EDITORIAL

Porque ditadores odeiam jornalistas

* Por Emanoel Reis

A história política da humanidade oferece um testemunho repetitivo e sombrio sobre a fragilidade das instituições democráticas diante do autoritarismo, revelando que a imprensa é invariavelmente a primeira vítima a sucumbir quando um regime ditatorial se instala.
Essa vulnerabilidade não é acidental, mas sim o resultado de uma estratégia deliberada de sobrevivência do poder absoluto, uma vez que a circulação livre de informações representa a ameaça mais imediata à manutenção de uma narrativa oficial única.
O controle social exercido por um ditador exige, antes de tudo, o silêncio das vozes dissonantes e a cegueira coletiva sobre os abusos cometidos pelo Estado. Por sua própria natureza, o jornalismo atua como um contrapoder, lançando luz sobre os mecanismos de governança e expondo as contradições que os tiranos preferem manter nas sombras, o que torna o profissional da notícia um inimigo natural de qualquer projeto de poder que não aceite o escrutínio público.
A perseguição implacável sofrida por jornalistas e veículos de comunicação em regimes fechados decorre do fato de que a imprensa desempenha a função vital de informar e, consequentemente, de auxiliar na formação da opinião pública. Quando o cidadão tem acesso a dados reais, análises críticas e pluralidade de visões, ele desenvolve a capacidade de questionar a legitimidade das ações governamentais e de exigir responsabilidade.
Para um ditador, essa autonomia intelectual é intolerável, pois o pensamento crítico é o combustível da resistência. Assim, a liberdade de expressão é vista não como um direito fundamental, mas como uma perigosa ferramenta de desestabilização.
Ao atacar a imprensa, o regime busca substituir o debate pela propaganda, transformando o fluxo de informações em um monólogo estatal onde a verdade é moldada conforme as conveniências do momento, esvaziando o sentido da cidadania e reduzindo o povo a uma massa passiva de receptores de diretrizes oficiais.
O ódio que os ditadores nutrem pela liberdade de imprensa manifesta-se através de um arsenal de táticas que variam da censura prévia e asfixia econômica até a violência física e o encarceramento.
Ao eliminar a capacidade da sociedade de se enxergar e de compreender a realidade sem filtros, o autoritarismo instaura um estado de isolamento e medo, onde a mentira oficial passa a ser a única referência disponível.
A queda da imprensa livre sinaliza, portanto, o fim de todas as outras garantias individuais, pois sem o direito de saber e de dizer, o indivíduo perde a proteção contra a arbitrariedade.
A preservação da autonomia jornalística não interessa apenas aos profissionais do setor, mas é o pilar central que sustenta o edifício democrático; quando esse pilar é derrubado, o que resta é o silêncio imposto pela força, onde a verdade é sacrificada no altar da manutenção do poder absoluto.


TERRAS CAÍDAS — Autor: Emanoel Reis.
É um romance inspirado em assombroso fenômeno amazônico. Acesse o QR Code para saber mais sobre este livro.

