As belezas naturais e as histórias de vida de quem nasceu e se criou na zona rural da capital amapaense compõem um cenário de riquezas incomparáveis. Apesar dessa importância, muita gente ainda desconhece essas joias raras da cultura e do turismo regional (mesmo os nascidos e criados na cidade)
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Por Redação do Amazônia Via Amapá
O município de Macapá “esconde” diversas comunidades em sua área rural. São lugares que ostentam belezas naturais e culturais e um povo que fugiu da agitação da zona urbana para viver integrado com a natureza. A conhecida região da Pedreira engloba grande parte dessas localidades.
A reportagem do site AMAZÔNIA VIA AMAPÁ percorreu alguns desses lugares. A rodovia Alceu Paulo Ramos, a AP-070, dá acesso a diversos lugarejos que mostram que há uma Macapá seguindo em paralelo ao intenso processo de urbanização.
A primeira parada foi na comunidade de Casa Grande, na região quilombola do Curiaú, a cerca de 25 quilômetros da capital do Estado. A região ficou conhecida por um confronto entre famílias pela posse de terras que resultou em assassinato. O episódio ocorreu em julho de 1969. Antigos habitantes da comunidade lembram do acontecimento. Uma dessas pessoas é dona Josefa Meneses das Chagas, de 57 anos, moradora tradicional do lugar. Ela fica emocionada ao falar sobre o derramamento de sangue. “Essa história é uma mancha que nossa comunidade carrega na alma”, lamenta. O fato ganhou registro no livro “Utopia da Terra – na fronteira da Amazônia”, do escritor Osvaldino Raiol, editado em 1990.
“Um conflito pela posse da terra entre camponeses, na localidade de São Francisco da Casa grande, Município de Macapá, veio resultar em uma tragédia quando da interferência de advogados e do aparelho policial na contenda que até então ocorria sem maiores desdobramentos que viessem afetar a integridade dos camponeses”, diz um trecho do livro.
Percorrendo mais 30 quilômetros, aproximadamente, chegamos à comunidade de São José do Mata Fome. O lugar foi colonizado no início dos anos 1950 por moradores para realizar a festa a São José, em 19 de março. “A festa é a nossa grande identidade”, diz dona Raimunda Nery, aos 72 anos.
Já a Vila de Ressaca da Pedreira tem esse nome por ser uma região muito serrada, com o tempo o que antes se chamava Ressaca Serrada da Pedreira foi alterado para ficar só Ressaca. Lá, o destaque é para a agricultura, cuja produção abastece as feiras da cidade, com farinha, açaí, melancia e outros produtos. “A comunidade até possui trator”, orgulha-se Manoel Antônio, 59, dizendo que a máquina foi comprada com esforço conjunto da comunidade. Na ressaca, vivem cerca de 72 famílias.
Em Conceição do Macacoari, a exuberância de uma linda paisagem. Onde encontramos o casal Benedito Coutinho Picanço, 67 e Joaquina Picanço, 61. Eles têm casa na cidade, mas adotaram o interior para viver. “Matamos a saudade os filhos e netos quando vêm para passar o fim de semana”, diz dona Joaquina.
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Uma das mais distantes comunidades da Pedreira é Carmo do Macacoari. A viagem de carro dura, em média, uma hora e meia. O lugar é conhecido por ter sido palco do acidente aéreo que matou o deputado federal Coaracy Nunes, o promotor Hildemar Maia e o piloto Hamilton Silva, em 21 de janeiro de 1958. Os três participavam da festa de São Sebastião, a mais tradicional daquela região.

o sustento e promove o lazer
Depois de participar dos festejos, levantaram voo por volta de 7h30, no avião PA-12 da Piper Aircraft, de fabricação americana, com destino ao município de Mazagão. Relatos de moradores dizem que naquele dia fazia uma neblina muito forte e que muito provavelmente o avião teria batido no topo de uma árvore, provocando a queda da aeronave. Também há relatos de uma grande explosão.
“Naquele dia, nossa comunidade parou. A tristeza tomou conta dos moradores e de todo o Amapá”, lembra dona Luiza Barbosa Tolosa, de 74 anos.
O irmão dela, Veridiano Barbosa Tolosa, lembrava que o acidente fez com que retornasse para a região no dia de sua lua-de-mel. “Eu havia acabado de casar em Macapá, quando chegou a noítícia [do acidente. Claro, voltei para o Macacoari às pressas”, diz. A lembrança fez a voz de seu Veridiano enfraquecer. Ele passava o dia no pátio da velha casa de madeira, confeccionando tipiti – artefato de origem indígena que serve para espremer a mandioca ralada e separar o soro (tucupi) da massa, na fabricação da farinha.
Os três ocupantes da nave tiveram morte instantânea e seu corpos ficaram carbonizados. O resgate da fuselagem aconteceu aconteceu algumas horas depois do acidente. Já não havia mais nada a fazer. No dia seguinte, os restos mortais de Coaracy, Hildermar e Hamilton foram transportados para Macapá, na balsa Veiga Cabral. Na chegada a capital, as homenagens da população, comovida com a fatalidade.
Hamilton Silva foi sepultado em Macapá; Hildemar Maia em Belém e Coaracy Nunes no Rio de Janeiro. O governador Pauxi Nunes mandou construir um marco no local do acidente. Hoje, o monumento foi engolido pela selva, mas ainda desperta interesses de visitantes.

LITERATURA AMAZÔNICA
O escritor e jornalista Emanoel Reis, editor deste site, publicou recentemente o romance intitulado “Trezoitão”. A obra é ambientada em duas cidades da Amazônia, Belém (PA) e Macapá (AP), e tem como personagens centrais o jornalista Eliano Calazans, 30 anos, repórter investigativo de um famoso jornal de grande circulação em Belém, capital do Pará, e o pistoleiro Cici Silveira, de codinome Trezoitão, muito ligado ao latifúndio (pecuaristas, madeireiros, carvoeiros, grileiros). Quer saber mais sobre esta obra?
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