Foto: Bruno Miranda

“O PT não pode acreditar na história de que os evangélicos e as evangélicas são como se fossem um gado e deve lembrar o segmento de que a maioria dos fiéis, pobre e periférica, foi beneficiada por políticas públicas iniciadas pelos governos petistas”
As palavras são de Lula da Silva, que antecipou a estratégia que deve usar para recuperar um bloco eleitoral que já lhe foi mais generoso.
Em encontro virtual de mais de duas horas, o petista propôs a criação de “um momento evangélico” na TV e na rádio do partido. Seria uma forma de reverter a falsa premissa de que o verdadeiro cristão não vota na esquerda, martelada por vários dos megapastores brasileiros, hoje alinhados ao presidente Jair Bolsonaro.

É uma argumentação fartamente usada por pastores com linha direta no Palácio do Planalto e maior canhão midiático, capitaneados por Silas Malafaia. Hoje, nenhum líder de uma igreja grande está ao lado de Lula. A bola era mais dividida antes —o próprio Malafaia, que apoiou Lula em 1989 e 2002, é exemplo disso.
O bispo Edir Macedo é outro termômetro para o debate eleitoral no campo religioso.
Raramente visto em eventos exteriores à sua igreja, ele vem usando a Folha Universal para expressar predileções ideológicas. Pois elas não são boa notícia para petistas que almejam uma reaproximação com Macedo, ex-parceiro dos governos Lula e Dilma.
Alguns editoriais recentes do jornal da Universal do Reino de Deus: “Vítimas da militância LGBT” (desagravo a Mauricio Souza, o jogador olímpico de vôlei que caiu nas graças bolsonaristas após criticar um beijo homoafetivo do novo Super-Homem), “Proibição da Bíblia na China: o que isso tem a ver com você, brasileiro?” (sobre uma suposta ideologia comunista propagada por PT e outras legendas esquerdistas) e “Os atos da esquerda falam por si mesmos” (a tese de que nenhum país governado pela esquerda deu certo). Houve também um elogio ao 7 de Setembro bolsonarista.
Segundo Lula, é importante oferecer uma contranarrativa “porque há muito fetiche, há muita queimação, há muita maldade, contra e a favor, há muito disse-que-disse”.
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LITERATURA AMAZÔNICA
O romance intitulado “Trezoitão”, de autoria do jornalista Emanoel Reis, está à venda na Loja Kindle. A história inicia com o assassinato de um deputado estadual, conhecido defensor de pequenos agricultores no interior do Pará. O autor do crime, codinome “Trezoitão”, é um matador de aluguel financiado por consórcio montado nos escaninhos do governo estadual, comandado pelo próprio governador. Ele é muito ligado ao latifúndio (pecuaristas, madeireiros, carvoeiros, grileiros). Toda a trama é ambientada nos Estados do Pará e Amapá. Quer saber mais sobre esta obra?
Mensagem evangelizadora é mais influente nas periferias
Em 2002, o PT distribuiu a Carta aos Evangélicos na porta de igrejas. No panfleto, o então presidenciável dizia possuir “esperança cristã” e fazia vários acenos a adeptos dessa religião, que por anos escutaram pregações que o comparavam a um demônio que fecharia igrejas se assumisse o poder.
Deu certo em parte. Em 2006, estima-se que Lula chegou a ter maioria dos votos evangélicos no segundo turno, contra o tucano Geraldo Alckmin. Transferiu a Dilma Rousseff, sua sucessora, alianças que solidificou com megapastores ao longo de dois mandatos. Edir Macedo foi um deles.
Em 2018, contudo, a maioria do segmento —da base à cúpula pastoral— preferiu Bolsonaro ao petista Fernando Haddad. Sete em cada dez eleitores evangélicos votaram no católico que soube se firmar como candidato preferencial dos pastores.
Nunca acreditei nessa história de que os evangélicos iriam votar não sei onde. Acho que os evangélicos votam naqueles que tiverem capacidade de convencer eles, que fizerem seus argumentos chegarem a eles. Lamentavelmente, tivemos em 2018 uma campanha avessa, com fake news, com muita mentira, coisa que a gente não estava tão acostumado. E nós aprendemos, nós aprendemos. Eu acompanho pesquisa todo dia e não vejo Bolsonaro ganhar de mim nos evangélicos, eu não vejo. E isso porque ele já tá em campanha, e eu não tô ainda.
— Lula da Silva/PT
Evangélicos progressistas acertam quando repelem a noção de um bloco monolítico de fé, como se todo fiel seguisse cegamente o que Malafaia, Macedo e companhia dizem.
O meio é plural e horizontalizado demais para isso, e são pelas veias abertas das pequenas igrejas, sobretudo nas periferias, que a mensagem evangelizadora corre com mais pulsão.