Terrorismo imperialista

*Frei Betto

O sequestro terrorista do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, na madrugada de 2 para 3 de janeiro desse ano, por parte do governo de Donald Trump, é uma gravíssima afronta à soberania e independência dos países da América Latina e do Caribe. Diaz-Canel, presidente de Cuba; Gustavo Petro, da Colômbia; e Gabriel Boric, do Chile, foram os primeiros a reagir indignados. É a primeira vez que os EUA atacam diretamente um país da América do Sul.
Lula reagiu um pouco mais tarde, enfatizando que “os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional.”
Lula afirmou ainda que a ação militar da madrugada deste início de janeiro é uma flagrante violação do direito internacional e abre espaço para um mundo de “violência, caos e instabilidade”. “Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo. A condenação ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes em outros países e regiões”, acrescentou.
Lula salientou que “a ação lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe, e ameaça a preservação da região como zona de paz. A comunidade internacional, por meio da Organização das Nações Unidas, precisa responder de forma vigorosa a esse episódio. O Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação.”
Sempre foram no mínimo tensas as relações dos EUA com líderes latino-americanos e caribenhos que não concordam com sua política imperialista fundada na Doutrina Monroe.
Ao longo do século XX, durante o contexto da Guerra Fria e da política de contenção ao comunismo, os EUA envolveram-se direta ou indiretamente em ações que levaram à deposição, morte ou desaparecimento de líderes latino-americanos. A maior parte dessas intervenções ocorreu por meio de apoio a golpes de Estado, operações clandestinas ou alianças com grupos locais.
Entre os casos mais notórios se incluem o do Jacobo Árbenz, presidente democrata da Guatemala. Deposto em 1954 por um golpe apoiado pela Casa Branca, morreu no exílio em circunstâncias consideradas acidentais -afogamento -, em 1971. Há teorias não comprovadas sobre assassinato. Na ocasião do golpe, Che Guevara se encontrava no país e conseguiu se refugiar no México.
No mesmo ano de 1954, os EUA promoveram o golpe que implantou uma ditadura militar no Paraguai. Dez anos depois, replicou a erradicação da democracia no Brasil (1964), Argentina (1966 e 1976), Bolívia (1966 e 1971), Uruguai e Chile (1973).
O presidente do Chile, Salvador Allende, eleito democraticamente, morreu durante o golpe militar de 1973, apoiado pelos EUA. A versão oficial é de suicídio, mas as circunstâncias ainda são nebulosas e polêmicas.
Omar Torrijos, presidente progressista do Panamá, faleceu em acidente aéreo, em 1981. Suspeitas de envolvimento dos EUA persistem, embora nunca tenham sido comprovadas.
O progressista Maurice Bishop, escolhido primeiro-ministro de Granada, em 1979, foi derrubado, preso e fuzilado no cárcere, em 1983, durante o golpe de Estado que precedeu a invasão dos EUA ao país. Conheci-o em Manágua, em julho de 1980, nas festividades do primeiro aniversário da Revolução Sandinista.
Manuel Noriega, militar que liderou o Panamá de 1983 a 1989, era agente da CIA. No entanto, por se envolver com carteis de drogas, foi derrubado por invasão estadunidense, levado para os EUA e sentenciado a 40 anos de prisão, dos quais cumpriu 17. Extraditado para a França, esta o enviou ao Panamá onde foi novamente encarcerado por crimes cometidos durante sua ditadura. Morreu de câncer no cérebro em 2017, aos 83 anos.
Por eleição democrática, Jean-Bertrand Aristide, sacerdote ligado à Teologia da Libertação, presidiu o Haiti em três períodos; o último de 2001 a 2004, quando devido a um conflito entre ex-militares e seus apoiadores os EUA intervieram e o retiraram do país com apoio de tropas brasileiras.
Juan Orlando Hernández, que presidiu Honduras de 2014 a 2022, foi detido em seu país em fevereiro daquele ano a mando dos EUA. Em junho de 2024, foi condenado pela Justiça estadunidense a 45 anos de prisão, acusado de envolvimento com tráfico de drogas, do qual teria recebido milhões de dólares de cartéis para permitir a passagem de cocaína por Honduras.
Em dezembro do ano passado, Trump concedeu-lhe perdão presidencial, alegando que Hernández foi vítima de “perseguição política” e “armação” do governo Biden, embora tenha sido condenado nos EUA por promotores que o acusaram de ter transformado Honduras em um “narcoestado”.
O perdão foi visto como uma manobra política de Trump para apoiar o partido conservador de Hernández nas eleições hondurenhas de 2025 e reforçar a base eleitoral do ex-presidente. A atitude gerou críticas por contradizer a luta contra o narcotráfico e a política externa dos EUA, especialmente contra a Venezuela, segundo analistas e republicanos.
Além desses, há relatos de tentativas de assassinato de líderes políticos na região, desestabilização de governos ou apoio, por parte dos EUA, a regimes que violavam os direitos humanos.
Vale ressaltar que o líder cubano Fidel Castro, considerado durante décadas inimigo número 1 dos EUA e que completaria 100 anos agora em 2026, faleceu tranquilamente na cama, cercado pela família, em novembro de 2016. E Raul Castro, seu irmão, continua ativo aos 94 anos.
É crucial consultar fontes históricas sólidas e considerar o contexto político de cada época ao analisar esses eventos. Muitos documentos foram liberados ao longo dos últimos anos, revelando o envolvimento dos EUA em operações clandestinas, mas também mostrando que os resultados nem sempre foram os planejados.
Para um estudo aprofundado, recomendo obras de historiadores como Greg Grandin, Stephen Rabe e Piero Gleijeses, além de documentos agora liberados do arquivo de segurança nacional dos EUA.

