Piratas da Amazônia, o crime organizado no rio mais extenso do mundo

Os seus alvos preferenciais são barcos que transportam combustível e produtos eletrônicos

Centenas de quilómetros de rios e afluentes dentro da maior floresta do mundo, a Amazónia, são a principal via de transporte no norte do Brasil onde estradas de terra são raras dadas as características geográficas da região. Nos últimos anos, porém, tripulantes e passageiros que antes viajavam tranquilos nos barcos tornaram-se vítimas de grupos criminosos que ficam à espreita em busca de uma oportunidade para atacar.

Os seus alvos preferenciais são barcos que transportam combustível e produtos eletrônicos fabricados no polo industrial da cidade de Manaus, capital do Estado do Amazonas, embora também existam registos de assaltos a embarcações de passageiros.
“O que denominamos de pirataria da Amazónia são saques realizados nos rios da região por quadrilhas que estão a especializar-se neste tipo de delito. Os crimes acontecem, principalmente, na linha Belém-Manaus [cidades que são, respetivamente, as capitais dos estados do Pará e do Amazonas] na qual se transportam muitas cargas de combustíveis e produtos eletrônicos”, explicou Claudomiro Carvalho Filho, vice-presidente do Sindicato das Empresas de Navegação Fluvial no Estado do Amazonas (Sindarma).
“No transporte de combustíveis contabilizamos uma perda anual de 100 milhões de reais”, assinala Carvalho Filho.


Em novembro do ano passado, um grupo de piratas realizou o maior roubo já registado no Norte do país, desviando, de uma vez só vez, 640 mil litros de gasolina de uma embarcação que estava no porto de Manaus. Causaram um prejuízo de dois milhões de reais.
O delegado Adriano Felix, titular da Delegacia Especializada em Roubos Furtos e Defraudações (Derfd) de Manaus contou que este tipo de ataque acontece, geralmente, de madrugada e que os criminosos utilizam barcos pequenos e velozes para se aproximar de embarcações cargueiras mais lentas, em pontos isolados.
“Os crimes são praticados por grupos formados por cerca de cinco a seis pessoas que têm funções distintas. Uns sabem encostar barcos pequenos nas embarcações maiores, outros rendem os tripulantes, aos quais se juntam aqueles que trabalham nas empresas assaltadas e passam as informações para o planeamento do ataque. [Os piratas] atacam como uma associação com vários braços”, explicou.

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Os principais cursos de água da região Norte do Brasil onde estes criminosos atuam são no Rio Solimões, nas proximidades da cidade de Coari, o Rio Negro, na orla de Manaus, o Estreito de Breves no Pará e num trecho do Rio Madeira, entre a cidade amazonense de Itacoatiara e a cidade de Porto Velho, capital do Estado de Rondónia.

Rios são principal meio de transporte na Amazónia brasileira

Segundo um relatório sobre a Caracterização da Oferta e da Demanda do Transporte Fluvial de Passageiros e Cargas na Região Amazônica produzido pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antac) do Brasil, pelos rios da Amazônia foram conduzidos cerca de 9,8 milhões de passageiros e 3,4 milhões de toneladas de cargas.
Em relação às cargas que passaram pelas linhas interestaduais da Região Amazônica o mesmo relatório estimou que em 2021 foram transportadas 822,4 mil toneladas de produtos. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Aquaviários do Amazonas (Sintraqua), Rucimar Souza, confirmou que a pirataria se tornou um problema alarmante com registo de alguns casos de morte de trabalhadores.

“Recentemente contabilizamos, pelo menos, quinze assaltos que terminaram com a morte de algum tripulante. Nos últimos meses não temos tidoh registos de mortes, mas as agressões sofridas pelas tripulações dos barcos atacados por piratas são pesadas. Eles são ameaçados e apanham muito”, relatou.
Lembrou também alguns roubos a barcos de passageiros que aconteceram no Rio Negro e no Rio Solimões. “Nestes dois rios há muitos assaltos a barcos de passageiros. Os piratas levam, geralmente apenas os pertences dos passageiros. Não levam a carga. Ficam com os celulares, dinheiro e as bolsas. Este tipo de pirataria é mais leve, sem agressão física”, disse.


Claudomiro Carvalho Filho, do Sindarma, lembrou que a falta de policiamento incentiva a ação dos criminosos nos rios da região da Amazônica. “Existem poucos polícias a atuar na vastidão da Amazónia (…) As quadrilhas estão especializadas e aumentam o volume dos delitos. Precisamos de mais polícias nos rios e, principalmente, de polícias que usem a inteligência. É preciso mapear quais são as quadrilhas, onde atuam, quem são os comerciantes que vendem os produtos roubados. Se não fizermos isto não vamos vencer essas quadrilhas”, avaliou.

O delegado Adriano Felix explicou que a Polícia Civil é responsável pela investigação dos crimes de roubo, mas a falta de efetivos atrapalha no apurar da investigação dos casos.
“Existem delegacias em todas as cidades da Amazônia, mas o número de polícias é pequeno”, reconheceu, lembrando, contudo, que além de contratar mais polícias é preciso que o resto do Brasil tenha um olhar mais dedicado para a Amazônia, porque é uma região que faz fronteira com vários países.
“A nossa regiào é muito grande, o efetivo policial é muito pequeno. Nas nossas fronteiras percebemos a entrada de armas e de drogas. Por isso, toda ação requer um planeamento e uma atenção maior porque é uma porta de entrada para o resto do país. Somos vizinhos de grandes produtores de drogas como o Peru e a Colômbia, e de vendedores de armamentos como a Venezuela. Isto ajuda e fortalece a ação da criminalidade na região, que acaba por conseguir os meios para praticar roubos das cargas de navios”, concluiu.




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