Pesquisas eleitorais não são cem por cento confiáveis, advertem cientistas políticos

Se pesquisas definissem eleição, não precisaríamos votar. A máxima ajuda a separar o que é intenção de voto do que é o resultado de uma eleição. Uma pesquisa de opinião, baseada em amostragem, é um retrato do momento

Foto: Pixabay
A divulgação de pesquisas eleitorais vem suscitando dúvidas, questionamentos e até promovendo iniciativas questionáveis nas redes sociais, em um dos cenários mais pulverizados em uma eleição desde 1989
Por Guilherme Carvalho

Não é de se estranhar que os dados coletados nos levantamentos apresentem resultados diferentes do que se efetiva na urna. Daí porque o assunto sempre foi polêmico. Vejamos o exemplo do resultado de pesquisa recente, realizada pela Genial/Quaest (empresa de investimentos e de coleta de dados). Ela aponta que 52% dos que escolheram Bolsonaro para presidente no segundo turno repetiriam hoje o voto nele; 21% migrariam para Lula e outros 12% dizem que cravariam branco, nulo ou ainda não sabem dizer. Resumindo, o levantamento destaca que Jair Bolsonaro perdeu eleitores para Lula entre os que votaram nele (Bolsonaro) no segundo turno de 2018.

A divulgação desse resultado provocou a imediata reação de apoiadores do presidente da República. Esta é uma questão sobremodo polêmica pois mexe com preferências, sentimentos e ideologias de eleitores das mais diferentes matizes. Por exemplo, pesquisas recentes para presidente, apontando Lula à frente de Bolsonaro na disputa de 2022, igualmente abalaram as pilastras do bolsonarismo. Enquanto apoiadores de Lula demonstravam entusiasmo com os dados e faziam questão de divulgar o resultado, os partidários de Bolsonaro, e ele próprio, questionavam a validade das pesquisas.
Afinal, podemos acreditar nas pesquisas? A resposta não é tão simples assim. Os cientistas políticos concordam que o processo de pesquisa tem lacunas e que é necessário aprimorá-lo, mas defendem a aplicação e a divulgação dos dados.
Luiz Domingos, cientista político e professor da PUC e da Uninter, lembra que a pesquisa é probabilística. Isto é, apresenta um quadro provável. De todo modo, segundo ele, as críticas às pesquisas tendem a transformar um problema técnico em um problema ideológico.
Em um artigo publicado na revista Compolítica, o pesquisador da UFSC João Kamradt traz resultados de um trabalho em que analisou 302 candidatos a governo em pesquisas e comparou com resultados eleitorais em 2014. Desse total, 93 estiveram fora da margem de erro, o que representa 30,7% de “erros” nas pesquisas. Esse dado é bastante superior aos 5% indicados pelos institutos de pesquisa.


LITERATURA AMAZÔNICA
O romance intitulado “Trezoitão”, de autoria do jornalista Emanoel Reis, está à venda na Loja Kindle. A história inicia com o assassinato de um deputado estadual, conhecido defensor de pequenos agricultores no interior do Pará. O autor do crime, codinome “Trezoitão”, é um matador de aluguel financiado por consórcio montado nos escaninhos do governo estadual, comandado pelo próprio governador. Ele é muito ligado ao latifúndio (pecuaristas, madeireiros, carvoeiros, grileiros). Toda a trama é ambientada nos Estados do Pará e Amapá. Quer saber mais sobre esta obra?

Por que as pesquisas “erram”?

Alguns fatores contribuem para a imprecisão das pesquisas, como os votos dos indecisos, o tempo entre a realização da pesquisa e a divulgação, a mudança de voto do eleitor não tão convicto, os recursos utilizados pelas campanhas na reta final, a circulação de informações em redes sociais ou meios de comunicação, entre outros aspectos contextuais.
No âmbito da execução das pesquisas, é possível listar outros problemas. Uma delas está na metodologia que utiliza as amostras probabilísticas. Nesse formato, são ouvidos indivíduos que representam certos grupos sociais. Esta seleção do perfil ouve um eleitor que pertence a um grupo, mas cujo voto não é necessariamente o mesmo de outro perfil do mesmo grupo. Eis o problema que pode indicar um erro amostral.

