Um estado criminoso


— Luiz Felipe D’Avila
Cientista político, autor do livro ‘Vire à direita, siga em frente’, foi candidato à Presidência da República


Um Estado criminoso é aquele que confisca os bens dos cidadãos que trabalham cinco meses por ano para pagar a carga tributária mais alta entre os países emergentes e são obrigados a sustentar um Estado capturado por quadrilhas que roubam aposentados, locupletam estatais, criam privilégios – como os supersalários – e prestam serviços públicos de péssima qualidade.
Um Estado criminoso é aquele em que os membros da Suprema Corte utilizam decisões monocráticas para sepultar casos de corrupção e soltar corruptos e corruptores confessos e não se envergonham de proteger um banqueiro suspeito de gestão fraudulenta que é blindado por advogados com fortes vínculos familiares com membros da Suprema Corte para livrá-lo da cadeia.

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Um Estado criminoso é aquele em que o Supremo Tribunal Federal (STF) passa por cima da Constituição e das leis para se tornar um tribunal de exceção, em nome do “saneamento da democracia”. Quando os malfeitos dos Robespierres do STF são denunciados por um ex-assessor, ele se torna réu numa ação criminal. Este é o símbolo do que há de mais vil no Estado criminoso: o uso arbitrário do poder para intimidar e calar pessoas à revelia da lei; o desrespeito às liberdades individuais e o menosprezo às regras do Estado de Direito que distinguem uma nação livre e democrática de um país autoritário, governado por déspotas e populistas.

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A corrupção institucional do STF está espelhada na tentativa de criar barreiras para limitar o direito do Senado e do cidadão de abrir processos de impeachment contra membros da Corte. Trata-se de mais uma escandalosa violação da Constituição e da lei, mostrando que o STF não respeita mais os freios e contrapesos dos Poderes e o fundamento da democracia de que o poder emana do povo. Não é por outra razão que, numa Corte onde reina a suprema arbitrariedade e imoralidade, juízes sabotam a aprovação de um código de conduta ética.

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Um Estado criminoso é aquele que não consegue – por incompetência e safadeza política – empregar o seu poder para combater o crime organizado e a violência que aterrorizam a população. A atitude ideológica de Lula ao afirmar que criminoso é vítima da sociedade e que traficante é vítima de usuário de drogas é um acinte aos cidadãos de bem e aos dados e evidências que mostram a escalada exponencial do poder e da influência do crime organizado nas entranhas do Estado, do mercado e da política.
Esse Estado criminoso não surgiu agora. Ele é fruto das nossas escolhas do mal menor. A filósofa Hannah Arendt dizia que, quando escolhemos o mal menor, rapidamente esquecemos que escolhemos o mal. A escolha recorrente do mal menor nos levou a perder o senso de dever de participar da política, defender a democracia e zelar pela Constituição que limita o poder do Estado e salvaguarda as liberdades individuais. Abandonamos a régua moral de julgar o que é certo, bom e justo. Rui Barbosa retratou a degeneração moral da Nação: “de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o brasileiro chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.

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A escolha do mal menor criou uma elite conivente com políticos e juízes que governa o Estado criminoso e cultiva boas relações com os destruidores das instituições e da decência na vida pública. O mal menor propiciou o surgimento de uma sociedade civil apática e paralisada pelo cinismo político, cuja indignação só se manifesta em rede social e em conversas privadas. O Estado criminoso só surgiu porque aqueles que podiam freá-lo nada fizeram.


Em 2026 teremos três escolhas: engajar, defender ou abandonar. A primeira requer entrar no jogo. Candidate-se ou mergulhe no apoio de uma candidatura e abandone esta atitude ridícula de se esconder atrás do compliance da empresa para justificar a sua omissão pública. A segunda demanda coragem. Defenda publicamente a verdade e os fatos. Não fique calado quando ministros do STF violam a Constituição, o governo aprova medidas populistas que agravam a crise fiscal e o Congresso desvirtua o uso de emendas para fins eleitoreiros. Denuncie o que está errado, mesmo que tenha de enfrentar as chantagens do Estado criminoso. Se nenhuma dessas duas alternativas lhe apetece, mude de país. Você é inútil aqui, no Brasil.

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Sim, é tempo de festas e deveríamos tratar de temas amenos. Mas esta época é uma boa oportunidade para nos lembrar da indignação de Jesus com o covil de ladrões que se apoderou do templo. Além das palavras duras, ele partiu para a ação; Jesus fez um chicote de cordas e expulsou os bandidos da casa do Pai. O destino do País é fruto das nossas escolhas. Que a atitude de Jesus sirva de exemplo e de inspiração para transformarmos a nossa indignação em ações corajosas que colaborem para acabarmos com o covil de ladrões, populistas e usurpadores do poder que sequestraram os templos da Justiça, da política e das instituições e dilapidaram o Brasil.

Fonte: https://www.estadao.com.br/opiniao/luiz-felipe-davila/um-estado-criminoso/?srsltid=AfmBOoqHa8oN44Xr_xkFSuL76J4MJ_Nym-10yz5bF9pwRzXOGDTj5oIL

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