Comentários de analistas sugerem que a jornalista Malu Gaspar teria recebido uma notificação de Alexandre de Moraes, cujo tom beirava a coerção
O ano de 2026 inicia sob uma névoa de incertezas e um silêncio constrangedor que ecoa pelas redações do Brasil. O otimismo que costuma acompanhar os ciclos de renovação cedeu lugar a um sentimento de lamento e apreensão na área jornalística. O motivo central desse desânimo reside no desdobramento de um dos episódios mais controversos da história recente da imprensa nacional: o imbróglio envolvendo a respeitada jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, e figuras do topo da pirâmide do Poder Judiciário. O caso, que dominou as discussões no apagar das luzes de 2025, expôs uma ferida aberta na democracia brasileira, revelando a fragilidade da liberdade de expressão diante do que analistas e portais independentes classificam como uma escalada de intimidação institucional.

Tudo começou quando Gaspar publicou uma denúncia robusta envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e uma suposta ligação direta com o caso do Banco Master. A repercussão foi imediata e transbordou as fronteiras nacionais, atraindo os olhos da imprensa estrangeira para o que parecia ser um escândalo financeiro de proporções inéditas dentro da Suprema Corte. No entanto, o que se seguiu foi uma reviravolta que deixou a opinião pública atônita. Dias após a publicação, que chegou a ser endossada e repercutida por outros nomes de peso como Lauro Jardim, a jornalista recuou. Em um movimento interpretado por muitos como uma manobra de autodefesa, Malu Gaspar amenizou as críticas a Moraes e redirecionou o foco de suas investigações para outro magistrado, o ministro Dias Toffoli.

Nas redes sociais e em canais de jornalismo independente, a narrativa que ganha força é a de que esse recuo não foi voluntário ou fruto de uma correção de apuração. Comentários de analistas sugerem que a jornalista teria recebido uma notificação de Alexandre de Moraes, cujo tom beirava a coerção. A mensagem indicaria a possibilidade de processos por calúnia, difamação e, o mais grave, a imputação de crime de atentado contra o Estado Democrático de Direito. O que mais causou estranheza e revolta na classe foi a percepção de que a profissional, apesar de seu prestígio, não teria encontrado o respaldo necessário dentro de sua própria organização. O jornal que autorizara a publicação pareceu silenciar diante do risco de um confronto direto com o “todo-poderoso” ministro, evidenciando que, no cenário atual, o crachá de um grande veículo já não serve como escudo contra a caneta de um magistrado.

Essa crise de 2026 evoca fantasmas do passado que muitos acreditavam estarem enterrados. O jornalismo de investigação, pilar fundamental para a fiscalização dos três Poderes, parece estar sendo asfixiado por um novo tipo de censura, agora revestida de legalidade. Atualmente, a apuração de malfeitos por autoridades pode resultar não apenas em retaliação política, mas em ordens de prisão e acusações de violação constitucional. O paradoxo é cruel: sob o pretexto de proteger a democracia, cerceia-se o direito de informar, transformando magistrados em juízes e vítimas simultâneas de qualquer crítica, impedindo o livre exercício do escrutínio público sobre casos escabrosos e suspeitas de crimes financeiros na alta corte do país.