Mas pastores com projeção nacional, donos de horários na grade televisiva e, mais recentemente, catapultados pelas redes sociais, muitas vezes servem de bússola para peixes menores no meio.
Confortável no papel de porta-voz do grupo, Malafaia se tornou uma das faces mais conhecidas para os seculares (como evangélicos se referem a quem é de fora da crença deles).
Não está só, contudo. Nomes como André Valadão (Igreja Batista da Lagoinha), popular entre os jovens e com forte presença nas redes sociais, ajudam a disseminar o bolsonarismo nas bases.
Fato é que a força dos pastores que se assumem de esquerda é reduzida, e Lula ainda precisa furar essa bolha se quiser ganhar mais espaço nas igrejas.
Para tanto, sua campanha não descarta diminuir os decibéis para pautas identitárias e focar a economia, repetindo avanços da era petista —mais emprego e renda, menos fome e pobreza, faculdades mais acessíveis etc.

Conquista de evangélicos deve esbarrar em projeto polêmico
A manobra de Lula da Silva em direção aos evangélicos fatalmente deve esbarrar em uma de suas propostas mais polêmicas: a regulamentação da mídia. Esta é uma ideia amplamente defendida por cardeais do lulopetismo, a exemplo de Gilberto Carvalho, ex-chefe de gabinete de Lula. E é uma pauta ferozmente repelida pelos barões das telecomunicações no País, boa parte deles donos dos púlpitos e das igrejas mais poderosas.
É importante lembrar que a presença religiosa no sistema brasileiro de mídia é crescente desde os anos 1980, principalmente na radiodifusão. A maioria pertence à lideranças religiosas – todas cristãs, dominantes no Brasil. O Grupo Record, formado hoje pela RecordTV, a RecordNews, o Portal R7 e o jornal Correio do Povo, entre outros veículos não listados na pesquisa, pertence desde 1989 ao bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Os bispos da IURD possuem também, desde 1995, emissoras de rádio, como as que formam a Rede Aleluia, de grande audiência.
Embora saiba disso, Lula continua pressionando o PT a retomar debate sobre regulação da mídia.
Aliás, a imprensa foi o alvo principal do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando ele se levantou para discursar no palco do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em janeiro de 2020, num evento organizado pelo PT para marcar os cinco anos do impeachment de sua sucessora, Dilma Rousseff.
O líder petista começou reclamando da ausência de emissoras de televisão no local, mencionou as críticas que lhe fazem quando fala em regulamentar os meios de comunicação e por fim queixou-se do tratamento recebido de jornais, revistas e TVs quando a Operação Lava Jato estava no seu encalço.
Citando um novo livro lançado pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, Lula mostrou contrariedade. “Aqui não tem um capítulo do papel da imprensa no golpe”, observou, referindo-se ao impeachment de Dilma. “A gente está coagido a não mexer com a imprensa. É melhor apanhar e ficar quieto.”

Lula “evangélico” luta por eleitor mais conservador do que a lacração imagina
Enquanto a patrulha identitária xinga os evangélicos o dia inteiro, Lula precisa deles e já pediu até para não chamar mais de gado.
*Por Madeleine Lacsko
Há muitos anos, candidatos buscam voto no público evangélico. A questão é matemática, falamos aqui de cerca de 65 milhões de brasileiros, 31% da população (de acordo com estimativa do Instituto de Pesquisa Datafolha em 2020; no Censo do IBGE de 2010, eram 42,3 milhões de pessoas). A lacração imagina que pastor manda em voto, não é o que mostram as pesquisas. O público evangélico preocupa-se com a pauta de costumes e quer ver compromisso dos candidatos com o tema.
Jair Bolsonaro não conquistou o público evangélico com o comportamento pessoal ou com a fé, mas declarou desde o minuto zero que seria linha dura na pauta de costumes. Lula, que também é católico, quer conquistar os evangélicos. Se a porta de entrada de Bolsonaro foi a mulher, a de Lula foi a cadeia. No final de semana, o ex-presidente já disse que viu muito culto na prisão e que o PT não pode tratar evangélico feito gado. Oremos.
Ah, mas não devemos resolver os problemas das minorias? Enfrentar o racismo? Tornar a vida mais fácil para quem tem deficiência? Claro que sim, ocorre que não é essa a pauta da patrulha identitária. Resolver não está nos planos. A patrulha quer apenas o poder de cancelar pessoas com a justificativa de que são racistas. Também quer ganhar espaço ignorando a realidade e a individualidade, colocando todas as pessoas em caixinhas que ela mesma inventa.