*  Frei Betto é escritor, autor de “O marxismo ainda é útil?” (Cortez), entre outros livros.


História bate na porta

* Por Lúcio Flávio Pinto

A Amazônia é um dos centros da transição energética do planeta. No entanto, é personagem coadjuvante nessa transição, quando não inconsciente. Em 1973, marco de um novo tempo, com a elevação súbita e drástica do preço do petróleo, a região estava tão – ou mais – despreparada para tirar proveito dessa transformação como agora. Continua defasada no tempo e no tema. Um marco simbólico dessa condição foi a entrada de capital estrangeiro no melhor negócio que se podia ter.
Esse capital não chegou a 200 milhões de dólares, 10% do valor do empreendimento. Mas foi a maior aplicação de capital de risco estrangeiro no Brasil até então, na metade da década de 1980. Graças a essa opção, o Japão instalou no Pará uma fábrica de alumínio (o produto industrial que mais consome energia) que garantia, a 20 mil quilômetros de distância, 15% da sua demanda pelo metal, a um custo inferior ao que teria se essa fábrica ficasse no Japão.
Ao longo de mais de 20 anos, o Japão se contentou em produzir alumínio primário, sem avançar um passo no beneficiamento do produto, graças à sua participação de 49,9 de no capital da Albras. A outra metade a Vale passou em frente para a dinamarquesa Hydro. Graças a essa situação, a multinacional norueguesa passou a ser dona de todas as etapas de produção do alumínio, da mineração de bauxita ao metal, passando pela alumina.
Totalmente integrada, com a adição de várias medidas de economia, troca da base energética, como a substituição do carvão por gás natural, que a empresa transporta nos seus navios para a Noruega e outras partes do mundo. E se prepara para uma nova mudança, dispensando a energia de fonte hídrica, o que parecia impossível quando os mastodontes usinas hidrelétricas foram construídas na Amazônia.
Depois de termos visto, inertes, o imenso trem de Carajás passar e milhões de toneladas de grãos, que substituíram as matas de forma violenta, singrarem pela maior bacia de portentosos rios do planeta, vamos continuar a falar muito e fazer pouco nesse novo capítulo da história da energia mundial, no qual somos meros coadjuvantes. Amazônicos, mas não amazônidas.


* Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Acesse o novo site do jornalista aqui http://www.lucioflaviopinto.com.

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Futuro da Venezuela é incerto

