Por Emanoel Reis
A vigilância das dezenas de vítimas do estelionatário Ângelo Vitor Moreira da Costa, 35 anos, preso em Macapá no dia 19 de fevereiro, durante tentativa de fuga para a Guiana Francesa, impediu que ele deixasse a cadeia sob a alegação de que estaria sofrendo com males causados pela AIDS. Vitor, segundo ex-apoiadores da ONG que estava criando na capital amapaense para aplicar golpes no comércio local, teria confidenciado, em uma conversa reservada, ser portador do vírus HIV. O vigarista está cumprindo prisão temporária no Instituto de Administração Penitenciária (IAPEN).
A Polícia Civil do Amapá prendeu um dos estelionatários mais procurados pelas polícias de oito Estados (Pará, Ceará, Sergipe, Rondônia, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul). Ângelo Vitor Moreira da Costa, 35 anos, estava em Macapá desde janeiro, preparando mais outro de seus incontáveis golpes: a montagem fictícia de uma Organização Não Governamental com base nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODSs). Na capital amapaense, Vitor, como se apresentava às dezenas de jovens profissionais, pessoas em início de carreira, desempregadas, que arregimentava com suas ideias mirabolantes e uma capacidade de convencimento admirável, montou uma verdadeira rede de colaboradores apenas prometendo emprego e renda.
A última prisão de Ângelo Vitor Moreira da Costa foi efetuada pela polícia do Estado do Pará, após dezenas de denúncias de vítimas dos golpes aplicados pelo vigarista por meio de sites de compra e venda. Vitor também havia contraído uma dívida de aproximadamente R$ 40 mil só de aluguel de um apartamento. Ele ocupou o imóvel logo após desembarcar na capital paraense, no começo de 2017, e nunca pagou um mês de aluguel. Ao registrar a ocorrência na delegacia, o locador forneceu minuciosas informações sobre o perfil do golpista, com descrição detalhada da aparência e dos hábitos dele.
Ao perceber que o calote fora denunciado, Ângelo Vitor Moreira da Costa aproximou-se mais ainda de um artista plástico belemense com quem fizera amizade por meio das redes sociais, fazendo dele outra de suas vítimas. Proprietário de uma escola de pintura, o homem, cujo nome consta em um dos alentados inquéritos em trâmite contra Vitor, foi convencido pelo golpista a pagar por uma suposta vaga de radialista em uma das emissoras de rádio local. Por semanas, a vítima, que também havia dado abrigo ao seu algoz, repassou consideráveis quantias em troca do hipotético emprego.

Em Macapá, Ângelo Vitor hospedou-se em um pequeno hotel, localizado no centro da cidade, tornando-o o centro de suas operações criminosas. O primeiro passo foi sedimentar laços de amizade com o casal de proprietários do estabelecimento, o que não foi muito difícil para ele pela eloquência e carisma que exibia sem moderação. Por meio dessas pessoas, passou a divulgar o mirabolante projeto de criação de uma ONG voltada para o desenvolvimento de ações sociais focadas somente nas famílias em situação de vulnerabilidade. O segundo passo foi apresentar uma proposta que atraísse e motivasse por sua aparência de trabalho social. E foi o que aconteceu. Atraiu a atenção de muitos jovens em começo de carreira profissional, ansiosos em participar de um projeto com essa abordagem. Utilizando o poder de convencimento, disseminou a ideia de uma empresa do terceiro setor, supostamente sediada em São Paulo, de onde, afirmava ele, recebia os recursos necessários para implantação da ONG. Não foi difícil para Vitor reunir em seu entorno considerável número de pessoas bem intencionadas e, principalmente, atraídas pela promessa de trabalho e renda.
Mas quem é Ângelo Vitor Moreira da Costa? A princípio, um vigarista inescrupuloso, com habilidades somente encontradas em pessoas com inteligência acima da média. É articulado, eloquente e muito perspicaz. Praticamente do nada, partindo de si mesmo, consegue criar a ilusão de que quem estiver às proximidades, reunidas ao redor dele, obterão grandes vantagens se encamparem suas ideais. Resumindo: apenas com a capacidade de convencimento faz com que as pessoas trabalhem exaustivamente para implantação de um projeto. No caso, o projeto pessoal de lucrar por meio de engôdos.
Quem conviveu com Ângelo Vitor por dois meses descreve o trapaceiro com um misto de raiva e decepção por ter sido ludibriado, mas, ainda que profundamente indignado, consegue falar dele com certa ternura. “Ele transmitia muita sinceridade nas palavras, além de demonstrar vasto conhecimento sobre criação e estruturação de ONGs. A gente acreditou que estava fazendo parte de um grande projeto em fase de implantação na cidade. Era tudo mentira”, revelou uma das “funcionárias” contratadas para o exercício de importante função de renome na hipotética hierarquia criada por ele.
Aliás, esta era uma das impressionantes características do impostor enquanto esteve à frente da falsa ONG: capacidade de liderança e rapidez na delegação de funções. Ele também sabia promover vaidades individuais , extrair de seus subordinados a motivação necessária para buscar o melhor, fazer com eles cumprissem as tarefas sempre inspirados. Um dos prestadores de serviço enganados por Vitor resumiu em uma palavra sobre seu ex-chefe: era um prestidigitador. Aquele que tem enorme capacidade de iludir os espectadores. Ou seja, um ilusionista que, em vez de só as mãos, usa todo o corpo para enganar qualquer pessoa.
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