Macapá (AP) — Sábado, 30 de maio de 2026
Juíza determina bloqueio de contas investigadas por ataques virtuais com recursos da prefeitura
Investigação aponta esquema coordenado para manipulação do debate nas redes sociais com dinheiro público da prefeitura, resultando na queda de páginas e na quebra de sigilos bancários dos envolvidos

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
28/05/2026 | 14h35
A Justiça Eleitoral do Amapá desarticulou um esquema criminoso de desinformação ao determinar a suspensão imediata de perfis nas redes sociais Instagram e Facebook por disseminação de notícias falsas com fins eleitorais em Macapá. A decisão, assinada pela juíza Paola Julien e divulgada esta semana, atendeu a um pedido fundamentado da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Eleitoral (MPE), no âmbito da “Operação Palanque Digital”. As investigações apontam que uma rede organizada utilizava inteligência artificial e verbas públicas da Prefeitura de Macapá para produzir conteúdos falsos e difamar adversários políticos do prefeito afastado, Antônio Furlan (PSD).

A ação cumpre o papel essencial de frear a manipulação do debate público por meio de estruturas financiadas ilegalmente. De acordo com os relatórios da Polícia Federal que embasaram a medida, os perfis operavam de maneira coordenada, criando narrativas distorcidas que ultrapassavam os limites da crítica política aceitável e configuravam ataques sistemáticos. O processo tramita em segredo de justiça, mas informações obtidas apontam que o coração da operação era comandado por Juarez Menescal, ex-secretário de Comunicação do município. Menescal chegou a ser preso em flagrante durante o cumprimento dos mandados por posse ilegal de armas de fogo, sendo liberado posteriormente após o pagamento de uma fiança estipulada em R$ 8 mil.

Entre as páginas afetadas pelo bloqueio judicial e que saíram do ar estão contas conhecidas localmente, como Ispia Amapá, Bambam News, Fabuloso Som, Me Solta Amapá e Fuleirão. A ordem expressa da magistrada não apenas exige a interrupção das atividades das contas existentes, mas também proíbe terminantemente os investigados de criarem novos perfis sob pena de sanções severas. Especialistas apontam que o uso de ferramentas tecnológicas sofisticadas, como geradores de conteúdo por inteligência artificial, eleva o patamar de gravidade do crime, pois confere verossimilhança a mentiras compartilhadas em massa, confundindo o eleitorado e desequilibrando o pleito de forma artificial.

Para aprofundar o alcance da investigação e identificar todos os envolvidos no financiamento do esquema, a juíza Paola Julien também autorizou a quebra dos sigilos bancário e fiscal de diversas empresas e pessoas físicas associadas ao caso. Com isso, os peritos da Polícia Federal buscam rastrear de forma minuciosa o fluxo financeiro, desenhando o caminho exato que o dinheiro público percorreu desde os cofres da prefeitura até chegar aos operadores das redes de difamação. “Não se trata apenas de calúnia na internet, mas de uma suposta organização criminosa blindada por recursos dos próprios contribuintes para fraudar a percepção pública”, afirmou um dos investigadores sob condição de anonimato.

Na fundamentação de sua sentença, a magistrada enfatizou que o direito constitucional à liberdade de expressão não pode ser distorcido e utilizado como um escudo para a prática de atos ilícitos. Ela reforçou que o ecossistema democrático exige proteção contra ataques orquestrados que visam fraudar a vontade popular por meio da mentira programada. Moradores da capital amapaense reagiram com surpresa e indignação ao volume das revelações. “A gente consome essas páginas achando que é apenas humor ou fofoca política, mas descobrir que havia dinheiro público e robôs por trás manipula a nossa opinião de um jeito assustador”, declarou a assistente social amapaense Maria do Socorro Silva, refletindo o sentimento de vulnerabilidade dos cidadãos digitais.

A defesa do ex-secretário Juarez Menescal e os representantes do prefeito afastado Antônio Furlan não foram localizados para comentar o teor das acusações até o fechamento desta edição, mas o espaço permanece aberto para manifestações formais. Enquanto o inquérito avança com a análise dos materiais e eletrônicos apreendidos na operação, a decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Amapá estabelece um precedente rígido no combate às táticas de guerrilha digital e ao abuso de poder econômico e político nas redes, sinalizando que a tecnologia voltada ao crime não ficará imune ao crivo da lei.