* Por Fernando Gabeira

A História me deu uma rasteira no sábado. Três dias gripado, sonhava com um mergulho matinal. Maduro foi capturado pelos americanos. O dever profissional me chamava. Não foi surpresa total para mim. Contava com uma ação espetacular. Não imaginava que fosse tão fácil.
O modelo que tinha na cabeça foi a captura de Bin Laden no Paquistão. Ele vivia numa casa, mas não sabia que havia sido descoberto. Maduro esperava algo a qualquer momento. Não dormia no mesmo lugar. Estava cercado de guardas cubanos e controlava a estrutura de segurança do Estado. Tudo foi para o espaço.
A longa preparação, a retórica: “Covardes, venham me pegar”. Eu deveria calcular que os americanos investiriam pesado. Fixaram uma recompensa de US$ 50 milhões por sua cabeça. Por US$ 10 milhões, talvez, pudessem fazer a operação.
Vejo nos primeiros esquemas uma estrutura semelhante à prisão de Bin Laden. Helicópteros do Regimento Night Stalkers, de onde os homens da Força Delta descem por uma corda no Forte Tiuna e conseguem prender Maduro antes que ele feche uma porta de aço de 6 polegadas. Houve apenas um tiroteio, diferente do silêncio noturno na casa de Bin Laden. Trinta e dois cubanos morreram no embate. São detalhes que um dia ficarão mais claros num documentário.
O mais importante no momento é a mensagem de Ano-Novo: vale a lei do mais forte. Poucos dias depois de lançar um documento revivendo a Doutrina Monroe, Trump não apenas prende Maduro, como diz que agora dirigirá a Venezuela. Abre-se um momento de reflexão para toda a América Latina. Na verdade, para toda parte do mundo vizinha a uma grande potência. Taiwan e China, Ucrânia e Rússia, esses dramas serão amplificados pela atitude americana. E a Groenlândia já está na mira de Trump.
Já vi derrubarem vários ditadores. Ninguém em sã consciência os defenderá. O problema é o pós-derrubada. Os casos de Líbia e Iraque são típicos. Trump anunciou que as empresas americanas modernizarão a infraestrutura do petróleo na Venezuela. Na primeira entrevista coletiva depois da prisão de Maduro, mencionou apenas o petróleo, como se tudo se limitasse à troca de comando nessa importante indústria. Não mencionou esforços para estabelecer a democracia, não defendeu a libertação dos presos políticos.
A Venezuela é um país, não se define apenas pelo petróleo. Como ficará tudo? Trump deu a impressão de que, uma vez resolvida a questão da passagem do petróleo para mãos americanas, não se importa muito com o destino do país.
O Brasil expressou uma posição que tenho defendido: defender a não intervenção armada, sem nenhuma simpatia por Maduro. O modelo dessa posição se firmou no caso do Iraque, quando era possível ao mesmo tempo condenar Saddam Hussein e duvidar do êxito da guerra.
Nossos laços com a Venezuela nos deixam apreensivos pela ausência de um horizonte pós-Maduro. Trump pareceu descartar María Corina Machado, apesar de sua popularidade e liderança na oposição. Não foi correto dizer que ela não tem respeito para ser a interlocutora na transição. Parece que Trump não a perdoou por ter ganhado o Prêmio Nobel, seu grande sonho.
Como ficaremos diante de um vizinho com que temos tantas questões bilaterais? Quase 400 mil refugiados, o problema dos ianomâmis, importação de energia, a gestão do Monte Roraima… Não há dúvida de que o chavismo perderá seu lugar histórico na Venezuela. Mas o pós-Maduro ainda é uma grande interrogação.

* Escritor, Jornalista e ex-deputado federal


A Proposta da USP para Margem Equatorial ressoa o Brasil Colônia

*Por *Cláudia Chelala
*Antônio Batistqa

A recente divulgação do documento “Cenários Estratégicos para a Ampliação do Conhecimento Científico e Proteção da Biodiversidade da Foz do Rio Amazonas” (PDF – 9 MB) – assinado pelo Instituto de Estudos Avançados da USP (Universidade de São Paulo) em parceria com o Museu Goeldi – surpreendeu a comunidade científica e social do Amapá.
Não pelo tema, pois a proteção da Margem Equatorial é uma pauta antiga e vital para nós, mas pela ousadia de uma universidade, a mais de 3.000 km de distância, propor as linhas mestras de como devemos conduzir nossa ciência e organizar nossa relação com nosso próprio território.

