Macapá (AP) — Quarta-feira, 15 de julho de 2026
Tendência NOLT mobiliza mais de 36 milhões de idosos que estão revolucionando o envelhecimento
Apoiada em projeções que apontam país mais grisalho, nova geração acima dos 60 anos rompe com roteiro social tradicional de recolhimento e busca visibilidade, dividindo opiniões entre terapeutas e gerontólogos

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
06/06/2026 | 17h58
A população idosa do Brasil está liderando uma revolução silenciosa que desafia preconceitos e redefine o significado de envelhecer no país. Motivados pelo desejo de autonomia e pela rejeição a estereótipos ultrapassados, mais de 36 milhões de brasileiros com mais de 60 anos estão adotando um estilo de vida ativo e visível, impulsionando a popularização do termo “NOLT” — abreviação para “New Older Living Trend” (Nova Tendência de Viver a Maturidade). O fenômeno, que ganha força nas redes sociais e em debates acadêmicos neste primeiro semestre de 2026, consolida-se em um cenário de rápida transição demográfica, transformando a maturidade na faixa etária que mais cresce na engrenagem social e econômica da nação.

A magnitude dessa transformação encontra eco direto nos dados oficiais mais recentes. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do IBGE, o contingente de brasileiros na terceira idade já superou a expressiva marca dos 36 milhões. O avanço reflete a tendência consolidada no Censo Demográfico de 2022, que apontou que 15,6% da população do país tinha 60 anos ou mais — um salto impressionante de 56% em comparação a 2010, quando o grupo representava 10,8% do total. O futuro desenha um Brasil grisalho: as projeções estatísticas indicam que, em 2040, haverá mais idosos do que crianças e adolescentes de até 14 anos, e, em 2060, um em cada quatro brasileiros pertencerá a este grupo.

Diante de um país que envelhece a passos largos, o “roteiro social” tradicional, que limitava a rotina dos mais velhos à aposentadoria reclusa, aos trabalhos manuais e ao recolhimento doméstico, passou a ser ativamente contestado. O conceito NOLT surge justamente como uma resposta coletiva ao etarismo, o preconceito baseado na idade. Os adeptos da terminologia defendem que chegar aos 60 anos não significa o fim dos desejos, da produtividade ou da busca por novas experiências, mas sim o direito de manter a soberania sobre as próprias escolhas cotidianas.


Em análise sobre esse novo panorama comportamental, a terapeuta Regina Racco celebra o dinamismo do movimento, destacando que ele traduz uma metamorfose profunda no cotidiano dessa parcela da população. Segundo a especialista, trata-se de um movimento de vida real que nasce quando a pessoa percebe que ainda tem curiosidade, desejo, humor, quer viver experiências e definitivamente não aceita ser tratada como alguém que já acabou. Regina Racco pontua que a chamada “geração NOLT” estabeleceu uma nova relação com o tempo, caracterizada pelo cuidado com o corpo sem neuroses, pelo aprendizado constante e pela recusa em aceitar o jargão “isso é da idade” como uma resposta automática para suas dores e inquietações. Para a terapeuta, o propósito central é nítido: essa geração não quer parecer jovem, quer continuar viva.

No entanto, a introdução de novos rótulos estrangeiros para definir o envelhecimento divide opiniões e acende um sinal de alerta entre especialistas do setor de saúde e assistência social. O uso de termos modernos e a aparente necessidade de reempacotar a maturidade encontram forte resistência na comunidade de gerontologia, que enxerga na prática um risco de mascarar as vulnerabilidades históricas da velhice no Brasil.

Para Diego Félix Miguel, presidente do departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), regional São Paulo, a tentativa de criar novas nomenclaturas para evitar palavras tradicionais como “velho” ou “pessoa idosa” acaba operando de forma inversa, reforçando o próprio idadismo que se pretende combater. O especialista argumenta que a adoção de expressões como NOLT pode transmitir a mensagem equivocada de que a velhice natural é algo vergonhoso ou que necessita de maquiagem para ser aceita pela sociedade. Além disso, há a preocupação de que o termo silencie as diferentes realidades do envelhecer, priorizando um recorte ligado ao consumo e à estética em detrimento de debates urgentes sobre políticas públicas.

Diego Félix Miguel defende que o caminho ideal não é a fuga das palavras, mas a ressignificação delas, inspirando-se em outros movimentos sociais que conseguiram valorizar suas identidades na linguagem oficial. O presidente da SBGG aponta que é fundamental nomear uma realidade que jamais deverá aceitar uma visibilidade embaçada, de modo a não esconder as demandas reais que ainda tornam muitas pessoas idosas vulnerabilizadas em nosso país.




