Foto: Divulgação/Exército
Militares sugerem ameaça da China ao Brasil via Guiana Francesa e insistem na conspiração do ‘globalismo’. As ‘previsões’ constam do ‘Projeto de Nação’, criação dos institutos Villas Bôas, Sagres e Federalista
O Alto Comando das Forças Armadas recentemente lançou documento intitulado “Projeto de Nação: O Brasil em 2035”, produzido pelos institutos Villas Bôas, Sagres e Federalista onde aponta ameaça de invasão da China ao Brasil pela fronteira da Guiana Francesa com o Amapá.
Em uma seção dedicada a um suposto relatório de conjuntura datado de setembro de 2035 (é isso mesmo: 2035), os militares mencionam conflitos entre Estados Unidos e aliados, de um lado, e China e Rússia, de outro, “tendo como palco a Guiana e sua produção de ouro e, especialmente, de bauxita”.

No documento, os militares desenham um possível conflito mundial em que “a potência oriental (China), controlando vastas áreas de mineração da Guiana, e com um amplo processo de produção predatória para o meio ambiente, tem por objetivo atingir a liderança do mercado mundial, dominado pela Austrália”.
De acordo com o “Projeto de Nação: O Brasil em 2035”, parte da região Norte do Brasil (área da Amazônia Legal onde situa-se o Amapá) pode se tornar domínio chinês caso o governo brasileiro, leia-se Forças Armadas, negligencie a segurança militar na fronteira Amapá-Guiana.
No mesmo capítulo, os militares também argumentam ser “visível a união de esforços entre determinadas entidades nacionais e o movimento globalista, inclusive com o apoio de relevantes atores internacionais”.
Projeto foca montagem de política estratégica de defesa
Formatado com base em previsões estratégico-militares, o documento refere-se aos avanços que serão obtidos pelo Brasil graças a um denominado “Centro de Governo”, formado pelas organizações militares e civis que apoiam o plano, centrado na criação de uma “Estratégia Nacional (EN)” em “meados da década de 2020”.
Este Centro de Governo, segundo os militares, “foi um dos fatores que possibilitou ao Brasil ingressar na OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), em meados da década de 2020”. O Brasil não é membro da OCDE.
Também haverá, segundo o Projeto de Nação: O Brasil em 2035, um “Sistema Integrado de Gestão Estratégica (SIGE-BR)” para implementar a “Estratégia Nacional (EN)”.

A Guiana Francesa é um território localizado na América do Sul que faz fronteira com o estado do Amapá, cortado pela linha do Equador apresenta elevadas temperaturas. Desde 19 de março de 1946, a região figura como um departamento ultramarino francês. Isso significa que o mesmo é um território subordinado à França, por isso, integra a União Europeia, mesmo estando na América do Sul. As principais relações comerciais ocorrem quase que exclusivamente com a França, exportando, sobretudo, madeira e pescados. A principal cidade, e também capital da Guiana Francesa, é Caiena.
Documento semelhante foi tratado com desdém em 2020
POR DENISE CHRISPIM MARIN
Em fevereiro de 2020, a embaixada francesa em Brasília tratou como “imaginação sem limites dos autores” outro documento intitulado “Cenário da Defesa 2040”, que teria sido formulado pelo Ministério da Defesa. Na ocasião, afirmava que a única ameaça militar contra o Brasil vinha da França. O tom da minuta provocou mais acidez entre as relações bilaterais, à época contaminadas pelo episódio dos incêndios na Amazônia em 2019.
O fato é que o Brasil é nosso principal parceiro estratégico na América Latina e que a França conserva, há décadas, relações de cooperação diárias, estreitas e amigáveis com as Forças Armadas brasileiras
— Nota Oficial/Embaixada Francesa
Conforme noticiado em 2020, a minuta sigilosa foi elaborada com base nas visões de 500 entrevistados colhidas em 11 reuniões organizadas pela Escola Superior de Guerra (ESG) no segundo semestre de 2019 para traçar futuros desafios para a segurança nacional. Um dos cenários traçado no documento, segundo a Folha, diz respeito a um pedido da França de intervenção na Reserva Ianomâmi a ser feito em 2035. Dois anos depois, Paris posicionaria suas Forças Armadas na Guiana Francesa, território ultramarinho francês vizinho do Brasil.

Outras previsões não factíveis, senão espantosas, foram a instalação de bases dos Estados Unidos no Brasil e a contaminação do Rock in Rio de 2039 por um surto de coronavírus. A Argentina, potencial fonte de conflito com o Brasil em épocas passadas, apareceu como um risco superado.
O embaixador Rubens Barbosa, diretor do Instituto de Relações Internacionais e de Comércio Exterior (Irice), também ironizou. “É uma bobageira, coisa de amador. Como a França vai ser confrontacionista se é o maior parceiro estratégico do Brasil na área de defesa?”

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