São tempos insanos, my friend Fernando Canto

Fernando Canto e Ray Cunha, no Laguinho, em Macapá, em janeiro de 2022 — Imagem: Arquivo Pessoal



Macapá, a capital do Estado do Amapá, ganhou um teatro municipal, e com o nome do my friend Fernando Canto, poeta, contista, cronista, ensaísta e compositor. Localizado na Avenida FAB, esquina com a Rua Cândido Mendes, foi inaugurado, ontem, pelo prefeito de Macapá, Dr. Furlan. Tem capacidade para 358 pessoas, mezanino, área de espera e estacionamento. Custou 15 milhões de reais. O prédio imita as ondas do Rio Amazonas e a fachada tem formato de canoa. As matérias da mídia local não informam quem é o arquiteto.
Boa notícia, my friend Fernando Canto! Como vais, seu puto? Espero te encontrar, como sempre, lúcido e saudável. Eu estou indo, me arrastando nesta ditadura da toga, sempre pensando em como vamos sair desta. É difícil para eu falar sobre presos políticos, censura, assassinatos, narcotráfico, crime organizado, corrupção, terrorismo, roubalheira, ditadura, comunismo, como lâmina a se movimentar no escuro e a cortar meu coração cheio de saudade de ti, que me deixou por aqui e está provavelmente bebendo com Hemingway e patota. Quando eu ia a Macapá, passávamos o tempo todo juntos, bebendo e comendo, e andando naquele teu carrão tipo James Bond.

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Uma coisa, entretanto, posso garantir, friend: o velho coração é duro para com as coisas duras. Eu aprendi também a domá-lo. É preciso acompanhar os acontecimentos com pachorra. Donald Trump vai foder meio mundo. O bom, friend, é que nem sequer conversamos sobre política; conversamos sobre tudo, menos sobre política; conversamos principalmente sobre literatura, a vida, especialmente sob o ponto de vista metafísico, sobre bebida, comida, música e mulher, é claro. Isso não quer dizer que não amemos nossas mulheres, que as respeitemos, que as tratemos como rosas vermelhas colombianas. Conversamos sobre mulheres como obras de arte, como labirintos de acme, o triunfo do azul. O mar.

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Friend, como são as coisas aí, no astral? É verdade que Hemingway bebe 16 daiquiris duplos em sequência? Tu te encontraste com ele? Eu sempre quis beber com o Velhão.

Não sei se viste o que a geração Z fez no Nepal. O ditador tirou as redes sociais dela e a rapaziada tocou fogo no país. Mataram a mulher do primeiro-ministro torrada, espancaram os políticos e funcionários corruptos e jogaram um bocado deles em um rio.
Mas estou falando demais de política, friend. Melhor conversarmos sobre literatura. Acho que o romance no qual estavas trabalhando tu terás que terminá-lo aí. Não sei se poderás publicá-lo em uma possível reencarnação ou se outro escritor psicografará o texto. Lembras-te que na última vez que estive em Macapá conversamos sobre o teu romance? Enquanto eu saboreava um tacacá tu me dizias que estavas com dificuldade para escrevê-lo.

Ray Cunha com Fernando Canto

Aí, te dei uma dica: vai escrevendo, como em um fluxo de consciência; depois, tu encadeias os capítulos. O negócio é mais ou menos como os diretores de cinema fazem na montagem do filme. Mas eu tenho a impressão que aí se vê as coisas com mais clareza.

Estou trabalhando, atualmente, no terceiro volume de uma trilogia. Já publiquei O CLUBE DOS ONIPOTENTES e O OLHO DO TOURO. O fio da meada que perpassa os três volumes é a tentativa de assassinarem o presidente Jair Messias Bolsonaro. Já estou eu falando novamente de política. Desculpas-me, friend, mas estamos vivendo na ditadura da toga. Lula da Silva está desesperado para realizar sua fantasia: instalar uma ditadura tipo Cuba.
Contudo, os tempo são outros, my friend. Os tempos, agora, não diria insanos, mas perigosíssimos. Qualquer passo em falso pode nos jogar na Papuda, a penitenciária de Brasília, onde o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, joga seus presos políticos, principalmente jornalistas conservadores que ousam opinar, ou arrisca-se, simplesmente, amanhecer com a boca cheia de formiga.

