INTERNACIONAL

Macapá (AP) — Sábado, 30 de maio de 2026


A pedido de Flávio Bolsonaro, Estados Unidos classificam facções brasileiras como organizações terroristas

Decisão de Washington de enquadrar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas atinge a política externa brasileira e ignora apelos feitos por Lula em visita a Trump

O senador Flávio Bolsonaro e o presidente Donald Trump na Casa Branca, após Washington acolher o pedido do parlamentar brasileiro para classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas globais — Foto: Reprodução/Redes Sociais

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
29/05/2026 | 11h47

O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou a classificação oficial das facções brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como Organizações Terroristas Globais Especialmente Designadas (SDGTs). A medida, tomada por meio de uma ordem executiva baseada na Lei de Imigração e Nacionalidade norte-americana, visa sufocar as redes financeiras dos grupos e entra em vigor definitivo como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) no dia 5 de junho de 2026. A decisão representa uma resposta direta de Washington à expansão transnacional do narcotráfico para dentro do território americano e impõe uma severa derrota política ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em recente visita oficial ao presidente Donald Trump, Lula havia pedido expressamente que a designação não fosse adotada, mas o governo dos EUA acabou acolhendo uma articulação em sentido oposto liderada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP
POLÍTICA APPOLÍTICA AP2 de agosto de 2021Emanoel Reis, Macapá – AP

A decisão expõe uma fratura profunda na diplomacia brasileira. O Palácio do Planalto e o Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, foram apanhados de surpresa e ainda não emitiram uma manifestação oficial sobre o enquadramento, que equipara juridicamente os grupos criminosos a organizações extremistas internacionais como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Cientistas políticos e diplomatas avaliam que o movimento representa uma ingerência disfarçada e uma clara demonstração de descontentamento de Washington com a condução da segurança pública e do controle de fronteiras na América do Sul.

De acordo com o comunicado oficial emitido pelo Departamento de Estado, o CV e o PCC foram escolhidos para a sanção máxima por serem considerados “duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil”. O documento detalha que ambas as facções controlam dezenas de milhares de membros e orquestraram ataques brutais contra policiais, autoridades públicas e civis brasileiros. A Casa Branca justificou a intervenção alegando que a influência e as redes ilícitas das duas organizações se estendem muito além das fronteiras do Brasil, espalhando-se por toda a região e penetrando de forma alarmante nas cidades americanas.

Logo após a divulgação do comunicado oficial, o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, utilizou suas redes sociais para endossar a nova postura da Casa Branca e sublinhar o caráter financeiro do sufocamento. “O governo Trump continuará utilizando todos os recursos disponíveis para proteger nossos interesses de segurança nacional e negar financiamento e recursos a narcoterroristas”, afirmou Rubio. O chefe da diplomacia americana deixou claro que o objetivo central é interromper o fluxo de capitais que alimenta a engrenagem da violência na América Latina e manter os entorpecentes distantes do mercado consumidor dos Estados Unidos.

Do ponto de vista prático e legal, a inclusão na lista de terroristas globais altera drasticamente o tabuleiro jurídico internacional. Com base na seção 219 da legislação americana, o governo dos EUA ganha o poder de congelar automaticamente quaisquer ativos, contas bancárias ou propriedades que as facções ou seus laranjas possuam no exterior. Além disso, qualquer instituição financeira global que movimentar dinheiro ligado a membros do PCC ou do CV passará a sofrer sanções severas do Tesouro Americano, o que na prática isola os criminosos do sistema bancário formal.

A publicação oficial das designações no Diário Oficial Federal dos Estados Unidos (Federal Register) está agendada para a próxima sexta-feira, consolidando a nova diretriz de pressão máxima da administração Trump. Aliados do senador Flávio Bolsonaro celebraram o resultado, classificando a medida como uma vitória necessária contra a criminalidade que o Estado brasileiro não consegue conter. Por outro lado, interlocutores do governo federal demonstram forte preocupação com a perda de soberania nacional, já que o enquadramento permite investigações extraterritoriais americanas em solo brasileiro.

O desfecho do episódio explicita a perda de prestígio e de capacidade de interlocução do atual governo brasileiro junto à Casa Branca em temas de segurança hemisférica. Enquanto o Itamaraty avalia o tamanho do dano diplomático e calibra uma resposta que evite tensionar ainda mais a relação com os americanos, analistas apontam que a medida redesenhará o combate ao crime organizado na América Latina, forçando o Brasil a adotar uma postura muito mais agressiva contra as facções se quiser recuperar a confiança internacional.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.