China e Rússia criticam intervenções dos EUA na Venezuela enquanto reforçam repressão em Hong Kong e Ucrânia

Na imagem, a sala do Conselho de Segurança na sede da ONU, em Nova York, nos Estados Unidos — Foto: Eskinder Debebe/ONU



A madrugada de sábado, 3 de janeiro de 2026, entrou para os anais da história geopolítica contemporânea como o momento em que a doutrina de intervenção direta dos Estados Unidos atingiu seu ápice no século XXI. Sob ordens diretas de Washington, uma operação militar de precisão cirúrgica e escala avassaladora foi deflagrada em Caracas, resultando na captura do ditador Nicolás Maduro e de sua esposa, a influente Cilia Flores. O casal, que por mais de uma década personificou a resistência do regime bolivariano contra as pressões externas, foi removido do Palácio de Miraflores sob custódia americana, desencadeando uma onda de choque que rapidamente se propagou das capitais latino-americanas às chancelarias europeias e, com fúria redobrada, aos centros de poder de regimes autoritários ao redor do globo.

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A ação, justificada pela gestão Donald Trump — que retornou ao poder com uma retórica de “tolerância zero” contra o narcoterrorismo — baseia-se em indiciamentos federais que pesam sobre Maduro há anos. Acusado de liderar o “Cartel dos Sóis” e de conspirar para inundar o território americano com cocaína como arma política, o agora ex-mandatário encontra-se detido em uma unidade federal no Brooklyn, em Nova York. No entanto, o que Washington descreve como uma operação de aplicação da lei internacional contra um regime ilegítimo é lido por uma parte considerável do mundo como um ato de agressão unilateral que desafia os pilares da soberania nacional. A contestação não tardou a vir de vizinhos como Colômbia e Brasil, que, embora críticos de Maduro, expressaram profunda preocupação com o precedente de intervenção militar direta na região.

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Contudo, o coro de indignação mais estridente emanou das nações que compõem o eixo de apoio estratégico a Caracas: China, Rússia, Cuba e Coreia do Norte. Para esses Estados, a queda de Maduro não representa apenas a perda de um aliado ideológico ou parceiro comercial, mas uma ameaça existencial ao princípio de que governos autoritários podem operar dentro de suas esferas de influência sem o temor de uma incursão militar ocidental. Na segunda-feira, 5 de janeiro, o Conselho de Segurança da ONU transformou-se em um campo de batalha diplomático, onde Pequim e Moscou lideraram a ofensiva contra o que chamaram de “bandidagem internacional” praticada pelos Estados Unidos.

Wang Yi

O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, foi a voz pública dessa insatisfação. Em declarações contundentes, ele acusou os norte-americanos de agirem como a “polícia do mundo”, uma posição que, segundo ele, é anacrônica e inaceitável para uma comunidade internacional que deveria prezar pela multipolaridade. A retórica chinesa, focada no respeito à autodeterminação dos povos e na não interferência em assuntos internos, busca pintar a China como uma defensora da ordem legal global contra o “bullying” americano. Entretanto, o discurso de Wang Yi carrega uma ironia profunda que não passa despercebida pelos observadores internacionais. Enquanto Pequim condena a intervenção externa na Venezuela, o Partido Comunista Chinês intensifica o que muitos chamam de “intervenção interna definitiva” em Hong Kong.

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O processo de integração forçada de Hong Kong ao sistema político de Pequim é o espelho distorcido das críticas chinesas. Sob o lema de “um país, dois sistemas”, a China havia prometido manter a autonomia e as liberdades da ex-colônia britânica até 2047. No entanto, o que se vê em 2026 é o desmantelamento sistemático desse acordo. Através da imposição de leis de segurança nacional draconianas e reformas eleitorais que garantem que apenas “patriotas” — ou seja, leais a Pequim — possam concorrer a cargos públicos, a China suprimiu os movimentos pró-democracia que ganharam as ruas anos atrás. O objetivo chinês é claro: eliminar o “barulho” democrático sem recorrer a uma repressão violenta ostensiva que pudesse comprometer o status de Hong Kong como um hub financeiro global, mas garantindo uma submissão política absoluta ao continente.

