Macapá (AP) — Segunda-feira, 01 de junho de 2026
A asfixia econômica ameaça a sustentabilidade das empresas que geram empregos no Amapá
Levantamento da Serasa Experian aponta que insumos, salários e tributos asfixiam PMEs no início do ano; no Amapá e no restante do país, setor do comércio é o mais atingido pela crise

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
22/04/2026 | 12h04
O segundo semestre de 2026 vem desenhando um cenário de sobrevivência para os pequenos e médios empreendedores brasileiros, que tentam equilibrar o caixa diante de uma escalada nos custos operacionais que não encontra eco no bolso dos consumidores. De acordo com um levantamento nacional da Serasa Experian divulgado neste quadrimestre, 47% das pequenas e médias empresas (PMEs) do país, incluindo o estado do Amapá, enfrentam uma pressão financeira considerada alta ou muito alta, motivada pela combinação de juros elevados em dois dígitos, alta nos insumos e o peso da folha de pagamento. O estudo revela que 49% desses estabelecimentos registraram queda na margem de lucro porque apenas 14,7% conseguiram repassar o aumento dos custos para o preço final, evidenciando uma asfixia econômica que ameaça a sustentabilidade de negócios que formam a base do emprego no Brasil.

A dificuldade em transferir a inflação de custos para a etiqueta é o sintoma mais claro de um mercado interno fragilizado por consumidores cautelosos e uma economia que ainda patina para oferecer crédito barato. No Amapá, onde os desafios logísticos e a dependência do comércio local amplificam o impacto da macroeconomia nacional, economistas alertam que o ambiente de negócios exige agora uma precisão cirúrgica na gestão. Não se trata apenas de uma flutuação sazonal, mas de uma mudança estrutural onde o custo para manter as portas abertas — entre aluguel, tributos e salários — cresce em ritmo muito superior à capacidade de faturamento das empresas. O dado de que quase metade das empresas está perdendo lucratividade é um alerta vermelho para a saúde financeira do setor privado nacional, especialmente para os menores atores da economia.

O perfil das empresas atingidas reforça a gravidade do quadro social, uma vez que a base da amostra da Serasa Experian é composta majoritariamente por Microempreendedores Individuais (32%) e microempresas (19%). São negócios de estrutura familiar ou reduzida, que não possuem o “colchão” financeiro das grandes corporações para absorver prejuízos temporários ou negociar prazos mais longos com fornecedores. Para esses empresários, cada ponto percentual de aumento na folha de pagamento ou no custo da matéria-prima reflete diretamente no sustento da família e na manutenção dos postos de trabalho. A pesquisa aponta que, para 37% dos respondentes, o preço dos insumos é o vilão principal, seguido de perto pela folha de pagamento, citada por 36%, e pela carga tributária, apontada por 32% dos entrevistados.

Setorialmente, o comércio é quem mais sente o golpe. Representando 45% do público ouvido no estudo, o varejo é historicamente o setor mais sensível às variações de preço. No balcão, a resistência do cliente em aceitar reajustes é imediata, o que força o lojista a absorver a alta dos custos para não perder a venda. O setor de serviços, que responde por 36% da amostra, e a indústria, com 18%, também seguem trajetórias de aperto, mas é no varejo que a impossibilidade de repasse se torna uma barreira intransponível para o crescimento. Essa dinâmica cria um efeito cascata: sem margem de lucro, não há investimento; sem investimento, a produtividade estagna, e o ciclo de juros altos torna o endividamento uma armadilha fatal.

Regionalmente, embora o Sudeste concentre a maior parte das empresas participantes (34%), a pressão é sentida de forma capilarizada em todo o território. No Norte, que representa 12% da pesquisa, o cenário amapaense é particularmente simbólico das dificuldades enfrentadas nas periferias econômicas do país. No estado, o custo operacional é agravado por fatores regionais, tornando a gestão financeira não apenas uma escolha estratégica, mas uma ferramenta de sobrevivência diária. A falta de infraestrutura e os custos de transporte somam-se aos 29% de empresários que listam o aluguel como um dos principais fatores de pressão em suas planilhas mensais.

Cleber Genero, vice-presidente de PMEs da Serasa Experian, destaca que o momento é de transição para uma gestão baseada em dados, e não mais no feeling ou na intuição do empreendedor. Segundo o executivo, empresas menores possuem uma capacidade muito limitada de absorver despesas adicionais, o que torna o uso de inteligência analítica fundamental para apoiar decisões financeiras rápidas. Em um ambiente onde os juros de dois dígitos encarecem o capital de giro, errar na precificação ou no controle do estoque pode significar o fechamento precoce da empresa. A recomendação dos especialistas é clara: diante da impossibilidade de repassar custos em um mercado retraído, a única saída é a eficiência operacional e o planejamento rigoroso.

Para o pequeno empresário que observa suas margens minguarem, o desafio de 2026 é encontrar o equilíbrio entre a necessidade de reajustar valores e a realidade de um público com poder de compra limitado. A organização financeira, frequentemente negligenciada em períodos de bonança, torna-se o divisor de águas entre as empresas que conseguirão atravessar este ano e as que ficarão pelo caminho. O cenário exige que o empreendedorismo brasileiro abandone o modo de reação e passe para o modo de planejamento estratégico, buscando reduzir desperdícios e otimizar cada real investido, enquanto aguarda uma sinalização mais favorável da política monetária e uma retomada consistente da confiança do consumidor no horizonte econômico nacional.




