Missa dos Quilombos nasceu como uma “atitude revolucionária” e transformadora

O ativismo inabalável de um religioso, cuja vida foi toda empregada na defesa e na luta pela sobrevivência dos desvalidos, contribuiu para o surgimento de um ato de simbolismo contra a desigualdade social e racial

Foto: Portal Vermelho
Dom Pedro Casaldáliga: o bispo que uniu os povos oprimidos da América Latina

Poucos meses após a dona de casa Darnella Frazier ter gravado casualmente a prisão e o assassinato do negro norte-americano George Floyd, em 25 de maio de 2020, na cidade de Minneapolis, Estados Unidos da América, o bispo emérito de São Felix do Araguaia (PA), dom Pedro Casaldáliga, falecia aos 92 anos de idade. Desaparecia um dos mais importantes defensores de indígenas, camponeses, negros, mulheres e dos mais esquecidos. Ainda nos tempos da ditadura civil-militar, em 1981, Casaldáliga criou a Missa dos Quilombos, em parceria com o poeta Pedro Tierra e com o músico Milton Nascimento.

Esta missa foi celebrada em União dos Palmares (AL) na data da morte de Zumbi, dia 20 de novembro. Dois dias depois, a celebração ocorreu no Recife, na Praça do Carmo, o mesmo local onde a cabeça do líder negro decapitado foi exposta, em 1695. Participaram da celebração dom Helder Câmara, então arcebispo de Olinda e Recife, outros membros do clero e uma multidão de aproximadamente oito mil pessoas.
Criada pelo bispo espanhol como uma “atitude revolucionária”, a Missa dos Quilombos é uma combinação de fé, comunhão, música e ritmo. Seu propósito intrínseco é expôr o que representa a escravidão e sua herança no Brasil. Nas palavras do próprio Casaldáglia, “é uma retratação aos povos negros, herdeiros dos escravos”. Este conceito propalado pelo religioso custou-lhe graves consequências.
Por anos, foi perseguido e ameaçado, várias vezes acusado de comunista, inclusive por alguns dos seus pares da Igreja Católica. Mas também foi reconhecido por sua contribuição às causas do povo. Com sua sensatez e serenidade, estava sempre presente nos debates sobre as demandas populares. Inclusive fora do Brasil, como no encerramento do diálogo juvenil e estudantil da América Latina e do Caribe sobre a dívida externa, realizada em Cuba no ano de 1985.
Com sua voz pausada, dom Pedro Casaldáliga ocupou a tribuna e conclamou os jovens ao sagrado exercício da rebeldia.

DOCUMENTÁRIO SOBRE A 1ª MISSA DOS QUILOMBOS

LITERATURA AMAZÔNICA
O romance intitulado “Trezoitão”, de autoria do jornalista Emanoel Reis, está à venda na Loja Kindle. A história inicia com o assassinato de um deputado estadual, conhecido defensor de pequenos agricultores no interior do Pará. O autor do crime, codinome “Trezoitão”, é um matador de aluguel financiado por consórcio montado nos escaninhos do governo estadual, comandado pelo próprio governador. Ele é muito ligado ao latifúndio (pecuaristas, madeireiros, carvoeiros, grileiros). Toda a trama é ambientada nos Estados do Pará e Amapá. Quer saber mais sobre esta obra?

Missa na CCN
Adiada pela forte chuva que caiu em Macapá no sábado (20), a tradicional Missa dos Quilombos levou grande público ao Centro de Cultura Negra (CCN), na noite de domingo, 21. O evento foi considerado o ponto alto do XXVI Encontro dos Tambores. A celebração foi presidida pelo padre Paulo Roberto Mathias. Além de outros sacerdotes e integrantes de religiões de matriz africana. Também contou com a participação de cavaleiros da tradicional Festa de São Tiago, de Mazagão Velho.

Fotos: Gabriel Penha

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Com o tema ‘Ancestralidade e Resistência’, a Missa dos Quilombos, em celebração ao Dia da Consciência Negra 2021, foi recheada de elementos de religiões de matriz africana e ritos católicos. Grupos de capoeira abriram as apresentações, seguida pelo rufar dos tambores e grupos tradicionais de marabaixo e muito batuque em homenagem póstuma às personalidades negras. Padre Paulo Roberto também destacou a importância da missa em período pandêmico. “Hoje é um dia de celebração, recordação e saudades pelos que se foram”, pontuou o sacerdote.

A Missa dos Quilombos é um momento de expressão da fé do povo negro e, ao mesmo tempo, de resistência frente à intolerância e ao preconceito vividos diariamente. Ficamos felizes em apoiar um evento de tamanha magnitude e importância para nossa cidade

— Maria Carolina Monteiro de Almeida/Diretora-presidente do Instituto de Políticas de Promoção da Igualdade Racial de Macapá


Após a missa, houve o ofertório com frutas e banho de cheiro, além de comunidades tradicionais apresentaram-se com grupos de marabaixo. O evento segue até 2 de dezembro em comemoração ao Dia Nacional e Estadual do Samba, com exposições de artes plásticas, venda de comidas típicas, Feira Afro Empreendedora e apresentação de comunidades.

Preconceito
A desigualdade racial no Brasil esteve em destaque na homília de padre Paulo. Ele lamentou as repetidas ocorrências de manifestações racistas em um país tão miscigenado quanto o Brasil. De acordo com o religioso, a existência do problema é inquestionável e persiste devido a fragilidade de políticas públicas para o seu enfrentamento. E o sacerdote católico tem razão. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por exemplo, os negros representam 70% do grupo abaixo da linha da pobreza. Nessa perspectiva, construir uma sociedade mais igualitária requer a compreensão do papel de cada estrutura socioeconômica na reprodução do racismo para elaborar estratégias efetivas de enfrentamento.
Retornando ao ativismo do falecido bispo dom Pedro Casaldáliga, a luta contra o preconceito é permanente. “Para escândalo de muitos fariseus e para alívio de muitos arrependidos, a Missa dos Quilombos confessa, diante de Deus e da história, esta máxima culpa cristã”, disse ele. “Mas um dia, uma noite, surgiram os quilombos, e entre todos eles, o Sinaí Negro de Palmares, e nasceu, de Palmares, o Moisés Negro, Zumbi.”

Edição: Emanoel Reis

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