Manifestações por independência em Hong Kong foram brutalmente reprimidas pelo governo chinês

Essa dualidade de critérios ficou evidente quando o governo chinês expressou seu “extremo descontentamento” com as declarações do G7. O fórum, que reúne as democracias industrializadas mais influentes do mundo, havia feito um apelo por moderação e pelo fim da violência em Hong Kong após meses de protestos civis. Na ocasião, o então porta-voz Geng Shuang foi categórico ao afirmar que nenhum Estado ou organização internacional tinha o direito de interferir em questões que Pequim considera estritamente domésticas. Esse mesmo escudo da “soberania absoluta” é agora estendido à Venezuela de Maduro, na tentativa de criar um ambiente onde ditadores possam exercer o controle total sobre suas populações sob a proteção diplomática de potências autoritárias.

Vasily Nebenzya

A Rússia, por sua vez, uniu-se à China na condenação feroz do ataque americano no Conselho de Segurança da ONU. O embaixador russo, Vasily Nebenzya, classificou a prisão de Maduro como um ato de neocolonialismo e exigiu a libertação imediata do casal presidencial. Para o Kremlin, a Venezuela é uma peça-chave no xadrez geopolítico para desafiar a hegemonia americana em seu próprio hemisfério. A estranheza dessas críticas russas, entretanto, beira o absurdo quando analisada sob a ótica da política externa de Vladimir Putin na Europa. Enquanto Moscou denuncia a “violação da soberania venezuelana”, Putin comanda o que analistas descrevem como uma guerra de extermínio contra a Ucrânia.

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Desde o início da invasão em larga escala em 24 de fevereiro de 2022, a Rússia tem sistematicamente violado todos os princípios de soberania que agora alega defender na América do Sul. A Ucrânia, um país que até então era livre e soberano, tornou-se alvo de uma campanha de bombardeios incessantes que não poupou hospitais, creches, escolas ou edifícios residenciais. Milhares de inocentes foram mortos e milhões deslocados em nome de um expansionismo imperialista que busca apagar a identidade nacional ucraniana. A contradição russa é flagrante: Putin invadiu um vizinho para anexar territórios e derrubar um governo democraticamente eleito, mas considera “ilegal” e “imoral” uma operação americana para prender um ditador acusado de crimes contra a humanidade e narcotráfico.

A cidade ucraniana de Avdiivka, que vem sendo bombardeada há meses — Foto: ARIS MESSINIS/AFP

O cenário de 2026 desenha uma divisão clara no mundo. De um lado, os Estados Unidos e seus aliados, que parecem dispostos a usar o poderio militar para remover líderes que consideram ameaças à segurança regional e aos direitos humanos. Do outro, um bloco liderado por China e Rússia, que utiliza a retórica da soberania para proteger regimes autocráticos e expandir suas próprias zonas de influência. A captura de Maduro e Cilia Flores é apenas o estopim de uma crise muito maior, que testa os limites das instituições internacionais e a própria definição de lei e ordem no século XXI.

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Enquanto Maduro aguarda seu julgamento em uma cela no Brooklyn, a Venezuela mergulha em uma incerteza perigosa. Delcy Rodríguez, declarada presidente interina pelo Supremo Tribunal venezuelano controlado pelo chavismo, já emitiu ordens de prisão contra todos os americanos envolvidos na operação e convocou a população à resistência. O apoio de Pequim e Moscou a essa continuidade governamental sinaliza que a batalha pela Venezuela não terminou com a prisão de seu líder, mas apenas mudou de fase. A disputa agora não é apenas pelo petróleo ou pelo território, mas pelo controle da narrativa global sobre o que constitui uma intervenção legítima e quem, afinal, tem o direito de agir como juiz na arena internacional.


Para a população venezuelana, espremida entre a bota do autoritarismo doméstico e o impacto da intervenção estrangeira, o futuro permanece uma névoa de incertezas. A eficácia da ação militar americana será medida não pela captura de um ditador, mas pela capacidade de facilitar uma transição democrática real que não transforme o país em um novo campo de batalha para as potências mundiais. O que se vê hoje em Nova York, Caracas, Pequim e Moscou é a reedição de uma guerra fria que, a cada dia, parece mais quente, com a América Latina voltando a ser, de forma trágica e central, o epicentro das tensões globais.


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