Macapá (AP) — Quinta-feira, 03 de setembro de 2026
Tonhão e Tuma buscam reeleição em meio a disputas nacionais e grandes desafios nos bastidores
Com mandatos próximos do fim, dirigentes de Remo e Paysandu miram permanência nos cargos enquanto tentam sanar dívidas, manter elencos competitivos e superar um atraso de décadas na infraestrutura

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
16/08/2026 | 17h09
Enquanto a bola rola no gramado e dita os humores nas arquibancadas de Belém, os dois gigantes da Amazônia vivem uma encruzilhada que vai além das quatro linhas. Neste segundo semestre de 2026, Clube do Remo e Paysandu Sport Club dividem suas atenções entre as disputas do Campeonato Brasileiro — onde os azulinos lutam pela permanência na Série A e os bicolores buscam o retorno à Série B — e os bastidores inflamados pela sucessão presidencial no fim do ano. De um lado da Avenida Almirante Barroso, o Remo colhe os frutos de uma escalada esportiva que inflou suas finanças e arrefeceu a oposição; do outro, o Paysandu lida com os reflexos de um rebaixamento à Série C e recorre à recuperação judicial para estancar uma crise financeira que quase o levou ao colapso. No centro de ambas as disputas eleitorais, paira a mesma constatação: a sobrevivência a longo prazo dos clubes depende de romper com um atraso estrutural de três décadas na formação de atletas e na construção de centros de treinamento modernos.

Por força de seus respectivos regimentos internos, os mandatos de Antônio Carlos Teixeira, o Tonhão, no Remo (trienal), e de Márcio Tuma, no Paysandu (bienal), chegam ao término neste ciclo. Ambos, no entanto, articulam internamente a busca pela reeleição. A dinâmica das urnas reflete de maneira quase direta a tabela de classificação. No Baenão, a trajetória recente de sucessivos acessos — da Série C até a elite nacional — garantiu uma rara calmaria política ao presidente azulino. Documentos contábeis divulgados pela agremiação em julho apontam um salto patrimonial expressivo, atingindo a marca de mais de R$ 281 milhões, com um incremento superior a R$ 100 milhões em relação ao exercício anterior. O crescimento histórico, contudo, impõe o desafio de administrar despesas proporcionais ao nível de exigência da Série A, onde a margem de erro financeiro é estreita.
Para o analista Diego Bessa, a fórmula para sustentar esse momento passa pela delicada conciliação entre responsabilidade fiscal e paixão popular. Segundo ele, o dirigente só consegue manter as contas estáveis e a gestão pacificada se houver tranquilidade e desempenho em campo, pois a formação de uma equipe competitiva é o que verdadeiramente resguarda a direção de crises imediatistas. Essa percepção é corroborada pelo jornalista e comentarista esportivo Paulo Fernando, que destaca a metamorfose do ambiente azulino. Ele lembra que, há quatro anos, o Remo era marcado por divisões internas profundas entre diferentes alas políticas. Com as vitórias consecutivas e a presença na primeira divisão, a oposição praticamente sumiu do debate público, levada pelo contentamento da torcida com a realidade esportiva.

A cerca de quatrocentos metros dali, na Curuzu, o cenário é de austeridade e reorganização sob pressão. O rebaixamento para a Série C em 2025 expôs uma grave crise de liquidez, que culminou em uma enxurrada de ações trabalhistas e em um passivo de curto prazo de R$ 15 milhões gerado apenas na temporada passada. O estopim financeiro também abalou o comando político: Roger Aguilera renunciou à presidência na virada do ano, deixando a cadeira para o então vice-presidente Márcio Tuma. A saída emergencial encontrada pela diretoria foi recorrer à Lei da SAF e ao instrumento da recuperação judicial para suspender execuções imediatas e viabilizar a continuidade das atividades.


A medida concedeu um fôlego temporário a Tuma, que conseguiu estabilizar o fluxo de caixa diário e manter a folha salarial dos funcionários e do elenco em dia. No entanto, Paulo Fernando adverte para os riscos ocultos sob essa aparente estabilidade. Ele pontua que o atual mandatário teve uma tranquilidade atípica para montar um elenco mais enxuto sem a obrigação de quitar imediatamente os atrasados deixados por gestões anteriores. Porém, quando os prazos da recuperação judicial expirarem e os planos de pagamento começarem a vencer, o acúmulo de compromissos gerará um efeito “bola de neve”, exigindo recursos que o clube terá dificuldades de honrar caso não conquiste o acesso de volta à Série B. Diferente do rival, o pleito no Paysandu promete ser disputado, com grupos de oposição se articulando para lançar uma chapa concorrente contra a atual diretoria.

Para além das oscilações de receitas e das disputas partidárias, a raiz dos problemas que ciclicamente assombram o futebol paraense reside no descaso crônico com as categorias de base e a infraestrutura. Enquanto agremiações emergentes do futebol brasileiro, como o Cuiabá, investiram na consolidação de centros de treinamento de ponta, Leão e Papão convivem com um déficit estrutural que analistas estimam em quase trinta anos de atraso. Os números da formação esportiva em Belém evidenciam essa lacuna: ao longo dos últimos cinco anos, ambos os clubes revelaram juntos apenas dois atletas negociados com o primeiro escalão do futebol nacional — o lateral-direito Kadu, do Remo, atualmente emprestado ao Botafogo e com compra prevista para 2027, e o volante Pedro Henrique, adquirido pelo Flamengo e repassado ao Paysandu até o encerramento do ano.

Para os torcedores e trabalhadores que sustentam o ecossistema do esporte em Belém, a ausência de um trabalho contínuo nas divisões inferiores se traduz em insegurança e custos inflacionados no mercado de transferências. Como observa Paulo Fernando, a falta de peças na base obriga as diretorias a contratar substitutos no mercado a preços elevados quando ocorrem lesões em atletas titulares, a exemplo do que sucedeu no Remo após a contusão do lateral Mayk. Já a recente utilização de garotos no Paysandu não partiu de um planejamento estruturado, mas sim da necessidade imposta pela escassez de recursos. Se nada mudar na mentalidade dos futuros mandatários, o futebol do Pará continuará refém de soluções efêmeras, empurrando para frente o dever inadiável de investir em suas próprias raízes.




