Macapá (AP) — Domingo, 30 de agosto de 2026
Bilionários movimentam milhões de reais em doações eleitorais para diferentes candidaturas pelo país afora
Liderados pelo empresário Alexandre Grendene, grandes nomes da economia brasileira movimentaram expressivas quantias registradas pela Justiça Eleitoral, financiando campanhas de diversos espectros ideológicos e impulsionando disputas regionais estratégicas em estados como Rio Grande do Sul, Ceará e Minas Gerais

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
27/08/2026 | 09h18
Grandes nomes do PIB brasileiro e figuras de destaque da cena pública nacional desembolsaram milhões de reais em doações eleitorais para financiar candidaturas de diferentes espectros políticos nas eleições deste ano, movimentando recursos por meio de transferências declaradas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o objetivo de impulsionar aliados estratégicos e fortalecer bases regionais ligadas aos seus negócios.


Quem percorre o mapa do poder econômico desenhado pela Justiça Eleitoral descobre que as cifras bilionárias e as preferências políticas funcionam como um roteiro de viagem entre as regiões do país, conectando os pampas gaúchos ao calor do sertão nordestino e às montanhas de Minas Gerais. No topo desse itinerário de investimentos de campanha, o bilionário Alexandre Grendene Bartelle, cofundador e presidente da fabricante de calçados Grendene, desponta de forma isolada na liderança com um aporte de R$ 3 milhões. O empresário dividiu seus recursos em dois destinos distintos: destinou R$ 2,5 milhões à campanha do Coronel Zucco (PL) na disputa pelo Palácio Piratini, no Rio Grande do Sul, e embarcou outros R$ 500 mil na empreitada de Ciro Gomes (PSDB) ao governo do Ceará.


Logo atrás, na segunda colocação, surge a rota jurídica e partidária traçada pelo advogado Fabiano Silveira. Ex-ministro da Transparência no governo de Michel Temer e ex-conselheiro do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Silveira realizou uma única escala financeira de grande porte ao transferir R$ 2 milhões para o diretório estadual do MDB na Paraíba, consolidando o estado nordestino como um dos pontos centrais da distribuição de verbas privadas.

O pódio se completa com Pedro Grendene, irmão gêmeo de Alexandre, que também imprimiu sua marca no fluxo de capitais eleitorais ao injetar R$ 500 mil na campanha cearense de Ciro Gomes e mais R$ 200 mil no projeto do gaúcho Fabiano Feltrin (PL), ex-prefeito de Farroupilha que concorre a uma vaga de deputado estadual. Feltrin ficou nacionalmente conhecido após sugerir publicamente, durante uma transmissão ao vivo com o então presidente Jair Bolsonaro, que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), fosse levado à guilhotina.

A intensa circulação de verbas dos irmãos Grendene ao longo do eixo Rio Grande do Sul–Ceará revela uma geografia afetiva e corporativa que atravessa o território brasileiro. Nascidos no Sul, os irmãos fincaram raízes industriais profundas no Nordeste, onde mantêm três das cinco fábricas de suas principais marcas em solo cearense. O ponto alto dessa presença física e econômica está justamente em Sobral, berço político e histórico do clã de Ciro Gomes, unindo a paisagem fabril da região às disputas nas urnas.

Ainda no Ceará, o roteiro das doações ganha contornos de rivalidade direta entre setores produtivos. Enquanto os Grendene apoiam Ciro, os empresários da siderurgia Rose Marie Matos Ferreira e Wander Jean Matos Ferreira direcionaram R$ 600 mil e R$ 400 mil, respectivamente, para a campanha à reeleição do governador Elmano de Freitas (PT), acirrando o embate pelas rédeas do estado.

Mais ao centro do país, as paisagens históricas de Minas Gerais também atraíram somas vultosas do empresariado. O bilionário Sergio Augusto Guerra de Resende, um dos principais acionistas individuais da locadora de veículos Localiza e detentor de fortuna calculada em R$ 1,4 bilhão pela revista Forbes, repartiu R$ 600 mil no estado. Ele enviou R$ 300 mil para a tentativa de reeleição do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e outros R$ 300 mil para o comitê de Flávio Roscoe, que disputa o governo mineiro pelo PL.

Com o mesmo volume total de R$ 600 mil, o banqueiro Marcos Alberto Cabaleiro Fernandez, um dos fundadores do Banco Inter, optou por uma trilha de diversificação partidária sem fronteiras ideológicas rígidas. Fernandez aplicou R$ 400 mil na candidatura de Roscoe ao governo de Minas Gerais e estendeu seu percurso até São Paulo ao destinar R$ 200 mil a Edinho Silva, presidente nacional do PL e ex-ministro de Dilma Rousseff, mostrando que as rotas do capital eleitoral cruzam siglas e governos com a mesma naturalidade de um viajante experiente.




