Chuvas intensas e alagamentos em Macapá podem ser resultados de mudanças climáticas

Cientistas alertam sobre a forte chuva que desabou sobre a capital amapaense na noite de quinta-feira, 21 de abril. Para eles, é o resultado de profundas alterações no clima mundial

Como será o mundo se as coisas continuarem sendo como são? Se metas e compromissos firmados não forem cumpridos? Por quanto tempo o planeta será habitável? Esses são questionamentos que podem gerar inúmeras reflexões e cujas respostas podem não ser tão imediatas. Mas, uma coisa é certa: como apontam cientistas e pesquisadores, as mudanças climáticas, caso não sejam vistas com a devida atenção, vão afetar, e muito, a vida das gerações futuras.

No início de abril de 2022, um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) revelou que as emissões globais médias de gases de efeito estufa bateram recorde e atingiram os níveis mais altos da história. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), as emissões aumentaram 12% entre 2010 e 2019, gerando 59 bilhões de toneladas de gases emitidos.
Caso as emissões sejam mantidas, afirma o documento, o aquecimento global médio pode chegar a 3,2 °C até 2100, mais que o dobro da meta prevista no Acordo de Paris, aprovado em 2015, que tem como um dos objetivos limitar o aumento de temperatura a 1,5ºC.


Como explica o meteorologista Geber Barbosa, o aquecimento é fruto de vários fatores. “O aquecimento global tem a ver com o aumento dos gases de efeito estufa, que são basicamente o gás carbônico, o metano. A poluição contribui e isso também está relacionado com indústrias pesadas e com as matas, as florestas, sendo queimadas”, disse.
É importante, acrescenta Barbosa, também pensar e agir em âmbito local, reduzindo, por exemplo, práticas nocivas a vegetações regionais: “Quando você vai para áreas de seca extrema, você percebe que já há um aumento de temperatura. Isso ocorre devido ao desmatamento daquela região e é muito importante proteger o solo”.
A longo prazo, uma das consequências das mudanças climáticas é o aumento das chuvas, com temporais de alta intensidade.

A gente já está sentindo esse efeito. A gente percebe, nos dados que a gente tem monitorado, que a quantidade de chuva acima de 100 milímetros está sendo mais frequente nesta década do que na década de 1960, por exemplo. Isso também está associado tanto a questões climáticas globais, como também a questões climáticas locais.

— Thiago do Vale/Meteorologista

Em março, inclusive, Macapá registrou elevados níveis de chuva, com volumes acima do esperado para o período, e há chances de as tempestades mais intensas se tornarem ainda mais frequentes.
O aumento da temperatura, alerta o meteorologista, além de ampliar a frequência de chuvas mais intensas, pode também reduzir a quantidade de chuvas regulares, essenciais para a vegetação e abastecimento de reservatórios, e ocasionar estiagens mais duradouras.

Você vai ter períodos mais longos sem chuva, mas quando tiver a possibilidade, elas serão chuvas com mais intensidade, então a gente não terá uma regularização. Isso vai provocar mais problemas de alagamentos, transbordamentos de canais, enchentes em áreas de ressacas, milhares de pessoas desalojadas.

— Thiago do Vale

Além disso, somando-se ao aumento da água nos rios e córregos, o cenário tende a ficar mais grave: “Quando a gente tem o aumento do nível dos rios, junto com a maré alta e chuvas intensas, basicamente essas águas ficam armazenadas na cidade, causando alagamentos e interrupções”.
As consequências do aquecimento, alerta, podem, ainda, aumentar a necessidade de água necessária em plantações e ampliar os casos de doenças causadas por vetores (como mosquitos). “Quando a gente fala em aquecimento não é só a temperatura aumentando. O problema é justamente as consequências que a temperatura vai causar no sistema. A nossa vida inteira basicamente é adaptada ao clima que a gente tem”, pontuou.
Apesar dos índices preocupantes, o relatório das Nações Unidas também trouxe dados positivos, como a desaceleração de 0,8% na emissão anual de gases, comparando as duas últimas décadas analisadas. Segundo o IPCC, a taxa de crescimento anual diminuiu, de uma média de 2,1%, entre 2000 e 2009, para 1,3%, entre 2010 e 2019.
O painel considera essencial uma ação célere para a mitigação dos impactos gerados pelas mudanças climáticas, favorecendo o desenvolvimento sustentável. Seria necessário, por exemplo, diminuir o desmatamento e investir em estratégias e tecnologias voltadas para a produção de energia verde, a partir de matrizes limpas e renováveis, como as energias solar e eólica.

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Aldair Santos, coordenador da Defesa Civil de Macapá, externou seus queixumes quanto a ausência de alerta sobre o que chamou de “fenômeno”, referindo-se ao temporal que desabou sobre a cidade na noite do feriado de Tiradentes. O próprio prefeito Antônio Furlan foi para as ruas acompanhar os trabalhos de resgate de pessoas que ficaram “ilhadas” em vários pontos da área comercial, e e orientar pessoalmente os atendimentos às famílias atingidas pelas enchentes.




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