A reiteração do gesto colonialista
A proposta, que sugere a criação de um Infa (Instituto Nacional da Foz do Rio Amazonas) e um mosaico de áreas marinhas protegidas, soa como mais um capítulo de uma longa história em que vozes externas ditam regras a regiões periféricas – algo que já é visto no Brasil há cinco séculos!
Há algo profundamente incômodo quando, em pleno século 21, ainda se reproduz o gesto colonialista de ignorar os sujeitos locais, como se fôssemos apenas figurantes a serem “consultados” para legitimar projetos já desenhados em outros gabinetes a milhares de quilômetros.

Conhecimento local contra a tutela externa
Não faltam no Amapá universidades, centros de pesquisa, líderes indígenas, ribeirinhos, pescadores e cientistas locais que conhecem a Margem Equatorial como ninguém. Nossa gente não só habita a região, mas também estuda, vive e sente este território no corpo e na história.
Como, então, aceitar que instituições distantes digam quais devem ser nossas prioridades, quais caminhos seguir, o que deve nos alimentar, quais modelos de conservação aplicar ou como equilibrar uso sustentável e proteção?
É impossível não lembrar dos colonizadores que, ao chegarem, ignoraram as formas de manejo da floresta, desconsideraram cosmologias indígenas, silenciaram comunidades inteiras e impuseram formas externas de ver e explorar o território.
O paralelo é inevitável. Lamentavelmente, trocar a cruz e a espada pelos artigos publicados em fóruns internacionais ou relatórios com assinatura de nomes respeitáveis não elimina a mesma lógica de desconsideração e desapreço daquele passado inolvidável.

Protagonismo amapaense é inegociável
Não se trata de negar a importância de colaborações ou do peso que instituições nacionais possam ter. Mas é preciso inverter o lugar de fala: as comunidades e universidades locais devem ser protagonistas – e não coadjuvantes – na construção de políticas de ciência e conservação.
Propostas como a da USP só terão legitimidade se forem desenhadas a partir daqui, com decisão e comando real de quem mora, pesquisa, vive, convive e resiste no Amapá.
O que está em jogo não é só a biodiversidade, nem a soberania científica: é o direito das pessoas de definir o futuro de seu próprio território, sem tutelas disfarçadas de boas intenções – afinal, já conhecemos o velho ditado.

O canto insurgente da Foz
Diante da imensidão da Margem Equatorial, não cabe mais aceitar que certas propostas venham de fora como decreto ou mandamento. O Amapá não é território vazio a ser preenchido por relatórios, nem pessoas silenciosas à espera de tutela: é voz, é memória, é rio que fala mais alto que qualquer gabinete distante.
Como as marés que sobem e descem, nossa gente aprendeu a conviver com a abundância e com a adversidade, guardando saberes tão antigos quanto as estrelas refletidas nas águas dos rios Araguari e Oiapoque, ou no brilho dos rios Jari e Amazonas.
É aqui, desta voz, deste chão e deste corpo coletivo, que deve nascer a ciência que protege e sustenta – não como eco do tambor terrível da marcha dos colonizadores, mas como canto novo, insurgente, que afirma, intenso: aqui decidimos nós, porque esta foz é também nossa voz do futuro!

* Cláudia Chelala, 58 anos, é economista, mestre em desenvolvimento sustentável pela UnB (Universidade de Brasília), doutora em desenvolvimento socioambiental pela UFPA (Universidade Federal do Pará) e pós doutora em desenvolvimento sustentável pela UnB. Professora da Unifap (Universidade Federal do Amapá), é líder do grupo de pesquisa de estudos avançados em petróleo e sustentabilidade na Bacia Foz do Amazonas. Na gestão universitária destacam-se a titularidade do departamento de pesquisa, a pró-reitoria de Administração e Planejamento, a coordenação do programa de mestrado em direito ambiental e políticas públicas, a coordenação do curso de ciências ambientais e a direção do departamento de Meio Ambiente e Desenvolvimento.

