Macapá (AP) — Sexta-feira, 17 de julho de 2026
Mulheres da Amazônia transformam saberes ancestrais em renda através de projetos de fitoterápicos
Investimento milionário apoia dezenas de cooperativas femininas na Amazônia Legal, gerando renda e garantindo a transmissão de saberes botânicos para as novas gerações em mais de 60 comunidades

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
09/07/2026 | 14h02
Mulheres indígenas, extrativistas e trabalhadoras rurais de sete estados da Amazônia Legal estão liderando uma transformação econômica e cultural em seus territórios por meio da expansão da produção de fitoterápicos, biocosméticos e derivados da sociobiodiversidade. Com um investimento de aproximadamente R$ 7 milhões viabilizado pelo Fundo LIRA (Legado Integrado da Região Amazônica), uma iniciativa do IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas), o projeto estruturado para o biênio de 2025 e 2026 fortalece a medicina tradicional e fomenta a autonomia financeira das comunidades locais a partir da consolidação de saberes ancestrais transmitidos entre gerações.


O avanço desta bioeconomia de base comunitária apoia diretamente 53 projetos distribuídos por 57 áreas protegidas da região amazônica. Ao todo, a rede de proteção e produção envolve mais de 1.200 pessoas em cerca de 60 comunidades e aldeias isoladas, criando um cinturão de salvaguarda que une o manejo sustentável da floresta em pé ao desenvolvimento social. O protagonismo feminino surge como a engrenagem central desse modelo, no qual o conhecimento botânico acumulado por séculos deixa de ser apenas uma herança cultural e passa a se consolidar como um ativo socioeconômico estratégico.


Para além do incremento de renda, as ações buscam mitigar a perda histórica de conhecimentos etnobotânicos diante do avanço das pressões urbanas e do desmatamento sobre os ecossistemas tradicionais. A estruturação de cadeias de valor integradas permite que os frutos, ervas e sementes manejados pelas cooperativas ganhem escala e segurança sanitária, abrindo mercados em centros urbanos e estabelecendo um contraponto sustentável e viável às atividades puramente extrativistas ou predatórias.

Na prática, o suporte financeiro e técnico traduz-se na edificação e modernização de infraestruturas locais, como laboratórios de manipulação e unidades de beneficiamento de óleos vegetais. Na Terra Indígena Caititu, localizada no sul do estado do Amazonas, a Associação dos Produtores Indígenas da Terra Indígena Caititu (APITC) encontrou no aporte do Fundo LIRA o estopim para a ampliação do grupo Pupykary. Formado por mulheres da etnia Apurinã oriundas de dez aldeias distintas, o coletivo trabalha focado na preservação e na aplicação prática de plantas medicinais em uma região severamente pressionada pelas franjas do arco do desmatamento.

A iniciativa na TI Caititu viabilizou a construção de uma unidade dedicada exclusivamente ao beneficiamento e à conservação de ervas medicinais, além da implantação de nove canteiros de cultivo especializado. Mais do que garantir a matéria-prima para os fitoterápicos, a estrutura foi desenhada como um polo de intercâmbio de conhecimento. Ali, oficinas reúnem anciãos detentores dos segredos da floresta, jovens lideranças em formação, mulheres trabalhadoras e agentes de saúde locais, beneficiando diretamente 58 indígenas em uma engrenagem contínua de salvaguarda cultural.

O envolvimento das novas gerações é apontado por pesquisadores e lideranças como o principal pilar de sustentabilidade a longo prazo dessas comunidades. Sem perspectivas econômicas atreladas à floresta viva, o êxodo juvenil em direção às periferias das cidades amazônicas historicamente desestrutura o tecido social das aldeias. Ao transformar a medicina tradicional e a coleta de sementes e óleos em uma fonte digna de subsistência e inserção comunitária, os projetos geram um duplo dividendo: fixam a juventude em seus territórios originários e perpetuam a herança cultural de seus antepassados.

O desenho institucional do Fundo LIRA reforça a premissa de que a conservação ambiental na Amazônia é indissociável da valorização humana de suas populações tradicionais. A gestão integrada de territórios, aliada à capacitação em boas práticas de fabricação e gestão de pequenos negócios, confere às mulheres o controle total da cadeia produtiva, desde a coleta sob a copa das árvores até a precificação final dos biocosméticos nos mercados regionais e nacionais.

A consolidação dessas redes de sociobiodiversidade reflete uma mudança paradigmática na abordagem do desenvolvimento para a região Norte do país. O empoderamento das mulheres amazônidas, por meio do resgate científico e tradicional de sua flora, mostra que a floresta em pé possui um valor econômico real e competitivo, capaz de rivalizar com o avanço de atividades ilegais e de promover um futuro de resiliência e dignidade para as populações tradicionais.




