INTERNACIONAL

Macapá (AP) — Sábado, 29 de agosto de 2026


Destruição de livros raros por empresas de tecnologia gera debate sobre preservação da memória humana

Investigação iniciada em livraria catalã revela o Projeto Panamá, operação em que gigantes da tecnologia compram acervos raros pelo mundo para destruí-los em scanners industriais e alimentar algoritmos de IA

Por trás da leitura digital, esconde-se a destruição. O Projeto Panamá revela Big Techs comprando e fatiando acervos físicos inteiros para alimentar a voracidade insaciável de seus modelos de IA — Foto: Reprodução/WEB

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
11/08/2026 | 13h31

Um telefone tocando em uma charmosa livraria de exemplares usados em Badalona, na Catalunha, tornou-se o estopim para a descoberta de uma silenciosa engrenagem global. No início de maio, o livreiro, poeta e professor de Literatura Comparada Marçal Font notou um comportamento atípico em suas vendas na Livraria Fénix. Pedidos em lote de obras raras e regionais — como um volume sobre a história dos embutidos catalães —, vindos de um mesmo comprador no Canadá e dispostos a pagar até três vezes o valor do frete sem pestanejar, acenderam o alerta de fraude.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP
CULTURACULTURA20 de outubro de 2016Emanoel Reis, Macapá – AP

Ao lado do pesquisador de inteligência artificial Xavier Vinaixa, Font começou a cruzar dados e descobriu que comerciantes na Alemanha, na Holanda e na Nova Zelândia relatavam o mesmo fenômeno. A movimentação atípica não era um golpe financeiro, mas sim a execução do chamado “Projeto Panamá”: uma operação internacional em que gigantes da tecnologia compram em massa livros impressos ao redor do globo para cortá-los e destruí-los em scanners de alta velocidade, alimentando os algoritmos de modelos de linguagem (LLMs).

A origem da voracidade das Big Techs por páginas impressas remonta a embates judiciais sobre direitos autorais. Em setembro de 2025, a empresa de tecnologia Anthropic concordou em desembolsar US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 7,2 bilhões) para encerrar uma ação coletiva movida por autores que acusavam a gigante de usar suas obras sem permissão. Na esteira do processo, uma decisão judicial estabeleceu que, ao adquirir legalmente o exemplar físico de um livro, a empresa ganharia o direito de utilizá-lo para treinamento de IA. Quatro meses depois, o vazamento de um documento interno obtido pelo jornal Washington Post revelou o verdadeiro plano da empresa: escanear de forma destrutiva todas as obras escritas pela humanidade, mantendo o processo sob sigilo.

A escolha pelo método destrutivo responde a uma urgência de escala e custo. Como explica o jornalista de tecnologia Rodrigo Álvarez, o escaneamento não destrutivo exige equipamentos em V e virada manual de páginas. Já no processo destrutivo, a lombada do livro é brutalmente decepada. Com as folhas soltas, o material é inserido em scanners industriais de altíssima velocidade, e o que resta do papel segue direto para a reciclagem.

Essa corrida desenfreada ocorre porque a internet “acabou” para as máquinas. Inicialmente, sistemas como o ChatGPT foram nutridos com artigos da Wikipédia, fóruns e reportagens. Quando esse repositório digital se esgotou, a indústria voltou-se para os livros comerciais e, finalmente, para os acervos de antiquários. “Achávamos que a IA atingiria seu limite quando não houvesse mais capacidade de processamento. Pois não, o limite são os dados”, afirma Vinaixa.

A prática divide opiniões do ponto de vista histórico e preservacional. Para o jornalista Rodrigo Álvarez, a digitalização privada não é sinônimo de conservação cultural, pois os arquivos gerados permanecem trancados em bancos de dados corporativos. Além disso, destroem-se elementos físicos insubstituíveis, como encadernações artesanais, anotações de margem, ilustrações e selos de propriedade (ex libris). Miguel Ángel Ortega, presidente da Associação Profissional do Livro e do Colecionismo Antigos da Espanha, defende que edições raras ou únicas jamais deveriam ter a destruição como destino final.

Por outro lado, Marçal Font enxerga a transição de suporte de forma pragmática, lembrando que a própria rotina das livrarias de usados envolve descarte inevitável. Sua principal preocupação recai sobre a amostragem do que está sendo preservado. O processo corporativo baseia-se na busca por livros com ISBN (o registro comercial padrão), o que deixa de fora toda a produção underground, fanzines, manifestos de contracultura e publicações dissidentes que moldaram a história sem registro oficial.

Outro alerta urgente é o risco do esgotamento da produção humana. O autor argentino Maximiliano Firtman e o jornalista Rodrigo Álvarez advertem que o próximo passo da indústria é o uso de “dados sintéticos” — textos gerados pela própria inteligência artificial. Sem o aporte de novos escritos humanos, o sistema corre o risco de entrar em um ciclo de degradação, agindo como uma serpente que devora a própria cauda e produzindo respostas cada vez mais empobrecidas.

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Diante do avanço do Projeto Panamá, especialistas propõem eliminar os intermediários corporativos: que a própria sociedade e suas instituições culturalmente responsáveis digitalizem seu patrimônio, preservem o objeto físico e licenciem apenas os dados. Enquanto isso não ocorre, as encomendas continuam chegando às pequenas livrarias, confirmando que a caça ao conhecimento impresso está longe de terminar.

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