SAÚDE

Macapá (AP) — Domingo, 18 de outubro de 2026


Dependência em jogos de azar impacta o SUS com custos bilionários e exige urgente rede de apoio

Historias de superação e dados alarmantes de bloqueios em plataformas federais escancaram os danos invisíveis da dependência de jogos, mostrando como a autoexclusão digital e o suporte psicológico gratuito têm salvado vidas de milhares de brasileiros vulneráveis

Diante do rombo bilionário provocado pelas apostas digitais na economia da saúde, o SUS busca expandir suas redes de apoio para salvar vidas e resgatar a dignidade dos pacientes — Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

DA REDAÇÃO
Macapá. AP
20/09/2026 | 11h08

O impacto financeiro das apostas online no Sistema Único de Saúde atinge R$ 30,6 bilhões anualmente, impulsionado por um salto de 140% no atendimento à dependência nos últimos cinco anos e por custos com depressão, ansiedade e suicídios, conforme revelou um estudo recente do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde. O avanço vertiginoso das chamadas bets mobilizou o Ministério da Saúde e especialistas a acenderem um alerta nacional sobre a urgência de assistência médica e regulação. Enquanto o governo federal registra o bloqueio de mais de 5 milhões de CPFs e amplia teleatendimentos em parceria com a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS, milhares de brasileiros enfrentam em silêncio o peso da compulsão, que corrói finanças, destrói laços familiares e transforma rotinas inteiras em uma luta diária pela sobrevivência emocional.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP
AP-ESPORTESAP-ESPORTES30 de julho de 2019Emanoel Reis, Macapá – AP

A gravidade do cenário reflete-se na disparidade entre os danos gerados à sociedade e os recursos repassados para contê-los. Atualmente, apenas 1% do valor arrecadado das operadoras de apostas é destinado ao Ministério da Saúde para mitigar os prejuízos sanitários e psicológicos provocados pelo vício. Para tentar conter a sangria, a rede pública expandiu drasticamente sua capacidade de suporte. O diretor de Saúde Mental do ministério, Marcelo Kimati, aponta que a criação de uma porta de entrada eletrônica para diagnósticos atraiu dezenas de milhares de interessados.

“Desde fevereiro deste ano, quando nós criamos uma porta de entrada para atendimentos a jogos e apostas de forma eletrônica, nós tivemos uma procura de 20 mil pessoas que se cadastraram após fazerem um teste”, destaca Kimati, explicando que a capacidade mensal de teleatendimento foi ampliada para até 100 mil consultas. O Ministério da Fazenda também tentou frear o avanço do problema por meio de uma plataforma de autoexclusão, que barrou milhões de CPFs e revelou que quase metade dos solicitantes sofria de transtornos mentais graves associados às plataformas digitais.

A face humana dessa estatística é personificada por histórias de perdas profundas e recomeços difíceis. O vendedor Gustavo Pereira, de 24 anos, começou a apostar aos 18 em Lages, Santa Catarina, e acumulou um prejuízo de meio milhão de reais ao longo de seis anos. O isolamento e o desespero só deram trégua quando ele recorreu à autoexclusão digital. “Pode-se dizer que essa ferramenta salvou minha vida. Eu recuperei minha autoestima, recuperei a coragem de olhar nos olhos das pessoas, eu sou outra pessoa, o vício me transformou em outra coisa”, relata o jovem, que hoje vende café nas ruas para reconstruir o próprio futuro.

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Especialistas reforçam que a dependência atua como uma doença neurocomportamental silenciosa, exigindo vigilância de familiares e acolhimento imediato sem julgamentos morais. A psicóloga Mariana Kehl, da Sociedade Brasileira de Psicologia, alerta que os sinais de alerta costumam incluir isolamento e alterações bruscas de humor. Já a irmandade Jogadores Anônimos e redes de apoio como o JOG-Anon desempenham um papel vital no resgate de dependentes e codependentes. Carla Xavier, 41, que passou mais de um ano longe do vício após negligenciar o trabalho e o descanso para jogar, resume a essência do processo de cura. “Uma compulsão, uma doença que você não entende que aquilo é uma doença. A partir do momento que você desenvolveu a compulsão, você precisa de ajuda para poder parar”, conclui.

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