Desrespeito ou discriminação? Guiana Francesa trata brasileiros como turistas de segunda classe

Saint-Georges-de-l’Oyapock, na Guiana Francesa, faz fronteira com o Amapá – Foto: Heitor Salatiel



A Guiana Francesa é um território ultramarino francês, em plena América do Sul, que faz fronteira com o estado brasileiro do Amapá. Ao contrário da França, onde brasileiros apenas apresentam o passaporte para entrar, por aqui é preciso de visto para cruzar a fronteira. Até recentemente, a permissão era dada apenas na Embaixada em Brasília e nos consulados franceses de São Paulo, Recife e Rio de Janeiro. Agora passa a ser emitida em Macapá, a cada 45 dias.
O histórico de disputa da região rica em minérios, entre eles o ouro, parece fazer com que os franceses evitem os brasileiros no território guineense. Há também o fato desse “pedaço de Europa” em plena América oferecer condições melhores de saúde, educação e da chamada qualidade de vida. Além do medo dos franceses de uma maior conexão entre as localidades resultar em processos de luta pela independência do país.

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Um fato interessante é que a Guiana Francesa foi formada por pessoas negras que foram escravizadas e vieram da região da costa do marfim do continente africano para construir uma fortaleza no século 16. Hoje, cerca de 90% da população é negra, tendo também a presença de comunidades indígenas em sua extensão que fica na Amazônia, além de franceses brancos que ali vivem.
Ao todo, cerca de 300 mil pessoas habitam o território que tem Caiena como a capital. A cidade abriga casas coloridas da cultura crioula e mercados populares de rua. Entre as belezas naturais da região estão rios, cachoeiras, floresta amazônica e o Oceano Atlântico.
Além da Guiana Francesa, a França mantém Guadalupe e Martinica como colônias no continente americano. Nos três territórios a cultura e história crioula marcam a identidade local, assim como a língua crioula, de base francesa combinada com idiomas do oeste da África, que apresenta algumas diferenças em cada localidade. A culinária carrega traços fortes da diáspora africana com a cozinha crioula usando temperos vindos do continente, como amêndoas, canela e noz-moscada.
As cidades às margens do rio Maroni, na fronteira com o Suriname (ex-colônia holandesa) são as que mais preservam as tradições e arquitetura originárias do povo preto, como Saint-Laurent-du-Maroni. Na mesma região, Maripasoula e Papaichton são comunidades formadas por pessoas escravizadas que fugiram do vizinho Suriname e viveram livres no território guineense.

A história lembra que os franceses já disputaram com os brasileiros o território que hoje é o estado do Amapá. Enquanto a disputa não era resolvida, comerciantes franceses e guineenses que tinham se libertado da escravização fundaram a República Independente de Cunani. O novo país ocupava parte do que é o Amapá hoje, com tentativas de separação entre 1886 e 1912, não chegando a ser reconhecido pelo Brasil ou França, mas que teve até moeda própria.

A demora na inauguração é justificada pela falta de reciprocidade referente aos requisitos de visto para cidadãos brasileiros e franceses que entram no território um do outro (os franceses podem entrar no Brasil sem visto por até três meses, enquanto os brasileiros precisam obter um visto para entrar na Guiana Francesa, uma regra justificada pelo governo francês com base nos altos níveis de imigração ilegal por brasileiros que trabalham como garimpeiros na Guiana Francesa).


Brasileiros enfrentam burocracia enquanto franco-guianenses têm acesso facilitado

Ponte Binacional vista da margem francesa do rio Oiapoque — Foto: Silvano Mendes / RFI

Na ponte, apenas um dos lados se beneficia com sua estrutura. Carros e pessoas da Guiana Francesa acessam o Brasil tranquilamente, enquanto os brasileiros precisam passar pela burocracia para estar do outro lado. Por conta da conversão da moeda, há, por exemplo, guineenses que, diariamente, atravessam a ponte para almoçar do lado brasileiro.
É fato que os brasileiros também driblam as regras entrando ilegalmente no país ou mesmo matriculando seus filhos nas escolas do lado francês para após cinco anos fazerem o pedido de visto definitivo, o que faz com que 1/3 da população guineense seja de nascidos no Brasil.

Em Belém, que tem voos semanais da Air France para Caiena, também não há emissão de vistos. Os imbróglios burocráticos dificultam, nós, brasileiros, de conhecermos melhor a Guiana Francesa, uma região com povo que tem muita conexão e a mesma ancestralidade que nossa: a África!

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