Nos últimos 20 anos, a esquerda
populista mudou seu foco. Antes fazia
a defesa da classe trabalhadora, agora
foca em "minorias". O Lulinha paz e
amor de 2002 defendia alçar ao poder
pela primeira vez a "classe
trabalhadora brasileira" e a militância
petista fazia esse discurso. Agora, a
militância intelectual e metropolitana
converteu-se em patrulha identitária.
Para candidaturas ao legislativo é
ótimo, o pessoal cresce na polêmica. E
para o Executivo? Lula
Essa mudança de rumos da esquerda progressista, que tirou o foco dos direitos da classe trabalhadora para mergulhar na pauta de costumes, acaba interferindo no eleitorado. Antes disso, qualquer candidato podia pedir o voto evangélico, a disputa da pauta de costumes não era o centro do debate nem o mais importante. Hoje não. Tem gente que perde emprego por questionar personagem de quadrinhos, por pressão da militância de esquerda. Natural que o eleitor conservador pense que os políticos cederão como cedem empresas e mídia.
A pesquisa sobre eleições presidenciais feita em agosto pela Quaest/Genial investimentos mostra um petismo muito diferente dos estereótipos, ainda ligado à esquerda que focava na defesa da classe trabalhadora brasileira, que é majoritariamente conservadora. A terceira via pode até ser mais liberal nos costumes que o bolsonarismo e o lulismo, mas também não é totalmente liberal.
Lulistas são mais conservadores que a terceira via em assuntos como aborto, racismo e feminismo. Entre os prováveis eleitores petistas:
89% defendem a maioridade penal aos 16 anos de idade
65% defendem o resgate do patriotismo
62% dizem que é normal pais baterem nos filhos
38% dizem sentir-se incomodados com demonstrações públicas de afeto de gays e lésbicas
A patrulha identitária é minoria até no petismo, mas suas teorias rapidamente viram axiomas na imprensa e na publicidade. Parece apenas uma crise de descrédito da imprensa por estar apartada da realidade e confinada em uma bolha ideológica, mas é ainda mais grave. Essa movimentação influencia toda a cultura: filmes, músicas, livros, moda e até o que se faz em sala de aula. Pela intimidação, as ideias dessa patrulha acabam sendo tratadas como o novo normal.
Ocorre que falamos de movimento iliberais, dispostos a legitimar quem debocha de tudo o que é importante e até sagrado para o cidadão brasileiro. Meter-se em quais são os valores de alguém e destruir a vida dos que recusam-se a uma “conversão” é coisa que se vê diariamente. A influência chega ao cotidiano, à forma como tocamos a rotina e a dinâmica familiar. Diante da ameaça de cancelamento a quem não cede, o cidadão busca compromisso de quem tem autoridade.
Existe uma discrepância gigantesca
entre o Brasil retratado pela mídia e a
realidade. Você sabe o que os lulistas
pensam sobre a pauta identitária,
aborto, cotas raciais, maioridade penal
e lei da palmada? Não é nada do que a
lacração prega de manhã, de tarde e de
noite. Lula sabe que o brasileiro é
conservador e não há como se eleger
sem colocar limites ao autoritarismo
da patrulha identitária. O eleitorado
petista é mais conservador até do que a
terceira via.
Lula quer a criação de um “momento evangélico” nas mídias do partido e pensa em suavizar a pauta identitária para retomar a situação que já teve nas campanhas de 2002 e 2006. Antes dessa forma de ganhar poder político por meio de grupos de pressão em redes sociais, a militância identitária focava em conquistar direitos, então não era obstáculo aos evangélicos. Agora que o foco é em silenciar discordantes e cancelar pessoas, a coisa mudou de figura.
Pode ser que dê certo? Sim, tanto Lula quanto Dilma chegaram ao poder com apoio de todos os líderes evangélicos xingados diariamente hoje pela militância petista. A diferença é que eles não eram xingados o dia inteiro pela militância petista naquela época. E também a patrulha identitária não passava o dia todo perseguindo evangélico e debochando da Bíblia na internet. Isso daí pode ser que não tenha pegado muito bem com os crentes.
E tem outro fator também, o de brincar com Deus. É preciso ter cuidado com o que pedimos porque pode ser que Ele atenda. Na campanha de reeleição, Dilma falou de Estado laico na Assembleia de Deus citando um salmo de Davi. “O Estado é laico, mas feliz é a nação cujo Deus é o senhor”. Eduardo Cunha encerrou um outro cultomício na mesma igreja pedindo que “Deus tenha misericórdia desta nação”. Deus levou os dois a sério e atendeu.
*É jornalista desde a década de 90. Foi Consultora Internacional do Unicef Angola, diretora de comunicação da Change.org, assessora no Supremo Tribunal Federal
Edição: Emanoel Reis
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