Macapá (AP) — Terça-feira, 20 de outubro de 2026
Amazônia Legal supera abismo histórico e atinge recorde de recursos na Lei de Incentivo ao Esporte
Aliança entre Rede Igapó e Instituto Futebol de Rua capacita organizações sociais em nove estados, garante R$ 21 milhões em patrocínios reais e pressiona empresas a descentralizar investimentos federais para além do eixo Sul-Sudeste em favor da juventude amazônica

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
05/09/2026 | 12h51
Centenas de crianças e jovens que encontram no esporte uma alternativa à vulnerabilidade social em comunidades ribeirinhas e periferias da Amazônia Legal começaram a ver suas realidades transformadas por uma virada histórica nos investimentos federais. Em 2025, os nove estados da região alcançaram o recorde de R$ 321,08 milhões em projetos autorizados para captação por meio da Lei Federal de Incentivo ao Esporte — um expressivo salto de 62,4% na comparação com o ano anterior.


O avanço é fruto direto da atuação da Rede CT (Capacitação e Transformação), aliança criada em 2024 pela Rede Igapó e pelo Instituto Futebol de Rua. A iniciativa capacitou tecnicamente líderes locais de 316 organizações em 75 municípios, ensinando-os a superar barreiras burocráticas para aprovar propostas e atrair o patrocínio de grandes empresas. O objetivo central é romper uma desigualdade geográfica histórica: desde 2007, enquanto o Sudeste concentrou R$ 63,80 de cada R$ 100 captados no país, a Amazônia Legal — dona de mais da metade do território nacional e lar de 14% dos brasileiros — absorveu apenas 3,57% desses recursos. Agora, com mais de R$ 21 milhões já captados e executados em quadras e campos do Norte, o incentivo público finalmente se converte em dignidade, saúde e futuro para a juventude amazônica.


Em 2025, um movimento coordenado por organizações da sociedade civil começou a mudar essa trajetória ao bater recordes históricos de aprovação e captação de recursos pela Lei Federal de Incentivo ao Esporte, alcançando R$ 321,08 milhões autorizados — um salto de 62,4% em relação ao ano anterior —, resultado direto de um esforço intensivo para qualificar entidades locais e enfrentar desigualdades regionais crônicas que há décadas concentram os incentivos fiscais no centro-sul do país.

A disparidade é corroborada pelo histórico oficial do mecanismo. Desde 2007, ano em que a legislação entrou em vigor, o Sudeste abocanhou R$ 63,80 de cada R$ 100 efetivamente captados por meio de incentivos fiscais em âmbito nacional. Enquanto isso, a Amazônia Legal — território que abriga 14% da população brasileira, cobre mais da metade da área geográfica do país e enfrenta alguns dos piores indicadores socioeconômicos do território nacional — teve acesso a tímidos 3,57% do total de recursos já liquidados. Na prática, a grande maioria dos projetos que saíam do papel ficava restrita a clubes tradicionais e institutos sediados nos grandes polos econômicos, distantes da realidade de ribeirinhos, indígenas e jovens das bordas das capitais amazônicas.

Essa realidade tem raízes profundas que vão além do desinteresse de eventuais patrocinadores. Para captar recursos via renúncia fiscal, uma instituição precisa percorrer um labirinto burocrático que exige certidões negativas impecáveis, planilhas orçamentárias milimetricamente detalhadas, justificativas pedagógicas e capacidade de negociação com departamentos de responsabilidade social corporativa. Sem assistência jurídica ou contábil especializada, centenas de iniciativas comunitárias que mudavam a vida de crianças acabavam desclassificadas ainda na triagem dos ministérios ou recebiam o carimbo de aprovação oficial sem jamais conseguir converter o aval governamental em verba real.

Para romper esse ciclo de exclusão técnica, a Rede Igapó e o Instituto Futebol de Rua uniram forças em 2024 para fundar a Rede CT – Capacitação e Transformação. A aliança combinou a bagagem de duas décadas do Futebol de Rua em desenvolvimento esportivo comunitário com a experiência da Rede Igapó na estruturação de projetos incentivados. Em cerca de dois anos de trabalho em campo, a coalizão já qualificou 316 organizações da sociedade civil espalhadas por 75 municípios amazônicos.

A interiorização do treinamento gerou efeitos imediatos nos balanços e, principalmente, no cotidiano das comunidades atendidas. Ao todo, mais de 106 propostas formatadas durante os ciclos de assessoria técnica obtiveram a chancela do governo federal, movimentando mais de R$ 90 milhões autorizados para captação. Esse contingente representa nada menos que 22% de todos os projetos validados na Amazônia Legal e equivale a 15,2% do montante financeiro global disponível para a região. Mais importante que o aval formal, as entidades participantes já conseguiram transformar a autorização em cheques reais, assegurando mais de R$ 21 milhões depositados em conta para compra de materiais, remuneração de profissionais e manutenção de escolinhas e centros sociais.

A capilaridade do programa desenha um mapa abrangente da demanda reprimida por políticas esportivas no Norte. O Pará lidera a mobilização, com 61 organizações capacitadas, seguido de perto por Mato Grosso (54) e Amazonas (53). Em seguida aparecem Maranhão (35), Amapá (28), Acre (25), Rondônia (22), Roraima (20) e Tocantins (18). Em cada um desses territórios, projetos que antes dependiam de rifas e doações esporádicas agora contam com planejamento plurianual, oferecendo alimentação balanceada, acompanhamento escolar e acolhimento psicossocial para milhares de jovens em situação de vulnerabilidade.

Para Fernando Salum, diretor da Rede Igapó, democratizar o acesso às ferramentas de fomento é um passo indispensável para reparar injustiças históricas. O dirigente enfatiza que a Amazônia Legal reúne coletivos com capacidade ímpar de transformação territorial, cuja atuação permanecia asfixiada justamente pela ausência de pontes técnicas e de redes de diálogo com o mercado.

Com os projetos validados e juridicamente blindados, a responsabilidade migra agora para as diretorias de sustentabilidade e relações institucionais das grandes corporações, sobretudo aquelas que exploram recursos naturais ou mantêm operações de grande porte no bioma. Conforme argumenta a gerente de projetos da Rede CT, Gigi Favacho, o volume inédito de aprovações coloca as marcas diante do compromisso ético de reter investimentos onde operam. Hoje, com entidades capacitadas, assessoradas e conectadas em rede, o esporte amazônico demonstra que não precisa de assistencialismo, mas de equidade na distribuição do investimento público.




