O amor que mata nunca foi amor; é o recorde de uma barbárie que a tipificação do feminicídio ainda não conseguiu frear
No segundo semestre de 1982, a TV Globo exibiu a minissérie “Quem Ama Não Mata”, inspirada em crimes de gênero que mobilizaram a opinião pública na época. Com 20 capítulos, a obra foi escrita por Euclydes Marinho e dirigida pelos inesquecíveis Daniel Filho e Dennis Carvalho. O eixo central abordava as dificuldades nas relações amorosas através da história de cinco casais de classe média com visões distintas sobre casamento, amor e fidelidade. Um assassinato ligava as tramas: logo no primeiro capítulo, o telespectador sabia que um crime passional ocorrera, mas ignorava a identidade da vítima — seria Jorge ou Alice? O mistério fora revelado apenas no desfecho, quando se descobre que Jorge era o assassino.


A vida imita a arte ou vice-versa? No Brasil, as duas afirmações se confirmam. Nas últimas quatro décadas, milhares de mulheres foram assassinadas, provando que quem mata nunca amou de verdade. Recentemente, o Ministério da Justiça e Segurança Pública divulgou um dado estarrecedor: desde a tipificação do feminicídio em 2015, 13.448 mulheres foram mortas em território nacional. O ano de 2025 refletiu uma realidade brutal e persistente, com 1.470 ocorrências — um novo e triste recorde histórico, consolidando o período como o mais letal da última década para as brasileiras.


Um exemplo dessa barbárie ocorreu na área rural de Macapá, na noite de domingo, 25 de janeiro, quando a ex-miss Paula Barroso, de 30 anos, foi executada a sangue frio pelo marido, o comerciante Alciderico Santos Moreira, de 51 anos, conhecido como “Alcir Santos”. O motivo: ciúmes e a suspeita infundada de traição. Paula estava em um estabelecimento comercial quando discutiu com Alcir, que disparou contra ela e fugiu em uma caminhonete. Apesar de socorrida, Paula — que tinha dois filhos e sonhava em ser enfermeira — não sobreviveu. Preso no dia seguinte, o agressor alegou “tiro acidental”.

Diariamente, mulheres são mortas por companheiros ou ex-parceiros movidos por possessividade. Mesmo no mundo contemporâneo, a “Síndrome de Otelo” continua a afetar profundamente a mente masculina.
Trata-se de um transtorno onde o indivíduo nutre a crença irracional de que está sendo traído, levando a comportamentos de vigilância excessiva, controle e, em casos extremos, ao homicídio. Muitas vezes associada ao alcoolismo ou a patologias psicológicas, essa condição exige tratamento psiquiátrico para gerenciar a insegurança profunda e os delírios subjacentes.
Enquanto alguns sucumbem à violência, outros tentam abraçar uma modernidade forçada. No mesmo dia do assassinato de Paula Barroso, as redes sociais efervesceram após a publicação de um artigo do filósofo Kwame Anthony Appiah, colunista de ética do New York Times. Appiah respondeu a um dilema que parece saído de uma tragicomédia conjugal pós-moderna.

Na coluna The Ethicist, um leitor anônimo relatou saber do caso extraconjugal da esposa — e mais: ele havia consentido. A mulher justificou a traição como uma “necessidade vital” de liberdade sexual e autenticidade. Convencido pela argumentação e acreditando que o casamento estaria seguro, o marido aceitou o arranjo. O problema é que, enquanto a esposa desfrutava da liberdade, o marido vivia um exercício de dor silenciosa.
Recentemente, a própria esposa encerrou o caso, alegando que o peso emocional se tornara insuportável. Ela entrou em luto pelo amante; ele, sentiu-se aliviado. Surgiu, então, a dúvida moral: deveria ele consolá-la? Embora se importasse com a esposa, o marido admitiu não sentir pena nem obrigação de confortá-la por uma perda que, afinal, representava o fim do seu próprio sofrimento.

Appiah respondeu com a frieza elegante de quem prefere o bisturi ao martelo, lembrando que emoções não são escolhas voluntárias e que ninguém simplesmente decide sentir o oposto do que sente. Para o filósofo, havia ali uma simetria incômoda: assim como o marido consentiu em nome do relacionamento, a esposa teria desistido do caso pelo mesmo motivo, revelando que, por trás da aparência racional e civilizada, escondiam-se ultimatos silenciosos e concessões feitas por medo de perder o vínculo, e não por plena liberdade.
Ainda assim, ele sugeriu que o marido talvez pudesse ajudar a esposa a lidar com a dor como um gesto de gratidão pelo reconhecimento tardio de suas próprias necessidades, defendendo que consolar seria uma das dádivas do amor conjugal, sem exigir o compartilhamento do mesmo sofrimento. Como essas distinções raramente são simples na prática, o colunista recomendou terapia de casal para que ambos pudessem dar vazão aos sentimentos sem romper a conexão.
A resposta viralizou e, como era previsível, dividiu opiniões entre aqueles que lamentaram a perda do pudor e outros que foram mais diretos e cruéis.
Comentários no X ironizaram o marido, pediram a volta da “vergonha” e denunciaram o que chamaram de celebração da imoralidade, chegando a acusar Appiah de alimentar um fetiche de humilhação pública.
Por outro lado, houve quem visse ali um espelho desconfortável da vida real, apontando que traições consentidas ou toleradas em silêncio são mais comuns do que se admite, enquanto outros ironizavam a situação questionando quem consolaria o amante.
No fim, o caso expôs menos uma resposta definitiva sobre certo ou errado e mais o retrato de uma época em que as fronteiras morais se tornaram nebulosas, os papéis tradicionais parecem trocados e até o consolo virou objeto de debate ético; no mundo de hoje, o adultério pode acabar, mas o constrangimento segue firme.
Fica a pergunta, formulada 32 anos atrás por meio da canção “Bois Don’t Cry”, dos Mamonas Assassinas, uma paródia brilhante que subverte tanto o título da clássica “Boys Don’t Cry” (The Cure) quanto a estrutura das canções de corno e do sertanejo dramático: Ser corno ou não ser?
Diferente das canções tradicionais de “dor de corno”, onde o eu-lírico busca vingança ou se afunda na autopiedade, o protagonista Dejair assume uma postura de “corno conformado”. Ele reconhece a traição, mas a aceita em troca da satisfação sexual e da companhia (“Sou corno mas sou feliz”).

O tal leitor anônimo do filósofo Kwame Anthony Appiah não conseguiu ser um “corno conformado”. Nem o dentista Jorge, personagem do saudoso ator Cláudio Marzo, que, ao desconfiar de que estava sendo corneado pela esposa, a dona de casa Alice, interpetada pela também saudosa atriz Marília Pêra, optou pelo femincídio. Assim como Alcir Santos e tantos leitores anônimos de Kwame Anthony Appiah. Quem sabe até o próprio Appiah seja um “corno conformado”, tornando-se o leitor anônimo de si mesmo. Tudo é possível.

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