A família real dos Orleans e Bragança já não governa o país há séculos. Mas outros clãs assumiram esse papel nos estados e, assim, preencher o vácuo de poder deixado pelos portugueses. A maioria desses clãs familiares se concentra no Norte e Nordeste, onde boa parte da população vive abaixo da linha da pobreza e, portanto, está mais vulnerável às práticas políticas nada ortodoxas
Em todos os Estados brasileiros, a política tornou-se um negócio de família. No Amapá, o quadro não é diferente. Nos últimos 30 anos, virou patrimônio pessoal de antigos políticos, com transferência para os sucessores de estruturas partidárias, militantes e simpatizantes, e verdadeiros feudos eleitorais. Esses herdeiros, sejam eles parentes diretos ou indiretos, só precisam seguir à risca a cartilha do mandarim da vez e recitar o conteúdo programático da campanha sem nenhum compromisso em cumpri-lo. O mais importante dentro desses projetos familiares é abocanhar o maior naco de poder.
Foi assim com o falecido ex-governador do Amapá, Aníbal Barcellos. Por muitos anos, parte significativa da família dele pontificou na política local, com filho, neto e nora em cargos eletivos.

No município de Santana, há 18 quilômetros de Macapá, os herdeiros do ex-prefeito Rosemiro Rocha, ele próprio ex-deputado estadual, ficaram um bom tempo no topo da política local controlando o futuro de aproximadamente 125 mil almas, número arredondado do total de habitantes da cidade. O filho de Rosemiro, Robson Rocha, foi o prefeito com o maior índice de rejeição no Estado. Ainda assim, disputou a reeleição em 2016 e perdeu para o também ex-prefeito Ofirney Sadala.

No cenário atual, está em evidência o grupo político do governador do Amapá, o pedetista Waldez Góes. Na política há quase 40 anos, Góes foi deputado estadual e governou o Estado pela primeira vez entre 2003 e 2010. Eleito em 2014 para o mesmo cargo, e reeleito em 2018, tem vários parentes na política. A mulher dele, Marília Góes, além de ser primeira-dama, está no terceiro mandato de deputada estadual, o primo do mandatário, Roberto Góes, foi vereador, deputado estadual, prefeito de Macapá e deputado federal. A mãe de Roberto, Maria Góes, foi vereadora e deputada estadual.
Outras duas oligarquias em ascensão são as famílias Gurgel e Favacho, ambas com tentáculos na administração pública e representadas nos legislativos estadual e federal. São dois núcleos de poder no Amapá controlados por duas mulheres: Telma Gurgel, ex-presidente da Federação das Indústrias do Amapá, com mandato no legislativo estadual, o filho dela, Vinícius Gurgel, e a nora, Aline Gurgel, congressista no primeiro mandato (imagem em destaque no topo).
No mesmo diapasão está a ex-deputada estadual Francisca Favacho. No caso de Francisca, mãe do deputado federal Acácio Favacho e do deputado estadual Júnior Favacho, o pêndulo da balança inclina-se a favor dela por conta de seu marido, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Amiraldo Favacho.
Capitaneada pelo senador João Alberto Capiberibe (PSB), ex-secretário de Macapá, ex-secretário de Estado, ex-prefeito de Macapá, duas vezes governador do Amapá e senador aposentado, a família Capiberibe é uma das oligarquias mais longevas do Estado. As sementes dessa “capitania hereditária” política foram lançadas pela decana Raquel Capiberibe, ex-deputada federal e ex-conselheira do TSE.

Presidente estadual do PSB sucessivamente reeleito, por duas vezes João Capiberibe esteve no pináculo do poder local. A primeira, ao lado de sua mulher, Janete Capiberibe, à época primeira-dama e toda poderosa secretária da Indústria e Comércio, Capi, como é tratado por seus pares, governou o Amapá entre 1994 e 2002 A segunda, numa impressionante reviravolta pessoal e eleitoral em 2010, elegeu-se senador pela segunda vez, reelegeu a mulher deputada federal e garantiu ao filho, Camilo Capiberibe, o cargo de governador do Estado. Foi uma vitória acachapante, com efeitos devastadores para os adversários dele.

Existência de clãs é ruim para a democracia, diz estudo
Essas são histórias corriqueiras na política nacional. E integram o anedotário de forma equivocada. Um estudo da Universidade de Brasília (UnB) analisou os 983 deputados federais eleitos entre 2002 e 2020 para concluir que, no período, houve um crescimento de 10,7 pontos percentuais no número de deputados herdeiros de famílias de políticos, atingindo 46,6% em 2018 – número próximo aos 44% encontrados pela Transparência Brasil no mesmo ano. Logo após a última disputa eleitoral, a ONG divulgou outro levantamento que concluiu que 49% dos deputados federais eleitos em 2014 tinham pais, avôs, mães, primos, irmãos ou cônjuges com atuação política – o maior índice das eleições anteriores.
Coordenador do levantamento que analisou as três primeiras eleições deste século, o professor de Ciência Política da UnB Luis Felipe Miguel observa que em diversas áreas é comum que os filhos sigam a carreira dos pais. O problema no caso da política é que ela não deveria ser considerada uma profissão. “Na política, isso é mais sério, pois ela deveria ser uma atividade aberta a todos os cidadãos”, diz. Diferentemente de outras áreas, continua o professor, nem sempre há isso de os filhos se aproximarem pela familiaridade com as profissões dos pais. “Há, sim, estratégias das próprias famílias para manter os espaços de poder, com filhos ou parentes que são muitas vezes empurrados para ocupar essas posições, quem sabe até contra as próprias inclinações. Isso é sim ruim pra democracia.”
Para Miguel, as estratégias de manutenção dos clãs no poder acabam por torná-los uma espécie de empreendimento – uma vez que a política também é vista em muitos casos como forma de enriquecimento pessoal –, com projetos bem definidos para a ocupação até mesmo de espaços que credenciam para a disputa eleitoral. Um exemplo explícito dessas estratégias de poder é a carreira de Paulo Bornhausen (PSB-SC), filho do ex-governador e cacique do DEM catarinense Jorge Bornhausen. “O Paulo, que seria o herdeiro, foi deputado estadual, federal, candidato a senador [derrotado em 2014], mas antes de ser lançado candidato ele ocupou durante alguns anos um programa de rádio de apelo popular numa rádio de bastante audiência de Florianópolis”, explica Miguel.

