As hostilidades contra o presidenciável Ciro Gomes, nas manifestações realizadas na avenida Paulista, em São Paulo, refletem o clima de beligerância em espiral crescente no cenário político nacional
Na última manifestação contra Jair Bolsonaro, realizada no sábado, 2 de outubro, na avenida Paulista, Centro de São Paulo, o pré-candidato à Presidência em 2022, Ciro Gomes, foi hostilizado por militantes da esquerda ligados ao Partido dos Trabalhadores. O presidenciável do PDT chegou a ser vaiado durante seu discurso, e deixou o ato com seu carro sob ataques de pedaços de pau. Em resposta aos insultos, ele afirmou que “meia dúzia de bandidos travestidos de esquerda acham-se donos da verdade” e que o país é muito maior do que o “fascismo de vermelho ou de verde e amarelo”.

Mas por que Ciro Gomes, um político que já rodou todo o espectro político brasileiro, não consegue se firmar como alternativa ao bolsonarismo ou ao lulopetismo? Gomes é um político experiente, e muito preparado para exercer qualquer cargo público, no entanto, ainda não conseguiu ser bem-sucedido nas disputas eleitorais para Presidente da República. Quais são as causas desses fracassos?
Fora Bolsonaro. Eu digo por que Fora Bolsonaro. Porque Bolsonaro é responsável por mais de 600 mil mortes de brasileiros. Porque Bolsonaro é corrupto, roubou a vacina que faltou para salvar a vida de brasileiros. Fora Bolsonaro porque enche de vergonha o Brasil no estrangeiro. Fora Bolsonaro porque está destruindo a economia nacional do Brasil
— Ciro Gomes
Gomes começou a carreira no PDS, originário da Arena, a legenda que abrigava os baluartes da ditadura militar. Como deputado estadual e federal, prefeito, governador e ministro duas vezes (com Itamar Franco e, depois, com Lula), ele passou ainda por MDB, PSDB, PPS, PSB, Pros e PDT, sua atual casa.
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O romance intitulado “Trezoitão”, de autoria do jornalista Emanoel Reis, está à venda na Loja Kindle. A história inicia com o assassinato de um deputado estadual, conhecido defensor de pequenos agricultores no interior do Pará. O autor do crime, codinome “Trezoitão”, é um matador de aluguel financiado por consórcio montado nos escaninhos do governo estadual, comandado pelo próprio governador. Ele é muito ligado ao latifúndio (pecuaristas, madeireiros, carvoeiros, grileiros). Toda a trama é ambientada nos Estados do Pará e Amapá. Quer saber mais sobre esta obra?
Depois de quatro décadas de zigue-zagues por todos os campos ideológicos, ele chega a sua quarta campanha presidencial como o postulante fora dos extremos com melhor desempenho nas pesquisas. Para ganhar a musculatura necessária, no entanto, precisa encontrar espaço para crescer no centro, que se encontra hoje espremido, de um lado, por Lula e, do outro, pelo até agora sólido patrimônio bolsonarista de intenções de votos. Um dilema para lá de intrincado em sua nova tentativa de chegar ao Palácio do Planalto.

Experimentados observadores afirmam que uma das causas dos sequentes insucessos provém de sua verve virulenta. “Ele não poupa inimigos e nem amigos”, afirmam, sem titubear. Na verdade, é mais fácil ouvir críticas de dirigentes e eleitores do PT dirigidas a Ciro do que a Bolsonaro. Por exemplo, logo após iniciar seu discurso na avenida Paulista, começou a ser vaiado e xingado, mesmo acentuando sua fala contra Bolsonaro. Um grupo de apoiadores do ex-presidente Lula berrava o nome de Lula numa tentativa de abafar a fala de Gomes. Alguns copos de plástico chegaram a ser arremessados em direção ao caminhão enquanto o presidenciável discursava.
LITERATURA AMAZÔNICA
Está disponível em e-book na Loja Kindle o livro “Trivial Cotidiano – Crônicas do Caos Sem Fim”, de autoria do Jornalista e Teólogo Emanoel Reis. A obra reúne crônicas versadas sobre assuntos variados, construídos a partir de episódios corriqueiros catalogados pelo autor ao longo de cinco anos de observações. O desafio, segundo afirma, é extrair lições de vida de qualquer cenário ou acontecimento aparentemente insignificante, como uma trombada na coluna interna de uma agência bancária ou um tropeção em cacos de tijolos dispersos sobre uma calçada.
“Bolsonaro a tua hora está chegando, porque o povo brasileiro é muito maior que os fascistas de vermelho ou de verde e amarelo”, respondeu Ciro diante das vaias.
No início da fala, Ciro já havia partido para o ataque contra o presidente. “Fora Bolsonaro. Eu digo por que Fora Bolsonaro. Porque Bolsonaro é responsável por mais de 600 mil mortes de brasileiros. Porque Bolsonaro é corrupto, roubou a vacina que faltou para salvar a vida de brasileiros. Fora Bolsonaro porque enche de vergonha o Brasil no estrangeiro. Fora Bolsonaro porque está destruindo a economia nacional do Brasil”, disse Ciro.
“O impeachment de Bolsonaro é a única forma que a nação brasileira tem de se proteger contra um golpe de estado. Só há um jeito para impedir um golpe de estado no Brasil: é o povo na rua”, completou.

Com as vaias, no final do discurso, Ciro disse que estava acostumado a esse tipo de atitude, e que já tem experiência suficiente para ter enfrentado situações como essa, mas que a união era para “um bem maior”.
Atribuída a autor desconhecido, a frase “a esquerda só se une na cadeia” resume a vocação dos progressistas brasileiros pela autofagia. E também define a odisseia de Ciro Gomes pela Presidência da República. E é dessa maldição que ele pretende se livrar ao aceitar, de peito estufado, ser tratado como o principal inimigo do PT desde o segundo turno das eleições presidências de 2018. Pergunte a um petista quem é responsável pela derrota de Haddad naquelas eleições. Nenhum militante vai admitir que a messiânica e natimorta candidatura Lula foi o maior erro da esquerda na história do Brasil – mais infausta que a Intentona Comunista ou a Guerrilha do Araguaia.

Que nada. O motivo do fracasso, para antigos e novos lulopetistas, foi a viagem de Ciro Gomes a Paris, no intervalo entre o primeiro e o segundo turnos. Ele teria “fugido” de sua responsabilidade de pousar armas aos pés de Haddad, motivo que o elevaria à categoria de traidor da nação e do proletariado. E não adianta argumentar que essa tese é não só ridícula do ponto de vista lógico como é indecente do ponto de vista ético. Pelo visto, até a direita vai fazer autocrítica antes do PT.
“Diante do desafio, um dos movimentos de Ciro tem sido uma espécie de volta às origens. Desde que Lula retornou o jogo, ele tem intensificado os contatos com as siglas localizadas na centro-direita. Na sua lista de chamadas recentes aparecem os principais quadros do DEM, PSDB, PPS, Cidadania e Solidariedade, entre outros. O objetivo dos contatos é sempre o mesmo: convencer os interlocutores de que ele pode unir as forças que estão entre Bolsonaro e Lula e, claro, vencer a eleição”, comenta o analista político João Pedroso de Campos.
Edição: Emanoel Reis
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