O duelo de 2026 será entre o ímpeto das ruas de Antônio Furlan e a solidez dos alicerces políticos construídos por Clécio Luís
A atmosfera em Macapá, neste início de janeiro de 2026, é de uma campanha eleitoral antecipada. O resultado das urnas em 2024, quando o prefeito de Macapá, Antônio Furlan (MDB), foi reeleito com mais de 85% dos votos válidos, ainda ressoa como um trovão sobre as águas do rio Amazonas. Nunca antes um prefeito da capital havia demonstrado tamanha hegemonia, o que naturalmente o posicionou como o herdeiro presuntivo das esperanças da oposição para o governo estadual. No entanto, a transição do prestígio municipal para a viabilidade estadual é um abismo que muitos outros nomes na história do Amapá tentaram saltar, nem sempre com sucesso. A popularidade de Furlan, que beira os 96% na capital, é um ativo político raríssimo, mas os analistas alertam que ela pode ser uma “ilha de aceitação” em um oceano de incertezas que é o interior do estado, o chamado hinterland amapaense, onde a influência da máquina estadual e federal é tradicionalmente mais decisiva.

Enquanto a capital vibra com o “fenômeno Furlan”, os bastidores da prefeitura revelam uma realidade menos cintilante. Relatos persistentes indicam que a saúde financeira do município de Macapá atravessa um período de turbulência aguda. O contraste é gritante: de um lado, a propaganda oficial e o ritmo frenético de obras que garantiram a reeleição; do outro, empresas terceirizadas que reclamam de atrasos sistemáticos nos pagamentos. A crise começa a transbordar para a superfície da vida urbana, com falhas pontuais na limpeza pública e na manutenção de serviços essenciais. Este é o primeiro grande obstáculo de Furlan. Para se candidatar ao governo, ele precisa renunciar ao cargo de prefeito até o fim do primeiro trimestre de 2026. Ao sair, deixará a gestão nas mãos de um sucessor que herdará não apenas as glórias, mas as dívidas. Se o castelo administrativo de Macapá começar a apresentar fissuras visíveis durante a campanha, o discurso de “gestor eficiente” de Furlan poderá ser severamente corroído pelos seus adversários.

No lado oposto do tabuleiro, o governador do Amapá Clécio Luís (Solidariedade) joga um jogo de xadrez de longo prazo. O mandatário não possui a mesma voltagem popular imediata de Furlan na capital, mas detém uma aprovação sólida, que oscila entre 57% e 70% em nível estadual, números que em qualquer outro contexto seriam considerados excelentes para um incumbente. A força de Clécio reside na sua capacidade de articulação e na solidez da rede de apoio que construiu. Ele não é um lobo solitário; ele é o epicentro de um arco de alianças que inclui os nomes mais poderosos do Amapá no cenário nacional. Ter o senador David Alcolumbre (União), presidente do Congresso, e o senador Randolfe Rodrigues (PT), líder do governo no Senado, ao seu lado, significa ter acesso direto ao Orçamento da União, a emendas parlamentares e a uma capacidade de entrega que Furlan dificilmente conseguirá igualar sem o controle de uma máquina equivalente. A estratégia de Clécio tem sido a da estabilidade e da capilaridade, garantindo que cada município do interior sinta a presença do governo do estado, criando um cinturão de proteção política que Furlan terá dificuldade em romper.
A força de Clécio reside na sua capacidade de articulação e na solidez da rede de apoio que construiu. Ele não é um lobo solitário; ele é o epicentro de um arco de alianças que inclui os nomes mais poderosos do Amapá no cenário nacional.
A jornada que Furlan se propõe a realizar lembra, para os veteranos da política local, a trajetória de João Alberto Capiberibe em 1994. Naquela época, “Capi” também desafiou as estruturas tradicionais e venceu o governo com uma campanha de baixo custo e alta identificação popular. No entanto, o Amapá de 2026 é um estado radicalmente diferente do final do século XX. A população atual é intensamente conectada. As redes sociais, que foram a mola propulsora de Furlan em Macapá, são uma faca de dois gumes. Se por um lado elas permitem que ele chegue ao interior sem grandes recursos de mídia tradicional, por outro, elas permitem que qualquer falha na gestão da capital seja compartilhada instantaneamente em Oiapoque ou Laranjal do Jari. O eleitor de 2026 é mais crítico, mais informado e, acima de tudo, mais pragmático. A pergunta que o eleitor do interior fará não é apenas “quem é Furlan?”, mas “o que Furlan pode fazer por nós que o governador e os senadores já não estejam fazendo?”.

