Macapá (AP) — Quarta-feira, 15 de abril de 2026
Avaliações negativas de pré-campanha impulsionam críticas de Lula ao Supremo Tribunal Federal
De olho no quarto mandato, presidente se afasta de ministros do STF e aconselha Alexandre de Moraes a salvar biografia para evitar que polêmicas do Judiciário contaminem sua popularidade

DA REDAÇÃO
Com informações de ESTADÃO CONTEÚDO
10/04/2026 | 11h59
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou um movimento de distanciamento político e retórico em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF), após avaliações de sua equipe de campanha apontarem que o desgaste da imagem da Corte pode contaminar sua popularidade e comprometer as chances de vitória em um eventual quarto mandato. A estratégia de descolamento, motivada pelo receio de que polêmicas do Judiciário se tornem munição eleitoral para a oposição, manifestou-se por meio de cobranças públicas diretas e conselhos reservados a magistrados, como o pedido para que Alexandre de Moraes priorize a preservação de sua “biografia” diante das críticas crescentes sobre a condução de inquéritos e o que a direita classifica como abusos de autoridade.

A mudança de tom ocorre em um momento crucial, onde o governo identifica que o tribunal, anteriormente um aliado institucional contra as investidas golpistas, tornou-se um fardo na disputa pela opinião pública. Analistas do Palácio do Planalto observam que as recentes investigações envolvendo o enriquecimento de magistrados e o chamado “Caso Máster” criaram uma aura de privilégio e impunidade que Lula quer evitar a qualquer custo. Ao declarar publicamente que ministros do STF não devem se envolver em escândalos, o presidente envia um sinal claro ao eleitorado de que sua gestão não é fiadora das condutas individuais dos ocupantes do Palácio do Planalto ou da Praça dos Três Poderes.

“Lula teria aconselhado o
ministro Alexandre de Moraes
a ‘salvar sua biografia’,
vendo-o agora como um
desgaste para a reeleição.”
O caso de Alexandre de Moraes é emblemático para entender essa nova fase da geopolítica brasiliense. Moraes, que por anos foi o principal anteparo do Judiciário contra as ameaças à democracia, agora é visto sob uma lente estritamente pragmática pelo petismo. Relatos de bastidores indicam que Lula teria aconselhado o ministro de forma paternalista, porém firme, a “salvar sua biografia”. A leitura da inteligência governamental é de que o ministro extrapolou o papel de defensor das instituições para se tornar um personagem divisivo, cuja presença constante nos noticiários policiais e políticos drena a energia da administração federal e oferece um alvo fácil para a narrativa da oposição.

Essa movimentação gerou uma irritação profunda em uma ala específica do Supremo. Magistrados que se sentem expostos e desprotegidos pelo Executivo interpretam as falas de Lula como um sinal de ingratidão política. Para esses ministros, o presidente já entrou oficialmente em “modo campanha”, sacrificando a relação institucional em prol de um cálculo eleitoral que visa isolar o STF em suas próprias crises. A avaliação dentro da Corte é que Lula está tentando “lavar as mãos” para não ser associado a decisões impopulares do tribunal que, paradoxalmente, garantiram a estabilidade de sua posse e governabilidade nos primeiros anos de mandato.

“A avaliação no governo é
que o STF, envolto em
polêmicas, pode contaminar
a imagem de Lula e tirar
votos de setores moderados.”
A direita, por sua vez, aproveita a fissura para intensificar o discurso de defesa das liberdades individuais. Se antes a narrativa era de confronto direto, agora os adversários de Lula se apropriam de conceitos como “devido processo legal” e “limites constitucionais” para atacar o tribunal e, por extensão, o governo que com ele se alinhou. Ao perceber que o campo conservador está unificado sob a bandeira do combate ao “ativismo judicial”, Lula recalibrou seu discurso. Ele entende que, em 2026, o tribunal será um dos principais temas de debate, e estar abraçado à toga pode significar a perda de votos em setores moderados e na classe média, que já demonstra cansaço com a onipresença do Judiciário na vida política.

No cotidiano do governo, o efeito dessa estratégia é o silenciamento de ministros de Estado sobre temas que envolvam o STF. A ordem é não sair em defesa automática da Corte. Lula, que já confirmou sua intenção de buscar a reeleição, parece decidido a personificar o papel de um moderador que está acima dos conflitos jurídicos. O distanciamento é, portanto, uma tentativa de higienização da imagem presidencial. O objetivo é que, ao chegar no período oficial de propaganda eleitoral, o petista possa se apresentar como alguém que defende as instituições, mas que não tolera os desvios daqueles que as compõem.

“O distanciamento de Lula
gerou irritação no STF, onde
ministros veem ingratidão
e o uso do tribunal como
bode expiatório da campanha.”
O cenário aponta para um fim de ano político conturbado. A relação entre o Executivo e o Judiciário, que em 2023 foi de lua de mel, caminha para um divórcio litigioso movido por conveniência eleitoral. Enquanto o STF lida com suas crises internas e pressões externas, Lula tenta construir um caminho onde a reeleição dependa apenas de seus próprios feitos e não das decisões de um tribunal que, aos olhos de sua base e do centro, tornou-se imprevisível e politicamente custoso. A “biografia” que o presidente tenta salvar, no fim das contas, é a dele própria, visando o lugar na história como o primeiro brasileiro a governar o país por quatro vezes.




