transforma pequenos ferimentos nos pés em risco grave de amputação
A perda gradual da sensibilidade faz com que pequenos machucados nos pés evoluam sem dor para quadros graves de infecção. Especialistas reforçam que a verificação diária, o uso de calçados corretos e o cuidado profissional garantem a prevenção

DA REDAÇÃO
Macapá. AP
03/08/2026 | 14h54
Pacientes com diabetes de todo o Brasil continuam enfrentando o avanço silencioso do pé diabético — uma complicação neurológica e circulatória que faz com que feridas graves surjam sem dor —, situação que exige a adoção rigorosa da inspeção diária dos pés e o acompanhamento preventivo em consultas de enfermagem para evitar infecções e amputações. A perda gradual da sensibilidade tátil e térmica, provocada pela neuropatia diabética, impede que as pessoas percebam a presença de cortes, bolhas, calos ou queimaduras cotidianas. Sem a perception dolorosa, o machucado evolui livremente até atingir estágios avançados e infectados, transformando uma simples higienização diária em uma rotina vital de preservação da mobilidade e da própria vida.


A gravidade do problema reside justamente no caráter indolor do processo. Na maioria dos casos, as complicações não surgem da noite para o dia, mas sim do acúmulo de pequenos traumas negligenciados. A enfermeira Sherida Paz, pesquisadora e professora da Universidade Estadual do Ceará, enfatiza que o pé diabético figura entre as complicações mais frequentes e danosas do diabetes, comprometendo de forma severa o bem-estar e a autonomia do indivíduo. Segundo a especialista, o hábito de examinar minuciosamente a anatomia dos pés todos os dias, aliado ao suporte periódico de profissionais de saúde, é a única estratégia capaz de identificar pequenas alterações anatômicas antes que elas evoluam para quadros ulcerativos complexos, cujo tratamento exige intervenções hospitalares e comumente culmina em sequelas permanentes.


A verificação diária deve ser metódica e abranger toda a extensão dos pés. É fundamental examinar a planta, os calcanhares e as regiões interdigitais, buscando qualquer sinal de anormalidade, como cortes, bolhas, rachaduras, inchaços, secreções ou alterações na coloração e na temperatura da pele. Para aqueles que possuem limitações de mobilidade ou dificuldades de visão para enxergar a sola do pé, o uso de um espelho de apoio ou a ajuda de um familiar torna-se indispensável. Da mesma forma, alterações funcionais como dormência, formigamento crônico ou a sensação intermitente de queimação devem ser comunicadas imediatamente à equipe de saúde, pois indicam o comprometimento contínuo das fibras nervosas ou da irrigação sanguínea local.

A prevenção diária requer mudanças profundas de comportamento dentro e fora de casa. Andar descalço deve ser rigorosamente proibido, mesmo em superfícies domésticas aparentemente seguras, pois pequenos objetos e superfícies aquecidas causam traumas graves sem que o paciente sinta. O uso diário de meias de algodão limpas, sem costuras internas salientes e trocadas com frequência, reduz o atrito com a pele. No tocante aos calçados, a escolha deve priorizar modelos fechados, confeccionados em materiais macios e respiráveis, com solado firme e antiderrapante, garantindo espaço adequado para a acomodação dos dedos. Para orientar a população, a Sociedade Brasileira de Diabetes criou o Selo SBD de Calçado Adequado, garantindo opções no mercado que cumprem esses parâmetros. Além disso, antes de calçar qualquer sapato, é preciso inspecionar seu interior com as mãos para eliminar pedras, dobras de palmilha ou corpos estranhos.

A rotina de higiene e os cuidados com as unhas também demandam atenção técnica. A lavagem deve ser feita com água morna e sabonete neutro, seguida de uma secagem meticulosa, sobretudo entre os dedos, prevenindo a umidade excessiva que favorece micoses. A hidratação deve focar nos calcanhares e na planta, evitando-se as áreas interdigitais. Já o corte das unhas deve ser reto, evitando o formato arredondado que encrava os cantos e gera portas de entrada para bactérias. De acordo com a podóloga Andrea Costa, especialista na área, os serviços de embelezamento em salões de beleza são permitidos, desde que o profissional não retire cutículas excessivamente nem utilize alicates não esterilizados. O estabelecimento deve adotar autoclave e protocolos rigorosos de biossegurança.

Nesse cenário de autocuidado, a consulta de enfermagem desponta como a ferramenta mais eficaz para o diagnóstico precoce e a educação em saúde. Por meio de testes simples, de baixo custo e indolores, o enfermeiro avalia o grau de sensibilidade preservado e identifica deformidades precoces. Conforme pontua Sherida Paz, cabe ao enfermeiro orientar e engajar o paciente nas transformações necessárias de conduta. Esperar a dor surgir para procurar atendimento profissional é o erro mais fatal no manejo do diabetes, pois qualquer alteração sutil — como vermelhidão, palidez, secreção com odor desagradável ou ferida estagnada — já representa um alerta máximo para buscar auxílio médico imediato e preservar a saúde integrativa do paciente.




