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Macapá (AP) — Segunda-feira, 20 de abril de 2026


Lenda do basquete, Oscar Schmidt deixa um legado de cinco Olimpíadas e recordes mundiais

Morreu Oscar Schmidt, lenda do basquete que abriu mão da NBA para defender a seleção. Com cinco Olimpíadas no currículo e o histórico ouro no Pan de 1987, o craque sucumbiu a uma parada cardíaca após anos de luta contra o câncer

Adeus ao eterno “Mão Santa”. Oscar Schmidt nos deixa aos 68 anos, eternizado por sua precisão absoluta, as cinco Olimpíadas disputadas e um amor incondicional pela camisa da seleção brasileira — Foto: Nellie Solitrenick

DA REDAÇÃO
17/04/2026 | 21h09

O basquete mundial perdeu na sexta-feira, 17 de abril de 2026, sua mão mais precisa e seu coração mais patriota. Oscar Schmidt, o maior cestinha da história do Brasil, morreu aos 68 anos após sofrer uma parada cardiorrespiratória em sua residência, em Alphaville, encerrando uma batalha de 15 anos contra as sequelas de um tumor cerebral. Levado às pressas pelo Serviço de Resgate ao Hospital e Maternidade Municipal Santa Ana, em Santana de Parnaíba, o ídolo já chegou à unidade sem vida, deixando um legado inigualável de cinco Olimpíadas disputadas, recordes mundiais de pontuação e a histórica decisão de renunciar à NBA para nunca deixar de vestir a camisa da seleção brasileira.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Por Emanoel Reis, Macapá – AP
OPINIÃOOPINIÃO8 de fevereiro de 2010Por Emanoel Reis, Macapá – AP

A partida do “Mão Santa” silencia o som da bola laranja que ele, como poucos, soube domar. Natural de Natal, Rio Grande do Norte, Oscar Daniel Bezerra Schmidt nasceu em 1958 com o esporte no DNA, filho de um atleta de salto em altura, mas foi o acaso de uma mudança para Brasília e o incentivo de um tio que o desviaram do futebol para as quadras de basquete. O que começou em uma escola da capital federal transformou-se em uma trajetória meteórica que o levou ao Palmeiras aos 16 anos e, pouco depois, ao topo do mundo. Já em 1978, aos 20 anos, ele ajudava o Brasil a conquistar o bronze no Mundial das Filipinas, sinalizando que uma lenda estava em construção.

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O estilo de Oscar era inconfundível: um arremesso de longa distância que parecia guiado por forças divinas, mas que ele insistia em dizer ser fruto de um treinamento exaustivo que não terminava enquanto ele não convertesse centenas de cestas seguidas. Essa obstinação o levou a brilhar no Sírio, onde conquistou o Mundial Interclubes em 1979, e a atravessar o Atlântico para dominar a Liga Italiana por 11 temporadas. Na Itália, ele quebrou a barreira dos 10 mil pontos e tornou-se um fenômeno global, atraindo os olhares dos olheiros da NBA. Em 1984, após a Olimpíada de Los Angeles, o New Jersey Nets bateu à sua porta, mas a resposta de Oscar tornou-se um dos maiores gestos de fidelidade esportiva do país: ele recusou o contrato para não perder o status de amador exigido pela FIBA na época, o que o impediria de jogar pelo Brasil.

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Essa escolha foi recompensada em 1987, no que muitos consideram o maior momento do basquete masculino nacional. Em Indianápolis, durante os Jogos Pan-Americanos, Oscar comandou uma virada improvável contra os Estados Unidos dentro da casa deles. A medalha de ouro não foi apenas um título, mas a prova de que o “Mão Santa” tinha razão em priorizar sua pátria. Anos depois, já em 2017, os próprios americanos do Brooklyn Nets (sucessor do New Jersey) corrigiram a história ao homenageá-lo com uma camisa emoldurada, reconhecendo que, mesmo sem ter jogado na liga, ele era um dos seus.

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A relação de Oscar com as Olimpíadas foi um caso de amor e recordes. Ele é o único jogador da história a ultrapassar os 1.000 pontos na competição, somando 1.093 em cinco edições consecutivas. Em Seul-1988, ele atingiu o ápice individual, sendo o cestinha com 338 pontos e estabelecendo dez marcas inéditas em uma única edição, incluindo os assombrosos 55 pontos em um único jogo contra a Espanha. Sua “última dança” ocorreu em Atlanta-1996, atendendo a um pedido do técnico Ari Vidal, encerrando um ciclo que o colocou no Hall da Fama dos Estados Unidos em 2013, honraria dividida apenas com Hortência e Ubiratan entre os brasileiros.

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Ao retornar ao Brasil na década de 1990, Oscar provou que o tempo era apenas um detalhe. Passou por Corinthians, Bandeirantes, Mackenzie e Flamengo, onde se aposentou em 2003, aos 45 anos. No clube rubro-negro, ele alcançou a marca de 49.973 pontos na carreira, superando o recorde histórico de Kareem Abdul-Jabbar, marca que só seria batida em 2024 pelo astro LeBron James. Mesmo após as quadras, o desafio de Oscar mudou de natureza. Em 2011, recebeu o diagnóstico de um glioma, um tumor cerebral. Enfrentou cirurgias, radioterapia e sessões de quimioterapia com a mesma garra com que buscava um rebote ofensivo. Em 2022, chegou a anunciar que interromperia o tratamento por considerar-se curado, mas a saúde debilitada nos últimos meses já indicava que o corpo começava a sentir o peso da longa jornada.


A morte de Oscar Schmidt deixa um vazio que as estatísticas, por mais grandiosas que sejam, não conseguem preencher. Foram 10 títulos de cestinha do Brasileirão e sete da Liga Italiana, mas seu maior troféu foi a identificação imediata com o torcedor, que via nele o exemplo máximo de entrega. Em suas últimas aparições públicas e nas redes sociais de seus familiares, como o filho Felipe Schmidt, era evidente o carinho de uma nação que aprendeu a amar o basquete através de seus arremessos do meio da rua. O Brasil se despede hoje de seu maior artilheiro, o homem que provou que, com treino e amor à camisa, é possível vencer gigantes em seu próprio solo e eternizar o nome entre os imortais do esporte mundial.

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