Um motorista embriagado, a via estreita, com calçadas irregulares, tomadas por veículos mal estacionados e detritos atirados pelos próprios moradores, causaram a morte de um pai de família
Pode ter sido mais um atropelamento fatal provocado por motorista embriagado ao volante e sem habilitação, mas a morte do carpinteiro Edlei Ferreira Veiga, de 41 anos, após uma semana internado no Hospital de Emergências, certamente foi resultado do descaso do poder público com o processo descontrolado de urbanização de Macapá. Esta conclusão não é aleatória. Sua base teórica provém da obra “Planejamento Urbano Regional no Estado do Amapá”, que tem como organizador o professor da Universidade Federal do Amapá, José Alberto Tostes.


No artigo “Os desafios da inclusão social entre a cidade e o edifício na cidade de Macapá”, produzido por ele, em parceria com a Mestre em Desenvolvimento Regional, Simone Dias Ferreira, o destaque fica por conta da “(…) evidente […] discrepância nos investimentos públicos em Macapá”, resultando em formações urbanas irregulares.
Foto: Emanoel Reis

Edlei Ferreira Veiga, sua esposa e os três filhos deixaram a igreja onde haviam participado da cerimônia de celebração do Domingo de Ramos, 10 de abril, e seguiam pela rua Maria Marola Gato, bairro Jardim Marco Zero, zona sul de Macapá. Trata-se de uma via estreita, margeada por calçadas irregulares, com boa parte de sua extensão ocupada ilegalmente por veículos estacionados sobre o que deveria ser o meio-fio. A família conhecia bem o percurso, e os riscos existentes por conta do tráfego intenso e da necessidade de contornar carros e detritos amontoados ao longo do percurso.


Um vídeo obtido pela polícia e apresentado à Imprensa mostra o momento em que o carpinteiro segue atrás de sua esposa no instante em que saí de um trecho da calçada para ultrapassar um carro estacionado às proximidades. Este foi o momento do acidente.


Aliás, desde 1769, quando o primeiro carro foi inventado, os pedestres vêm perdendo espaço nas ruas para os inúmeros veículos que não param de entrar nas cidades. “As calçadas passaram a ser projetadas de acordo com a necessidade dos automóveis. Em ruas estreitas e com ladeiras, as calçadas são niveladas para a entrada dos carros nas garagens, e o pedestre tem que enfrentar desníveis, degraus e rampas de má qualidade para se locomover”, assinala o pesquisador Paulo Saldiva, professor titular da Faculdade de Medicina da USP.
Nesse mesmo diapasão, o professor do Departamento de Transportes da Universidade de São Paulo (USP), Antônio Nelson da Silva alerta sobre o avanço dos carros sobre as calçadas. “O pedestre está ficando sem espaço para locomover-se livremente. É cada vez mais comum o uso de barreiras metálicas ou de concreto nas calçadas em frente a casas e lojas. O problema é que esses obstáculos não são permitidos pelo Código de Trânsito Brasileiro.”

Aí está o xis da questão. Todos estão perdendo nessa acirrada disputa travada diariamente entre pedestres e carros. No entendimento de Tostes e Ferreira, “(…) Nesse cenário de ocupação desordenada e a gestão desigual do espaço a perda de qualidade de vida urbana torna-se concreta trazendo à tona a necessidade de se estabelecer princípios capazes de garantir o bem-estar social a todos os moradores da cidade.”

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