Fachada do Instituto de Previdência do Município de Macapá (MacapáPrev); órgão é alvo de fiscalização do Ministério da Previdência por sumiço de R$ 137 milhões em ativos
Uma névoa de incerteza paira sobre o café da manhã de milhares de famílias em Macapá. Para quem dedicou décadas à educação, saúde ou segurança da capital amapaense, a tranquilidade da aposentadoria deixou de ser uma garantia institucional para se tornar uma interrogação contábil. No centro de uma crise que mistura negligência administrativa e esvaziamento de cofres públicos, o Instituto de Previdência do Município de Macapá (MacapáPrev) enfrenta um colapso financeiro sem precedentes, revelado por uma sequência de documentos oficiais que desenham um cenário de terra arrasada.

O que se vê nos extratos é um declínio vertiginoso: em apenas dois anos, o patrimônio líquido do instituto, que sustenta o futuro de mais de 11 mil servidores ativos e 1,5 mil inativos, desmoronou. Em julho de 2023, o fundo ostentava R$ 176,8 milhões; menos de dois anos depois, o saldo remanescente era de apenas R$ 39,4 milhões. A sangria de quase R$ 140 milhões em quase 24 meses não é apenas um número frio em uma planilha, mas o sintoma de uma gestão que, segundo órgãos de controle federal e estadual, optou por não priorizar o repasse de obrigações legais, colocando em xeque a sustentabilidade do Regime Próprio de Previdência Social (RPPS).

A gravidade da situação foi detalhada em uma fiscalização rigorosa do Ministério da Previdência Social. O órgão federal, ao analisar as contas do município, identificou um buraco cavado por meses de inadimplência. Entre julho de 2023 e dezembro de 2024, a prefeitura deixou de repassar integralmente a contribuição previdenciária patronal — a parcela que cabe ao ente público para garantir o benefício futuro de seus funcionários. O montante não transferido chega a R$ 84,2 milhões. É uma cifra que, por si só, explica grande parte do desequilíbrio atuarial da capital.
No entanto, o problema vai além do que foi deixado de pagar; ele se estende ao que foi deixado de informar. O Ministério constatou um apagão de transparência: a ausência dos Demonstrativos de Informações Previdenciárias e Repasses (DIPR) referentes aos três primeiros bimestres de 2025. Sem esses documentos, o governo federal fica impossibilitado de aferir a real dimensão do estrago ou de verificar se os valores devidos estão, de fato, sendo recompostos.
O silêncio documental e o represamento de recursos tiveram uma consequência administrativa imediata e severa: a suspensão da regularidade previdenciária da prefeitura. Na prática, Macapá perdeu o seu “nome limpo” junto à União. Sem o Certificado de Regularidade Previdenciária (CRP) administrativo, a gestão do prefeito Antônio Furlan (MDB) está impedida de celebrar novos convênios com o governo federal e de receber transferências voluntárias — verbas fundamentais para obras de infraestrutura e projetos sociais que não estão carimbados no Orçamento Geral da União.
Atualmente, a administração se sustenta por meio de uma liminar judicial para manter o certificado ativo, uma sobrevida jurídica que, se derrubada, pode paralisar investimentos estratégicos na cidade. É um jogo de corda bamba onde os servidores são os principais espectadores, temendo que a queda atinja diretamente o bolso. Por conta dessas irregularidades, centenas de aposentados acompanham, apreensivos e temerosos, o desenrolar desses acontecimentos.

A crise não é um evento inesperado ou um “cisne negro” nas contas públicas macapaenses. Os avisos de que o navio estava mudando de rota em direção ao iceberg foram dados com antecedência. Em agosto de 2024, o Tribunal de Contas do Estado (TCE-AP) já havia emitido um alerta contundente sobre a saúde financeira do MacapáPrev.
O conselheiro Michel Houat Harb, em seu parecer, foi taxativo ao apontar que a má gestão previdenciária não era apenas um erro contábil, mas uma ameaça direta ao futuro econômico da cidade. O tribunal já observava o risco de que, em um futuro próximo, o fluxo de caixa do instituto não fosse suficiente para cobrir a folha de pagamento de aposentados e pensionistas, exigindo que o Tesouro Municipal fizesse aportes diretos, o que drenaria recursos de áreas críticas como a saúde primária e a educação básica.

