Por mais que as pesquisas pareçam selar os destinos de Lula, Bolsonaro, Moro, Ciro e Doria, os pleitos de 2010, 2014 e 2018 evidenciam que os cenários podem sofrer mudanças na reta final
Pesquisas de intenção de voto, como se repete no mundo político, são “retratos do momento”. O histórico de campanhas anteriores ajuda a demonstrar essa percepção. Não é raro assistir ao “sobe e desce” de pré-candidaturas ao longo de meses de campanha — a oficial começa apenas no segundo semestre de 2022, mas, na prática, o debate já começou e se intensifica com as negociações em torno de alianças. Um exemplo de reviravolta é o próprio presidente Jair Bolsonaro, que tinha menos de 15% das intenções de voto a um ano das eleições de 2018.

Entretanto, nunca houve uma reviravolta de candidatos que tenham começado o ano abaixo dos 10% nas pesquisas. Em entrevista, o cientista político Antonio Lavareda afirmou:
Não temos histórico de candidato presidencial exitoso no Brasil que não tenha ingressado no ano da eleição com o patamar de dois dígitos
— Antonio Lavareda/Cientista Político
Até 2010, pesquisas com mais de um ano de antecedência eram mais raras.
Acompanhamentos quase mensais começaram a ser comuns a partir daquele ano. Relembre os cenários a cerca de um ano do pleito e compare com o resultado final nas corridas presidenciais e as principais reviravoltas.
2010
Até abril de 2010, o candidato favorito para vencer as eleições daquele ano era José Serra (PSDB). Em dezembro de 2009, o tucano chegou a ter vantagem de 46% contra 21% de Dilma Rousseff (PT), segundo pesquisa Vox Populi. À época, o presidente do País era Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e Dilma, embora tivesse passagem pelo governo como ministra de Minas e Energia, não era um nome muito conhecido pela população.
A petista começou o ano da eleição tendo a preferência de pouco menos de um terço da população e passou a sair na frente de Serra a partir de maio. Afinal, foi eleita com 56% dos votos válidos.

2014
Em outubro de 2013, o ex-senador Aécio Neves (PSDB-MG) aparecia com 14% das intenções de voto em pesquisa do Ibope. Em fevereiro de 2014, o mineiro estava empacado em um índice muito próximo, apesar de ligeiramente maior: 17%, segundo o Datafolha. Dilma tinha vantagem ampla e aparecia com 47%. Em outubro daquele ano, porém, o tucano chegou ao segundo turno e perdeu para Dilma por um resultado acirrado de 51% a 48%.
A ex-ministra do meio ambiente figurava melhor que Campos em pesquisas feitas em 2013. No Ibope, por exemplo, uma substituição do ex-governador por Marina mudava o índice de 10% para 21%. Cogitava-se que ela pudesse chegar ao segundo turno no pleito de 2014, o que não ocorreu.
2018
Em outubro de 2017, a um ano das eleições que elegeram o presidente Jair Bolsonaro, o preferido para a disputa do ano seguinte era o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). À época, o petista tinha 35% de preferência e Bolsonaro, apenas 13%, segundo pesquisa do Ibope.
No cenário sem Lula — já existia a possibilidade de ele ficar inelegível devido às condenações da Lava Jato —, Bolsonaro empatava com Marina Silva, ambos com 15%.
Bolsonaro cresceu em 2018 com uma campanha intensa nas redes sociais e chegou ao pleito com favoritismo contra o adversário Fernando Haddad (PT). Por fim, as urnas apontaram a vitória do atual presidente, que obteve 55% dos votos válidos no segundo turno. Haddad, substituto de Lula após o TSE barrar a candidatura do ex-presidente com base na Lei da Ficha Limpa, ficou com 44%.

As pesquisas eleitorais de intenção de voto nos EUA. Por que os números não refletem a realidade?
* Luiz Guedes da Luz Neto
Há algum tempo venho me perguntando por que as pesquisas de intenção de voto são tão díspares e quase não refletem a realidade declarada pelas urnas quando da apuração dos votos. Acontece no Brasil, com institutos de pesquisa apresentando números diversos entre si. O mesmo aconteceu nos Estados Unidos da América durante a campanha presidencial de 2016, com a maioria das pesquisas apontando a vitória da candidata Hillary Clinton, e, em determinados momentos da corrida eleitoral, com vantagem folgada em cima do candidato Donald Trump.
Seria a divergência das pesquisas fruto da adoção de diversas metodologias pelos variados institutos de pesquisa? Seriam os institutos de pesquisa realmente independentes para a realização da pesquisa eleitoral? As pesquisas de intenção de voto estão para tentar desenhar o cenário de acordo com as respostas dos pesquisados ou para tentar influenciar o eleitorado com as suas “informações”? Qual será a fonte financiadora das pesquisas? Será que a fonte de custeio desses institutos teria ligação com algum partido político ou grupo de interesse específico que apoia determinado candidato? Eis aí algumas das perguntas que poderiam se tornar objeto de pesquisa pelos interessados em ciência política, ou áreas afins, com o objetivo de compreender, mesmo que de forma parcial, o jogo de forças travado durante as campanhas eleitorais.
Parece ser um fenômeno mundial a falta de bons líderes nas campanhas eleitorais. Não se vislumbra mais, nos candidatos, aquele perfil de homem público capacitado para gerenciar as questões governamentais em prol dos cidadãos, com habilidade de mediar de forma eficiente os interesses dos diversos grupos de interesse que, dentro da dinâmica natural democrática, pleiteiam, junto aos órgãos estatais de decisão, a adoção dos seus pleitos.
Ainda é muito cedo para se dizer o que acontecerá aos EUA e ao mundo com a eleição de Donald Trump. Não acredito que ele fará muito do que prometeu, pois o presidente da república necessita do apoio do seu partido tanto no Senado quanto na Câmara dos Representantes (Câmara dos Deputados) para a adoção e promoção de uma agenda governamental. E muitas das suas propostas não encontraram ressonância nos membros do seu partido durante a campanha. Desta forma, o Poder Legislativo da União funcionará dentro daquela dinâmica apresentada por Montesquieu na sua clássica tese da separação dos poderes, opondo-se às eventuais políticas exageradas ou danosas, servindo de freio e contrapeso ao Poder Executivo.
Durante a campanha eleitoral Trump se indispôs com grande parte do Partido Republicano, porém, para governar, terá de se articular com o seu partido, que tem maioria nas duas casas legislativas, para conseguir ter governabilidade, o que exigirá concessões às exigências dos membros do partido com assento no parlamento norte-americano. Como se pode perceber, apresentei perguntas sobre as pesquisas eleitorais. Não tenho as respostas para elas nesse momento, mas espero ter sido capaz de despertar nos leitores a curiosidade de buscar elementos que possam responder às questões apresentadas, e termino com a seguinte pergunta: as pesquisas de intenção de voto são realmente pesquisas ou são uma propaganda eleitoral disfarçada?
* Advogado e Mestre em Direito Econômico pela UFPB

Edição: Emanoel Reis
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