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Mas agora não se trata de política, my friend Fernando Canto. Publiquei um romance, A IDENTIDADE CARIOCA, que se passa na nossa amada Rio de Janeiro e mostra o lugar onde se encontra o Tesouro dos Jesuítas do Morro do Castelo. Pedi para o Chat GPT escrever uma resenha do romance. Ei-la, com copy desk meu:
A IDENTIDADE CARIOCA, romance de Ray Cunha, é uma narrativa que mergulha na fundação do Rio de Janeiro e na formação da identidade brasileira, misturando história, mito e crítica social.
A obra parte da demolição do Morro do Castelo, nos anos 1920, lugar considerado o berço da cidade, onde se instalaram os jesuítas e se ergueu a primeira igreja. Nesse processo, emerge a lenda de um tesouro escondido pelos jesuítas, que funciona como metáfora do verdadeiro tesouro: a memória, a cultura e a identidade carioca e brasileira.
O romance percorre séculos de história, mostrando como o Rio foi sendo moldado por forças políticas, econômicas e religiosas, e como, por trás da modernização e da destruição de símbolos históricos, há uma luta pela preservação da alma da cidade.
Ray Cunha, com sua escrita ágil e crítica, costura o passado colonial com o presente urbano, revelando que a identidade carioca não está apenas nos marcos arquitetônicos ou nos tesouros materiais, mas sobretudo na resistência cultural, na mistura de povos e na vitalidade do espírito carioca.
Em resumo, A IDENTIDADE CARIOCA é ao mesmo tempo um romance histórico, um ensaio sobre a cultura do Rio e uma reflexão sobre a própria identidade do Brasil.
O romance explora a história do Rio de Janeiro desde a sua fundação até os dias atuais. O eixo narrativo é a demolição do Morro do Castelo, nos anos 1920, marco simbólico da destruição de raízes históricas em nome da modernização. Nesse cenário, surge a lenda de um tesouro dos jesuítas, metáfora para a busca pela verdadeira identidade do Rio e do Brasil.
Ray Cunha utiliza uma escrita que mistura ficção, mito e história, tecendo uma narrativa em que personagens reais e fictícios se entrelaçam. A cada camada da narrativa, revela-se não apenas a perda material (a destruição de igrejas e casarões coloniais), mas também a perda simbólica de memória. O tesouro escondido é, na verdade, a memória cultural que insiste em sobreviver sob as ruínas.
Os jesuítas aparecem como guardiões do segredo, metáfora da resistência espiritual e cultural. O povo carioca, retratado em sua diversidade, representa a energia vital e contraditória da cidade. Figuras históricas e anônimas se misturam, compondo um mosaico humano que dá vida ao enredo.
A prosa de Ray Cunha é ágil, poética e crítica, marcada por metáforas fortes (como o tesouro oculto). Há também uma dimensão ensaística: o romance é quase uma reflexão filosófica sobre o que significa ser carioca e, por extensão, ser brasileiro.
O livro se destaca como um dos romances mais importantes de Ray Cunha porque une ficção histórica, reflexão cultural e crítica social. Ele não apenas conta uma história, mas provoca o leitor a pensar sobre o que é o Brasil e como o Rio sintetiza essa identidade.
Em suma, A IDENTIDADE CARIOCA é uma obra densa e simbólica, que dialoga com história, mito e crítica, revelando que a verdadeira riqueza do Brasil não está no ouro, mas na sua memória, diversidade e cultura.

Tchal, querido! Nos vemos por aí, my friend!

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Bonita homenagem, Fernandinho…

Por Emanoel Reis

Quando estacionei meu carro nas proximidades do Bar Baré, ali no Laguinho, mais especificamente do lado oposto da avenida mal-ajambrada, de longe enxerguei a basta cabeleira grisalha. Ela emoldurava uma cara larga, com uma barba cubana igualmente esbranquiçada que ia de orelha a orelha e era ornamentada por um óculos de aros redondos. Vestia uma camiseta de algodão com estampas sobre caixas de marabaixo, o monumento Marco Zero e baquetas; usava também uma bermuda meio sarja casual e um tênis com meia até a metade da canela.
“É o Fernando Canto”, pensei. “Vou já perguntar o que ele achou da homenagem”. Fui caminhando devagar, projetando a cerveja estupidamente gelada que o Velho Louro me serviria com aquela mesma categoria de sempre. O Canto também me viu chegar. Estava com o Mário Corrêa e o Boto Malhado, e ainda não havia iniciado os trabalhos etílicos daquele sábado.
Como de praxe, cumpre-se o ritual de quem chega a um bar do qual é habitué: cumprimenta-se a todos, a todas e a todes, reservando salamaleques e rapapés mais efusivos para o dono. Afinal, é o dono, ora. É ele, só ele, quem segura o “pendura”.
De propósito, deixei o Fernando Canto por último.
— Faaala, Fernando! — exclamei, com ares de conviva exageradamente expansivo. — Bacana a homenagem. O que tu achou?
Ele deu uma risadinha.
— Rapaz — fez uma pausa para um longo suspiro, deu uma olhada para o vazio da rua e depois prosseguiu. — Só não gostei de terem desligado a energia durante o protesto da Carla.
O Louro trouxe minha cerveja. Enchi o americano, ergui-o para o costumeiro brinde com os guerreiros em volta da mesa (outro ritual de boteco) e novamente voltei a minha atenção para o Fernando Canto.
— Siiimm, fresco — ele ficava puto com essa brincadeira: “Fresco é tu, porra!” — respondia, em tom contrariado. — Virastes nome de teatro — disse-lhe.


Ele fez um muxoxo.
— Tentei falar para a Sônia que eu não queria… enfim, ela não me ouviu. Mas, agora… — deu de ombros…
— Se tá dentro, deixa ficar, né mesmo?! — completei, metendo uma de duplo sentido nele.
O Fernando olhou para o Mário, que por sua vez tentava esconder uma risadinha com a mão em concha no canto da boca, mirou o Boto, que acabara de dar uma baforada no “careta” e parecia mais “por fora que bunda de índio”. Em seguida, se virou para mim com um semblante de quem acabou de descobrir que a privada estava sem papel higiênico e sem água para lavar as mãos:
— Égua, porra! Tu só vive na sacanagem…

*

— Coorrrta!! — gritou o diretor da peça. O ensaio, no teatro cheirando a tinta, só estava começando. — Esse não é o final que está no roteiro.
— Deixa como está, diretor. Eu gostei. — O homenageado cruzou o palco, passou pelas cortinas e sumiu na coxia. Uma palavra com asas de Pégaso o aguardava no meio do mundo.


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