A legislação brasileira, através da Lei nº 9.717 de 1998, é clara sobre a responsabilidade dos gestores em relação aos fundos de previdência. A norma exige o equilíbrio financeiro e atuarial, punindo o descumprimento com sanções administrativas e até processos por improbidade. Quando um município deixa de repassar a cota patronal, ele está, na prática, utilizando o dinheiro que deveria ser poupado para o futuro como se fosse recurso de custeio imediato, criando uma dívida com juros e correções que raramente é quitada sem causar dor profunda ao contribuinte.
Em Macapá, a situação atinge um nível crítico porque a base de servidores é extensa e o número de inativos cresce organicamente a cada ano. O fundo previdenciário deveria funcionar como um reservatório que garante o fluxo durante a seca; agora, o reservatório está quase vazio, e a chuva de repasses da prefeitura cessou.
Nos corredores da MacapáPrev, o clima é de apreensão silenciosa. Servidores com 25 ou 30 anos de serviço, que já começavam a planejar o descanso, agora se veem consultando extratos previdenciários com frequência semanal. O temor é de que o MacapáPrev siga o rastro de outros institutos municipais pelo Brasil que, após anos de má gestão e falta de repasses patronais, entraram em colapso, resultando em parcelamento de aposentadorias ou atrasos sistêmicos.
A diferença de R$ 84,2 milhões a regularizar é uma montanha difícil de escalar para um município que já enfrenta desafios fiscais naturais da região Norte. Sem uma estratégia clara de capitalização e sem a transparência exigida pelo Ministério da Previdência, o instituto corre o risco de se tornar insolvente.
A resposta da prefeitura a esses questionamentos tem sido pautada pela judicialização. Ao buscar manter o CRP via tribunais, a gestão ganha tempo, mas não resolve o déficit. A falta de envio dos relatórios DIPR em 2025 sugere uma dificuldade administrativa que vai além da falta de verba; indica uma possível desorganização contábil ou uma tentativa de postergar a revelação de números ainda mais alarmantes.

Para os especialistas em contas públicas, a queda de R$ 176,8 milhões para R$ 39,4 milhões em um intervalo tão curto sugere que o fundo está sendo utilizado para pagar benefícios correntes sem a devida reposição, uma prática conhecida como “consumo de principal”, que é o último estágio antes do esgotamento total de um fundo de capitalização.

O impacto político dessa crise também é latente. A gestão de uma capital que não consegue manter a regularidade de sua previdência torna-se alvo fácil de críticas tanto da oposição quanto de órgãos de fiscalização externa. O Ministério Público do Amapá (MP-AP) acompanha o desenrolar dos alertas do TCE e do Ministério da Previdência, e a possibilidade de ações judiciais por danos ao erário e falta de repasses obrigatórios é real. Enquanto isso, o cidadão de Macapá observa o risco de uma paralisia administrativa: se a liminar cair e as transferências federais forem bloqueadas, a prefeitura terá de escolher entre pagar a folha de pagamento, manter serviços essenciais ou tentar tapar o buraco do MacapáPrev.

O futuro do servidor municipal de Macapá agora depende de um plano de recuperação que ainda não foi apresentado de forma transparente à sociedade pela Prefeitura. A recomposição de R$ 84 milhões não acontece da noite para o dia, especialmente em um cenário onde as receitas municipais estão estagnadas. A questão que fica para os mais de 12 mil beneficiários diretos do sistema não é apenas quando o dinheiro voltará para o fundo, mas se haverá fundo suficiente quando chegar a vez de cada um deles cruzar a linha de chegada da vida laboral. Por ora, os números do Ministério da Previdência servem como um veredito provisório de uma gestão temerária. Sem uma mudança drástica de rumo, o colapso anunciado deixará de ser um alerta técnico para se tornar uma crise social de proporções históricas na capital do meio do mundo.

Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.



