Jaime Nunes quer distância de Waldez Góes

Embora mantenham a aparente harmonia, o clima entre Jaime Domingues Nunes e Antônio Waldez Góes da Silva é de ventanias e trovoadas. Contrariado por sentir-se usado pelo governador para aparecer como responsável por medidas impopulares, o empresário afastou-se do Palácio do Setentrião e nem o número do celular que usou com frequência na campanha eleitoral existe mais. A percepção de sentir-se “bode expiatório” dentro do governo que ajudou a construir provocou amargas decepções e minou sua confiança no colega de chapa.
Por Emanoel Reis

Nos últimos meses, o empresário e vice-governador Jaime Nunes, proprietário do Grupo Domestilar, tem reduzido sua aparição em público ao lado do governador Waldez Góes (PDT). Nunes fez mais. Decidiu manter-se à distância do grupo político de seu colega de chapa, com quem disputou as eleições de 2018 na coligação “Com a força do povo por mais conquistas”, e rareou as visitas ao Palácio do Setentrião, sede da administração pública estadual, dedicando-se, como sempre fez, à condução de seus negócios. Aos interlocutores, tem respondido com evasivas quando questionado sobre o afastamento. No entanto, mesmo esforçando-se, não consegue esconder a decepção com os equívocos político-administrativos cometidos em profusão assustadora nos seis meses da gestão pedetista.
O desencanto de Jaime Nunes com o poder político não passou despercebido. E começou a ser notado logo após a posse, em 1º de janeiro, quando foi incumbido pelo titular para que promovesse o “enxugamento da máquina”, o que significava tirar o sustento de centenas de homens e mulheres que ocupavam cargos comissionados nas estruturas do governo estadual. Uma medida bastante impopular para quem, como ele, pretendia pavimentar uma trajetória com foco na principal cadeira do Setentrião. É público e notório que Waldez Góes, no exercício de seu segundo mandato, tem planos para 2022, almejando a única vaga para o Senado a ser disputada naquelas eleições, e parecer responsável pela demissão de trabalhadores poderia comprometer seus projetos senatoriais.

NOTÍCIA-CRIME CONTRA EMPRESÁRIOS
No fim de 2012, o casal Waldez e Marília Góes (PDT) assinou procuração ao advogado Eduardo Antônio Lucho Ferrão, um dos mais caros do país, para apresentar notícia-crime contra o delegado de Polícia Federal Jorvel Eduardo Albring Veronese, e os empresários Jaime Nunes e Adiomar Veronese.
Mas só em dezembro de 2013 a ação foi tornada pública em um documento de 72 páginas. Eduardo Ferrão atuou no processo do mensalão, no Supremo Tribunal Federal (STF), defendendo o ex-deputado federal Pedro Corrêa (PP-PE).
Waldez e Marília estavam indiciados no Inquérito 00221906920124010000, que tramitava na Segunda Seção do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, tendo como relator o desembargador federal Ítalo Fioravante Sabo Mendes. O inquérito era um dos desmembramentos da Operação Mãos Limpas, deflagrada no Amapá em setembro de 2010 pela Polícia Federal.
Jaime Nunes foi candidato a vice-governador em 2010, na chapa encabeçada por Lucas Barreto (compadre de Waldez e poupado na acusação), e possuía sociedade com Adiomar Veronese em diversos empreendimentos no Amapá. Waldez e Marília Góes acusavam Jorvel Veronese, Adiomar Veronese e Jaime Nunes de terem articulado a Operação Mãos Limpas, que prendeu o casal, secretários de Estado, políticos, empresários e servidores públicos. Jorvel Veronese foi o responsável pela condução do trabalho da Polícia Federal no inquérito.
Em nome de Waldez e de Marília, o advogado Eduardo Ferrão apresentou a notícia-crime ao desembargador Ítalo Fioravante, relator do inquérito na época. As denúncias do casal citavam também o senador Randolfe Rodrigues (na ocasião filiado ao PSOL-AP). Randolfe somou com Jaime Nunes e Lucas Barreto na eleição de 2010.
O inquérito pelo qual Waldez e Marília estavam sendo investigados fora encaminhado ao TRF1 pelo ministro João Otávio de Noronha, do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Foi de Noronha que partiram os mandados de prisão, de busca e apreensão e de condução coercitiva na operação policial de setembro de 2010.
Noronha acatou observação do Ministério Público Federal (MPF). Para o MPF, apesar da interligação entre os fatos apurados no inquérito, não havia mais nenhum investigado que tivesse prerrogativa de ser julgado no STJ em razão da função exercida.
O ministro relatou que o inquérito teve início com denúncias feitas à Superintendência da Polícia Federal no Estado do Amapá sobre ilícitos que estariam ocorrendo em algumas secretarias de Estado. 
Na tentativa de desconstruir as provas obtidas na Operação Mãos Limpas, Eduardo Ferrão relatava o que denominou de “forte vinculação do delegado Jorvel Veronese com políticos que faziam oposição a Waldez Góes e coloca ainda mais suspeita sobre o trabalho policial que levou este último e sua esposa à prisão e retirou-lhe a chance quase certa de ser eleito senador pelo Estado do Amapá”. Waldez ficou em quarto lugar na eleição.

Para evitar novos desgastes, Waldez precisava evitar decisões polêmicas. Como fazer isso sem perder a visibilidade? Simples. Um vice-governador como Jaime Nunes, com ambições políticas e desmedida fome de poder, seria ideal para emprestar a um governo claudicante a aparência de credibilidade. O plano era empurrar o vice-governador para terrenos pantanosos, reservando para si o oásis político, onde pudesse fazer as melhores colheitas. Trocando em miúdos: Nunes seria o dragão de uma bem montada rapsódia em que o próprio Waldez protagonizaria o grande herói, garantindo para si os aplausos mais efusivos. Jaime Nunes percebeu a manobra, confrontou Góes, os dois altercaram, e firmaram um pacto tácito de não agressão antes do rompimento parcial.
Decididamente ser usado como “boi de piranha” para alavancar a imagem do governador não estava nos planos de Jaime Nunes. Ainda mais para quem começou a pré-campanha passada vislumbrando voos transcontinentais, bem acima das camadas de turbulência, com plano de pouso em um dos gabinetes do Senado Federal. Mas a ideia de governar o Amapá ganhou robustez com a promessa de Waldez Góes em permitir que, vindo a ser o vice, Jaime tivesse autonomia para implantar seus projetos. Tanto que ambos apresentaram uma proposta “revolucionária” que prometia inaugurar no Amapá uma “nova forma de governo”.
A retórica repercutiu sem surtir o efeito esperado por Jaime Nunes. As propaladas mudanças na “forma de governar” ficaram no campo meramente especulativo, o acordo proposto por Waldez Góes para que o vice passasse a ocupar mais espaços no governo não chegou a ser cumprido em sua totalidade e, mesmo que tenha tido papel preponderante na campanha eleitoral, Nunes passou a ser alijado do núcleo de decisão mais próximo do governador. Situação idêntica vivida pelo médico Papaleo Paes, quando ocupou o mesmo cargo. Na vice-governadoria, Paes tornou-se figura ilustrativa, sem vez e sem voz. A fritura alcançou nível insuportável para Papaleo Paes, isolado e esvaziado deixou a função que ocupou entre 2015 e 2017 com visível insatisfação e constrangimento.

 

 

 

 


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