A atual conjuntura remete às memórias do jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto, ícone da resistência na Amazônia. Ele costuma narrar as dificuldades de ser correspondente do jornal O Estado de S. Paulo durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici. Naquela época, o exercício profissional era um campo minado pelo regime militar, tendo como um dos protagonistas o então ministro da economia, Delfim Netto, o “mago” do milagre econômico. Embora as eras sejam distintas, o paralelo traçado por observadores é inevitável: se no passado o medo vinha das baionetas, hoje ele parece emanar das interpretações elásticas da lei que criminalizam a opinião e a investigação. O fechamento de 2025 com esse grande ponto de interrogação sobre a integridade de membros do STF e a autonomia da imprensa projeta para 2026 um desafio existencial para o jornalismo brasileiro: como sobreviver e informar em um ambiente onde a verdade se tornou um risco jurídico insuportável.
Caso Globo e STF expõe preocupações sobre a censura no cenário político brasileiro
Nesta análise sucinta, o portal AMAZÔNIA VIA AMAPÁ apresenta a evolução institucional da censura no Brasil durante o regime ditatorial e a censura nos dias atuais. Embora ambos os períodos apresentem restrições à circulação de ideias, os mecanismos, os fundamentos jurídicos e os agentes envolvidos são drasticamente distintos.
Abaixo, segue um comparativo estruturado entre a censura do Regime Militar e o atual cenário de restrições judiciais.
1. O Mecanismo de Controle
Regime Militar (Censura Prévia e Administrativa)
O controle era centralizado e burocrático. Através do Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP), agentes do Estado revisavam letras de música, roteiros de novelas e edições de jornais antes da publicação.
- Agente: Poder Executivo (Polícia Federal/Ministério da Justiça).
- Visibilidade: Frequentemente explícita (com espaços em branco nos jornais ou receitas de bolo substituindo notícias proibidas).

Atualidade (Controle Judicial e Punitivo)
O controle é descentralizado e reativo. Não há um órgão revisando textos previamente, mas sim ordens judiciais de remoção de conteúdo, bloqueio de contas em redes sociais e desmonetização.
- Agente: Poder Judiciário (STF e TSE, majoritariamente).
- Visibilidade: Menos óbvia para o público geral, ocorrendo através de decisões sob sigilo ou remoção imediata de perfis.

3. Semelhanças Fundamentais
Apesar das diferenças de contexto, analistas apontam pontos de convergência que geram preocupação em órgãos de defesa da liberdade de expressão:
- O Uso de Conceitos Vagos: Assim como “subversão” era um termo elástico nos anos 70, termos como “desinformação” ou “ataque às instituições” hoje carecem de uma definição legal estrita, permitindo interpretações subjetivas por parte de quem julga.
- Efeito Resfriador (Chilling Effect): Em ambos os casos, o medo da punição (seja a prisão no passado ou multas milionárias e banimento digital hoje) leva veículos e indivíduos à autocensura.
- Excepcionalidade Permanente: Medidas que deveriam ser temporárias ou específicas acabam se tornando ritos processuais contínuos, estendendo-se por anos (como o Inquérito 4.781 no STF).

4. Diferenças Cruciais
É fundamental não equivaler os períodos de forma absoluta, dadas as salvaguardas existentes hoje:
- O Papel da Defesa: No regime militar, o direito de defesa era praticamente inexistente sob o AI-5 (suspensão do habeas corpus). Hoje, embora criticado pela celeridade ou sigilo, o processo ocorre dentro do rito jurídico, com advogados e possibilidade de recursos (ainda que limitados dentro das cortes superiores).
- Meios de Difusão: No século XX, bastava controlar as redações dos grandes jornais e emissoras. Hoje, a fragmentação da informação na internet torna o controle total tecnicamente impossível, levando o Judiciário a focar em “nós” de influência (influenciadores e plataformas).
- Legitimidade de Origem: As restrições atuais emanam de um poder constituído sob uma Constituição democrática (1988), enquanto o regime militar operava sob a ruptura da ordem constitucional.
Síntese: Do “Censor de Ofício” ao “Juiz de Garantias”
A grande transição entre os dois modelos é o deslocamento do Censor (Executivo) para o Juiz (Judiciário).
Enquanto a censura militar buscava silenciar a oposição política direta e a crítica moral, o fenômeno atual é interpretado por seus defensores como uma “defesa preventiva” da democracia contra ataques coordenados no ambiente digital. Para os críticos, trata-se de um “ativismo judicial” que atropela ritos processuais e cria uma nova forma de silenciamento, onde a verdade é balizada pelo entendimento do magistrado.
A máquina de verdades versus o olimpo fardado: os bastidores da reportagem que abalou a ditadura