A oligarquia do andarilho “maluco beleza”

Mesmo temporariamente afastado do centro convergente do poder político no estado, o empresário Gilvam Borges mantém a postura de quem carrega sobre os ombros o destino do povo amapaense. Nos exercícios dos mandatos de deputado federal e senador pelo MDB, ganhou notoriedade nacional como godfather de seu clã, no Amapá, e fiel escudeiro de outro godfather ilustre, o ex-senador José Sarney (MA), célebre por comandar uma oligarquia com alcance mais abrangente.
Sempre apoiado por Sarney, Gilvam Borges pavimentou a longa carreira política com peculiar picardia, chistes inusitados e extrema bazófia. Foi assim, dissimulando o ego crescente, ignorando o ridículo, troçando dos adversários e regando a amizade com o maranhense poderoso que o ex-senador pelo Amapá ergueu um império de comunicação e por bom tempo dominou a política no cenário regional.
Para alcançar esse objetivo, Gilvam Borges interpretava o personagem do homem afável, brincalhão e humilde, com suas inseparáveis alpercatas. E essa imagem ficou tão cristalizada no inconsciente coletivo da população que conseguiu eleger seus familiares (irmãos, filhos e primos) para cargos em prefeituras, Câmaras de Vereadores e dos Deputados.
PARENTES DE FAMILIARES DOMINANTES HERDAM AS OLIGARQUIASSegundo o cientista político Ricardo Costa Oliveira, que estuda a presença das famílias no poder, 62% da Câmara é formada por deputados originários de famílias políticas, enquanto no Senado esse número sobe pra mais de 70%. Ou seja, praticamente dois terços do Congresso brasileiro está tomado por algumas famílias. Mais da metade dos ministros de Temer são representantes de famílias políticas. Só o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM), filho de César Maia, convive no Congresso com dois primos: o deputado Felipe Maia (DEM) e seu pai, o senador José Agripino Maia (DEM). Todos eles são primos do vice-procurador-geral da República Luciano Mariz Maia. Seriam necessários mais uns três parágrafos para citar todos os integrantes da família Maia que ocupam cargos públicos em todo o Brasil. A lógica de domínio pelo parentesco também se dá em todas as outras esferas de poder da sociedade. Além dos executivos e legislativos estaduais e municipais, famílias tradicionais dominam o Ministério Público, todos os níveis do judiciário, os tribunais de conta, e por que não lembrar, os oligopólios de mídia. Levantamento de Oliveira indica que 16 dos 26 prefeitos de capitais eleitos em 2016 vieram de famílias políticas. No Supremo Tribunal Federal, oito dos onze ministros têm parentes importantes na área do Direito. Na força-tarefa da Lava Jato, metade dos seus integrantes tem familiares magistrados e procuradores. Fala-se muito sobre a necessidade de renovação dos quadros políticos, mas o que todos assistem a cada eleição é a renovação dos parentes das famílias dominantes. Muitos deles se vendem como o “sangue novo na política”, mas são herdeiros de legados que representam o que há de mais antiquado. Jovens sem nenhuma trajetória na política, que jamais seriam seriam eleitos sem a força de seus pais, seguem engrossando as fileiras dos cargos públicos a cada eleição. Além do capital político, esses filhos herdam também o poder econômico. Muitas dessas famílias são donas de meios de comunicação, como TV, rádios e jornais nos seus estados, que acabam virando verdadeiras monarquias regionais em um ciclo vicioso eterno. Esse esquemão das famílias sobre a coisa pública mantém o país refém de interesses particulares e da desigualdade social. Além disso, representa inegavelmente um foco de corrupção. Basta acompanhar no noticiário a frequência com que famílias políticas unidas aparecem roubando unidas.
Edição: Emanoel Reis
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LITERATURA
O escritor e jornalista Emanoel Reis, editor deste site, publicou recentemente o romance intitulado “Trezoitão”. A obra é ambientada em duas cidades da Amazônia, Belém (PA) e Macapá (AP), e tem como personagens centrais o jornalista Eliano Calazans, 30 anos, repórter investigativo de um famoso jornal de grande circulação em Belém, capital do Pará, e o pistoleiro Cici Silveira, de codinome Trezoitão, muito ligado ao latifúndio (pecuaristas, madeireiros, carvoeiros, grileiros). Quer saber mais sobre este livro?

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