Poeta encontra nos dejetos da sociedade a inspiração para criar verdadeiras obras-primas

“Deus devolve o revólver”

Com o livro “a nova utopia” (Quatro Cantos, 2022), o poeta Régis Bonvicino dá sua contribuição mais recente à literatura. E também para expressar o tempo social que estamos vivendo. Uma era globalizada, de desigualdades crescentes e naturalizadas, de miséria e de mendigos, decadência e desesperança no Brasil e no exterior. Tudo isso aflora em cada página de escrita seca e racional, mas sensível, com a escolha cuidadosa das palavras.
O sentido geral do livro é de falência e desolação. O palco preponderante é o espaço público urbano degradado; os mendigos afloram como atores principais que não atuam; nos bastidores, os novos utopistas desfilam seu moralismo bem-comportado. O poeta, deslocado, escreve e dirige a peça.

Bonvicino vê a arte e a cultura no cotidiano duro das pessoas, e o traduz na contramão do sentimentalismo etéreo. Ele pretende fugir do “clichê do poema além da página/ decassílabo falso” (poema “A call to kill”). Registra a barbárie por toda parte, refletida nos países centrais e nos periféricos, como no poema “Notícia da Síria”. Espelhamento também no passado em distinto lugar, como em “Outro tempo espanhol”, que remete à guerra civil.

(…)

CLIQUE ACIMA E BAIXE LIVRO GRÁTIS
Álibi

por Régis Bonvicino

 
Oh, Pai, tende piedade
dos zilionários, dos vendedores legais de armas
dos lobistas, do dinheiro farto dos narcos
dos unhas de fome, dos gigolôs dos cassinos
dos traficantes de iguanas, rim e fígado

 
Oh, Pai, tende piedade
dos banqueiros, dos juros sobre juros,
do laissez-faire chinês, do marketing do bem
dos plutocratas, dos fundos-abutres
garras, o condor-dos-andes não canta

 
Oh, Pai, tende piedade
dos meões do dinheiro sujo dos contratos públicos
daqueles que depreciam os papéis de P.P. Pasolini
daqueles que lavam dinheiro com H. Matisse
misericórdia divina, delícia e êxtase dos santos

 
Oh, Pai, tende piedade
dos xeques, dos grandes proprietários de terra
daqueles que não entregam a lebre
dos traficantes de marfim, caveiras com dentes e pedras
da criptomoeda, dos chefetes políticos despóticos

 
Oh, Pai, tende piedade
dos traficantes de lixo eletrônico, dos agiotas
dos matadores de aluguel, dos guarda-costas
dos sócios ocultos, dos donos de offshores
Oh, Pai, sobretudo tende piedade de nosso honrado boss.




Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.