A decisão de Furlan de se desincompatibilizar no primeiro trimestre é um movimento de alto risco, uma aposta de “tudo ou nada”. Ao deixar a prefeitura, ele perde o controle direto sobre os recursos e a visibilidade que o cargo oferece. Ele passará a ser um cidadão comum, dependendo exclusivamente do seu capital político acumulado e da lealdade de aliados que, em muitos casos, possuem menos influência e recursos do que o grupo governista. O isolamento político em Brasília é um fator que não pode ser subestimado. Sem pontes sólidas com o governo federal e sem o suporte de uma bancada federal robusta, uma eventual gestão Furlan no estado poderia enfrentar dificuldades de governabilidade e financiamento desde o primeiro dia. Esse argumento será, sem dúvida, explorado à exaustão pela campanha de Clécio Luís.

As pesquisas de intenção de voto deste início de ano apresentam uma polarização assimétrica fascinante. Furlan lidera com folga, carregado pelos números astronômicos de Macapá, onde reside a maior parte do eleitorado. Os 65% que ele ostentava nas pesquisas de final de 2025 contra os 28% de Clécio são um indicativo de que o desejo de mudança ou a simples admiração pelo estilo “mão na massa” do prefeito é uma força poderosa. Contudo, as pesquisas também mostram que essa popularidade é concentrada e volátil. O desafio de Furlan é converter a aprovação da sua gestão municipal em confiança para a gestão estadual, ao mesmo tempo em que tenta diminuir a rejeição ou o desconhecimento no interior. Já para Clécio, o desafio é “furar a bolha” da capital, mostrando que a estabilidade administrativa e as alianças nacionais são mais seguras para o futuro do estado do que uma aventura política baseada apenas no carisma pessoal.

Outro fator determinante em 2026 será a disputa pelas vagas no Senado. Com David Alcolumbre buscando a manutenção de seu poder e Randolfe Rodrigues exercendo um papel central na política brasileira, o palanque de Clécio Luís torna-se um ecossistema político muito mais atrativo para prefeitos do interior e lideranças locais que dependem de verbas federais para suas próprias sobrevivências políticas. Furlan, ao caminhar com aliados de menor envergadura, corre o risco de liderar uma “chapa pura” em termos de entusiasmo, mas pobre em termos de estrutura de campanha e apoio territorial. A política, especialmente no Amapá, raramente é decidida apenas na capital; os pequenos municípios possuem um peso desproporcional quando a disputa se torna acirrada e o uso da máquina administrativa estadual entra em operação plena.
A questão que paira no ar é: o eleitor amapaense estará disposto a trocar a segurança de um governo alinhado com o poder central pela promessa de um líder carismático que enfrenta oposição em sua própria base financeira?
Há também o componente da narrativa. Furlan se apresenta como o “novo”, o realizador, aquele que quebra paradigmas. Clécio apresenta-se como o “seguro”, o articulador, o garantidor da ordem e do progresso contínuo. Em um cenário de incerteza econômica nacional, o discurso da segurança administrativa pode ganhar tração à medida que a eleição se aproxima e os problemas fiscais da prefeitura de Macapá sejam trazidos para o centro do debate. A questão que paira no ar é: o eleitor amapaense estará disposto a trocar a segurança de um governo alinhado com o poder central pela promessa de um líder carismático que enfrenta oposição em sua própria base financeira?
A desincompatibilização de Furlan será o sinal de partida para uma das campanhas mais intensas da história do estado. Ele precisará provar que o seu modelo de gestão é exportável e sustentável. Terá que responder às acusações de fragilidade fiscal com a mesma rapidez com que posta vídeos de obras em suas redes sociais. Por outro lado, Clécio Luís terá que humanizar sua gestão e aproximar-se mais do eleitor da capital, tentando diminuir a enorme vantagem que o prefeito detém em seu reduto. A disputa de 2026 no Amapá não será apenas sobre quem tem mais votos hoje, mas sobre quem conseguirá manter a viabilidade e a estrutura até outubro. A popularidade é um recurso que se consome rápido sob o sol forte da oposição, enquanto a estrutura de governo é uma fortaleza que demora a cair.

O “fenômeno Furlan” é real e não pode ser ignorado. Ele alterou a lógica política do estado e forçou o grupo governante a se reorganizar. Mas a política é, por definição, a arte do possível e da sobrevivência. O isolamento de Furlan em relação às grandes lideranças nacionais e os problemas de caixa da prefeitura são os calcanhares de Aquiles de uma candidatura que, se olhada apenas pelo prisma das redes sociais, parece invencível, mas que, sob a lupa da realidade administrativa, mostra-se vulnerável. O ano de 2026 será o teste definitivo: será o carisma capaz de vencer a estrutura? Ou será que o realismo político e a força das alianças vão, mais uma vez, prevalecer no Palácio do Setentrião? As respostas começarão a ser dadas assim que Furlan deixar o conforto da prefeitura para enfrentar a estrada empoeirada do interior amapaense.

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