“Já acabamos com repórter, editor e dono de jornal. Vamos acabar agora com o pauteiro”. O ultimato, disparado em 1973 pelo então “mago” da economia, Antônio Delfim Netto, não era apenas uma ameaça retórica. Era o reconhecimento de que, mesmo sob o tacão da censura militar, uma engrenagem silenciosa dentro do jornal O Estado de S. Paulo havia conseguido o impossível: desmascarar a manipulação dos índices de inflação que sustentavam a farsa do “milagre econômico”.
No centro dessa disputa não estavam apenas generais e tecnocratas, mas uma rede de jornalistas obstinados que transformaram a pauta — o roteiro de uma reportagem — em uma arma de resistência. Enquanto o governo do general Emílio Garrastuzu Médici celebrava um crescimento do PIB de 11,4%, os bastidores da sucursal do Rio de Janeiro ferviam com a confirmação de que os números do IBGE haviam sido “ajustados” para simular uma harmonia inexistente (como o que vem acontecendo hoje com indíces contraditórios sobre a queda do desemprego no país).
O triunfo da investigação sobre o SNI
O confronto era desigual. De um lado, o Serviço Nacional de Informações (SNI), o gigantesco aparato de espionagem montado pelo general Golbery do Couto e Silva para vigiar a sociedade. Do outro, uma rede de repórteres e correspondentes espalhados do Rio Grande do Sul ao Acre, movidos por uma mística profissional que o governo não conseguia comprar.
A eficácia do jornal era tamanha que, frequentemente, o Estadão apurava fatos que o próprio governo considerava segredos de Estado. Nem mesmo a censura prévia, que obrigava o jornal a publicar versos de Os Lusíadas de Camões para preencher os buracos deixados pelos cortes dos censores, intimidava a redação. O recado era claro: o jornal continuava a saber a verdade, mesmo que estivesse impedido de imprimi-la.
Da meningite à Amazônia: o jornalismo como escudo
A atuação dos “pauteiros” e repórteres foi decisiva em momentos críticos da história nacional. Em 1973, quando a maior epidemia de meningite urbana da história matava milhares em São Paulo, o jornal rompeu o cerco oficial que tentava culpar o “frio” pela doença. A investigação provou que a causa era a miséria, forçando a cidade a encarar seu abismo social.
Essa mesma postura independente levou o jornal aos confins da Amazônia. Em 1977, uma série sobre conflitos de terra foi tão contundente que o Conselho de Segurança Nacional convocou os jornalistas para uma sabatina. O resultado foi surpreendente: a precisão técnica da reportagem era tamanha que até os militares tiveram que recuar diante dos fatos.
O paradoxal silêncio da democracia
Entretanto, o relato desse “tempo heroico” traz um contraponto amargo com o presente. Se no passado o inimigo era a censura estatal, hoje o jornalismo enfrenta o fantasma da autocensura e da precarização. O jornalista, antes parte de uma instituição combativa, muitas vezes tornou-se uma “empresa individual”, mais preocupado com palestras privadas e relações públicas do que com o compromisso com a opinião pública.
O jornalista Lúcio Flávio Pinto recorda com tristeza como o espírito de corpo que protegia repórteres no Acre contra governadores autoritários parece ter se dissolvido. Em 2005, ao ser agredido fisicamente por um barão da mídia no Pará, o jornalista Lúcio Flávio Pinto viu seu antigo jornal (O Liberal) dedicar apenas dez linhas ao episódio, classificando-o como uma “briga”.
Hoje, longe das grandes redações e mantendo um jornal alternativo, o protagonista dessa história (Lúcio Flávio Pinto) continua a enfrentar processos judiciais e ameaças físicas. O cenário mudou, as máquinas de escrever deram lugar aos computadores, mas a lição de 1973 permanece: a verdade não é apenas um dado estatístico, mas o resultado de um combate diário contra aqueles que tentam obscurecê-la.

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