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Assim, o problema não está na quantidade de pessoas consultadas. Hoje, para que se obtenha uma margem de erro de 2 pontos percentuais em uma pesquisa, o que é considerado baixo e aceitável, é necessário ouvir 2.100 brasileiros, aproximadamente. O problema está, portanto, na maneira como a amostra é montada. Para não falarmos dos dados do IBGE utilizados para amostragem que estão defasados há 21 anos. O último censo foi em 2010.
Ricieri Garbelini, da IRG Pesquisa, diz que pesquisas realizadas por institutos diferentes em um mesmo período, a respeito de um mesmo pleito eleitoral, podem apresentar diferenças. Isso ocorre, porque pode haver uma variação na fórmula utilizada. “Cada instituto tem uma metodologia”, diz ele. O problema maior, segundo ele, está nos usos que se faz das pesquisas, e na divulgação, que geralmente inclui apenas os dados dos grandes institutos.
Boa parte dos problemas de confiabilidade das pesquisas foram resolvidos com o controle das pesquisas pelo Tribunal Superior Eleitoral que, aliás, é exemplar. O procedimento garante a verificabilidade dos dados obtidos e da metodologia aplicada. A fraude pode ocasionar multa e prisão dos responsáveis.

Basear o voto nas pesquisas não é um problema para a democracia. Faz parte do jogo eleitoral. Grande parte dos eleitores escolhem em quem votar a partir do quadro eleitoral apresentado pelos institutos de pesquisa e divulgado pelos meios de comunicação. Quantos já votaram em um candidato para não deixar o outro vencer porque as pesquisas indicavam a vitória do adversário?
Com mais acertos do que erros, as pesquisas brasileiras são importantes instrumentos para o eleitor. O que não justifica o uso desonesto ou a censura às pesquisas. Infelizmente a polêmica não caminha por aí. Se os políticos não acreditassem que as pesquisas têm o poder de decidir o voto de parte do eleitorado, o tema não estaria na pauta do Congresso.

— Luiz Domingos/Professor e Cientista Político

Coordenador do Grupo de Estudos Eleitorais do Núcleo de Estudos Comparados e Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), Glauco Peres da Silva tem o mesmo entendimento. No entanto, conforme observa, a maior dificuldade para a realização das pesquisas eleitorais é a divulgação das próprias pesquisas eleitorais.
O professor, que também é pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), explica que, a partir do momento em que as pesquisas são divulgadas, elas passam a influenciar os votos dos eleitores, em um cálculo que ficou conhecido como “voto útil”.
“A eleição do Doria, para mim, é um grande exemplo. Uma explicação possível para sua vitória em primeiro turno é o fato de que as pessoas estavam vendo o Haddad subir nas pesquisas, e aí mudaram o voto para o Doria, não porque ele era a primeira opção de todo mundo, mas era o mais viável entre as alternativas ao Haddad com chance de vencer eleição”, afirma.
“Efeitos desse tipo vão acontecer, e as pesquisas geram isso. Resumindo, não é que a pesquisa errou, ela influenciou a decisão das pessoas”.
Jairo Pimentel, pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público (Cepesp) da FGV, completa esse raciocínio chamando a atenção para outro aspecto da realização das pesquisas: a volubilidade dos eleitores.
“A gente que faz pesquisa qualitativa percebe que as pessoas entram na sala para debater política com uma opinião e dois minutos depois já é completamente diferente. Porque no dia-a-dia o brasileiro não está acostumado a debater política, e aí quando isso começa a acontecer a pessoa percebe que sua intenção inicial tem inconsistências, é uma inclinação, e não uma intenção”, explica.

Edição: Emanoel Reis


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