* Antonio Batista, 52 anos, é diretor da Agência de Desenvolvimento Econômico do Amapá. Doutor e mestre em engenharia de produção pelo Coppe (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia) da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), tem MBA em gestão de projetos pela FGV (Fundação Getulio Vargas) de São Paulo. Com experiência de mais de 20 anos em gestão de projetos no segmento de petróleo, gás e energias alternativas, também atuou como técnico e professor de engenharia de produção na UEPA (Universidade Federal do Pará), com ênfase em estratégia de produção, inovação, gestão de projetos e empreendedorismo.

Assombrações dentro do box

* Por Marli Gonçalves

Moro em São Paulo, bem sabem, e por aqui a loucura da especulação imobiliária violenta e agressiva agora ocupa e demole tudo, até prédios para a construção de outros, cada um mais horrendo que outro, espetados lado a lado. Sempre brincava de temer que construíssem mais um justamente dentro do box. A coisa só piora e aumentam as assombrações: agora, assim como outros países desse mundo, temo e chego a imaginar a cara do Trump me olhando pelo vidro embaçado, onde antes eu gostava só de desenhar coraçõezinhos e vê-los se dissiparem no vapor.
Brincadeiras à parte, mas tentando manter o humor, que começo de ano foi esse? Aliás, que tempos são estes que nos trazem diariamente preocupações muito além das cotidianas? Muitas de sobrevivência, se teremos, todos, ar para respirar, como enfrentar o calor além do limite suportável, água para beber, energia elétrica, a estranha violência espalhada, o descontrole social e político, as instituições em choque e em cheque.
Agora, soma-se a intranquilidade causada por um maluco (normal, não é) poderoso brincando de mandar no mundo à sua vontade, pirando a diplomacia moderna, ultrapassando perigosas fronteiras, obrigando ao aumento de gastos com poderios militares, alegrando os senhores das armas, desarmando a promessa de que nunca mais veríamos tanto terror como os ocorridos no século passado. Fosse só ele. Mas não, a lista é grande e só aumenta numa movimentação geopolítica expressiva.
Os pesadelos agora nos pegam acordados e para quem, por obrigação profissional, precisa se manter informado, o estresse não passa mais nem debaixo d`água. Entendo até o sucesso do mundo das fofocas se alastrando em publicações sobre como celebridades e subcelebridades vivem, se vestem, esbanjam, por onde andam, com quem casam e descasam, se mostram. Essa outra realidade, se o biquini que usam é branco, de bolinhas, se “mostraram mais do que deviam”, que nunca sei bem o que é que deviam mostrar. Uma realidade paralela.
Ao mesmo tempo, aqui e ali, silêncio, o surpreendente suicídio de alguém que todos consideravam bem, e a cada dia se torna mais complexo entender o que se passa principalmente entre os mais jovens que creio não estarem sendo preparados além das telas do celular e das redes sociais nem para o sucesso.
Reparou que estamos em pleno verão e ainda nem surgiu uma modinha, uma graça qualquer? Vivemos o Verão da Lata, do assobio, do topless. Agora é só o do calor infernal, das chuvas, ciclones, rebeldia do mar causando milhares de afogamentos em dias, e já já vai é aparecer algum surto para marcar época.
O exemplo do box serve apenas para marcar uma fronteira mínima, íntima, pessoal; você pode entender esse espaço mínimo, mas me diga se tem outro. Já que todos os limites estão sendo violados, ultrapassados, modificados, precisamos imaginar onde é que ainda daria para nos proteger. Nosso bunker.

* Jornalista

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SUPERIORIDADE?

POR IZALCI LUCAS

STF: herói da democracia ou vilão de seus interesses?

Se o STF deseja ser visto como guardião da democracia, precisa primeiro aprender as bases desse regime…

EMERGÊNCIA

POR FÁTIMA GUEDES

A situação atual na Amazônia exige ação imediata

Padecimentos maiores e piores afetam violentamente outras vidas – florestas, águas, ar, bichos, microrganismos…

COMPLACENTE

POR GUI MACALOSSI

Lula dá a Maduro o respiro que o ditador tanto almejava

É evidente que nunca houve qualquer disposição de Maduro em criar margem para deixar o poder pelo voto…


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