CIDADES

Macapá (AP) — Sexta-feira, 11 de setembro de 2026


Com cofres cheios, cidades do interior atraem população e desafiam hegemonia de grandes metrópoles

Quase 150 municípios com receitas bilionárias expandiram população no pós-pandemia, criando disparidades demográficas que ameaçam receitas do FPM e desafiam prefeituras a adaptar seus investimentos ao novo perfil dos cidadãos

Movimento intenso e calçadas vivas definem o varejo no centro de Macapá. Entre a arquitetura simples e os letreiros coloridos, a população local garante a circulação constante de produtos nesta área Foto: Reprodução/WEB

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
07/09/2026 | 13h23

A elite financeira dos municípios brasileiros passa por uma profunda reconfiguração demográfica provocada por migrações pós-pandemia, novos polos econômicos e a descentralização do trabalho. Um levantamento feito pelo portal Brasil 61, que cruzou dados orçamentários do Siconfi com projeções do IBGE, revela que 147 das 195 cidades com orçamentos bilionários no país viram suas populações crescerem, impulsionadas pelo avanço no Norte e no interior, enquanto metrópoles consagradas enfrentam um esvaziamento inédito de seus centros urbanos. O grupo de cidades mais ricas do Brasil ganhou cerca de 2,4 milhões de moradores no agregado recente, saltando de 99,5 milhões para 101,9 milhões de pessoas, mas o saldo esconde um mapa de contrastes radicais entre o esgotamento dos grandes conglomerados e a corrida rumo a novas fronteiras.


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No topo da pirâmide dessa expansão acelerada despontam polos que combinam dinamismo produtivo e atração de mão de obra. Boa Vista lidera o avanço proporcional com uma alta expressiva de 22,7%, saltando de 408 mil para mais de 501 mil habitantes. Em seguida vem Canaã dos Carajás, polo mineral no sudeste do Pará, cuja população saltou 22,4%, passando de 75,4 mil para 92 mil moradores. Cidades médias e polos regionais como Sinop, em Mato Grosso, Chapecó, em Santa Catarina, Juazeiro do Norte, no Ceará, Porto Seguro, na Bahia, e os municípios fluminenses de São João de Meriti e Belford Roxo também registraram altas superiores a 14%.

Em termos absolutos, contudo, ninguém atraiu mais moradores do que Manaus. A capital amazonense ganhou 272 mil habitantes no intervalo analisado, mais do que o dobro registrado pelo Rio de Janeiro, que somou 105 mil, e à frente de Goiânia, com 97 mil novos residentes. Trata-se de uma dinâmica viva que desafia o senso comum sobre onde a população escolhe viver quando a economia regional pulsa com intensidade.

Na contramão dessa maré cheia, a maior metrópole da América Latina vive o processo inverso. São Paulo ostenta o cofre mais robusto do país, com orçamento superior a R$ 109 bilhões, mas perdeu 288 mil moradores — uma retração de 2,4%. Ainda que permaneça como o município mais populoso da nação, com 11,9 milhões de habitantes, a capital paulista encabeça uma debandada que também atinge Curitiba, Salvador, Porto Alegre, Fortaleza e Palmas. Ao todo, 49 municípios bilionários registraram encolhimento populacional.

As maiores quedas proporcionais concentram-se em faixas metropolitanas e cidades litorâneas do Sul e do Sudeste. Cubatão, na Baixada Santista, sofreu o recuo mais drástico, encolhendo 10,9%. Casos semelhantes repetem-se em Itaguaí, Embu das Artes, Guarujá, Maricá, Maringá e nos polos gaúchos de Caxias do Sul e Santa Maria.

Essa revoada para longe das grandes capitais é reflexo de transformações profundas no cotidiano das famílias brasileiras. Para a economista Carla Beni, professora da Fundação Getúlio Vargas, o movimento reflete o legado da crise sanitária e as novas configurações do mercado profissional. A flexibilidade do trabalho remoto e a busca por qualidade de vida empurraram contingentes expressivos rumo a cidades litorâneas e municípios do interior, alterando bruscamente a rotina das comunidades que os acolhem.

Mas o crescimento ou encolhimento nas planilhas não é um dado meramente estatístico; ele altera a vida real de quem acorda cedo e depende do poder público. Beni alerta que a alteração no perfil etário e social dos residentes impõe um rearranjo imediato na prestação de serviços básicos. Uma localidade que recebe jovens casais com crianças pequenas precisa abrir vagas em creches, contratar pediatras e erguer salas de aula de ensino fundamental. Se a escolha recai sobre aposentados e idosos, o gargalo se desloca para a geriatria, a fisioterapia e a adaptação do mobiliário urbano. Sem planejamento afinado, o orçamento bilionário corre o risco de ser consumido em investimentos errados.

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Há também o impacto financeiro direto na partilha dos recursos federais. As estimativas do IBGE funcionam como bússola para o Tribunal de Contas da União distribuir as quotas do Fundo de Participação dos Municípios e balizar repasses sociais. Cientes de que perder moradores significa encolher receitas futuras, prefeitos correm contra o relógio. A Confederação Nacional de Municípios já abriu canal de orientação técnica para que as prefeituras que discordam dos números apresentem contestações formais, munidas de dados consolidados, na tentativa de provar que a vida real em suas ruas continua maior do que o retrato do censo.

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