O foco da investigação é o investimento de R$ 400 milhões em letras financeiras do Banco Master, instituição que sofreu liquidação pelo Banco Central
A Polícia Federal deflagrou, nas primeiras horas da manhã de sexta-feira (6 de fevereiro), uma operação destinada a escrutinar a gestão previdenciária no Amapá, mirando possíveis irregularidades na alocação de quantia milionária pertencente ao funcionalismo público estadual. Com o sol ainda baixo no horizonte de Macapá, agentes federais mobilizaram-se para cumprir quatro mandados de busca e apreensão que sacudiram os alicerces da Amapá Previdência (Amprev), a autarquia responsável por zelar pelo futuro financeiro de milhares de servidores estaduais.
O epicentro da ofensiva policial localizou-se na sede da instituição, um prédio imponente situado na Rua Binga Uchôa, no coração comercial da capital amapaense, mas os desdobramentos alcançaram também a esfera privada da cúpula da autarquia: a residência de Jocildo Lemos, atual presidente da Amprev, foi um dos endereços vasculhados pela corporação.

A investigação, que corre sob um inquérito rigoroso, debruça-se sobre uma teia complexa de investimentos realizados em letras financeiras emitidas pelo Banco Master, instituição privada que recentemente atravessou um processo de liquidação pelo Banco Central, gerando um efeito dominó que agora atinge as contas públicas amapaenses.
O cerne da controvérsia reside na aplicação de aproximadamente R$ 400 milhões do fundo previdenciário no referido banco. Embora a Amprev sustente que a operação já havia rendido cerca de R$ 40 milhões em lucros antes das turbulências no cenário bancário nacional, a Polícia Federal investiga se a decisão de alocar uma fatia tão expressiva do patrimônio dos servidores em um único ativo privado obedeceu a critérios técnicos de prudência ou se configurou, na prática, crimes de gestão temerária e gestão fraudulenta.

A linha entre a busca por rentabilidade e a exposição imprudente ao risco é o que os peritos criminais e delegados federais tentam delimitar agora, examinando documentos, mídias digitais e registros de reuniões do conselho deliberativo da autarquia. A suspeita é de que os mecanismos de governança interna possam ter sido ignorados ou manipulados para viabilizar o fluxo de capital em direção a ativos de risco elevado, sem as garantias adequadas para um fundo que sustenta aposentadorias e pensões.
A crise ganhou contornos dramáticos em novembro do ano passado, quando a liquidação do Banco Master pelo Banco Central acendeu o sinal de alerta máximo no governo estadual.
Temendo a dilapidação total dos recursos investidos, a Amprev recorreu ao Poder Judiciário em uma manobra jurídica agressiva para estancar a sangria financeira. A autarquia obteve uma decisão judicial que a autorizou a reter valores provenientes de empréstimos consignados contratados por servidores junto ao banco liquidado.

A lógica da medida era o uso da compensação: em vez de repassar as parcelas pagas pelos servidores ao banco, a Amprev seguraria esses valores como forma de reaver, ainda que paulatinamente, o montante bilionário que ficou retido na massa falida ou em liquidação da instituição financeira. Essa engenharia jurídica, contudo, é vista por investigadores como um indicativo de que a segurança dos investimentos originais era frágil, forçando o Estado a adotar medidas heterodoxas para evitar um rombo irreparável no caixa previdenciário.

Os mandados de busca e apreensão executados na sexta-feira (6) foram expedidos pela 4ª Vara da Justiça Federal, uma decisão fundamentada na ausência, até o presente estágio do inquérito, de alvos que detêm foro por prerrogativa de função. Isso significa que, embora o caso envolva cifras astronômicas e uma autarquia de primeiro escalão, o processo tramita na primeira instância, o que permite uma agilidade maior na colheita de provas e na execução de medidas cautelares.
Durante a manhã, a movimentação de viaturas descaracterizadas e de agentes uniformizados na sede da Amprev atraiu a curiosidade de quem transitava pelo centro comercial de Macapá, simbolizando um momento de fragilidade institucional para um órgão que deveria ser sinônimo de estabilidade. Documentos foram levados em malotes, e computadores foram apreendidos para perícia técnica, buscando-se rastros de comunicações que possam ligar gestores públicos a possíveis facilitadores no setor financeiro privado.

A figura de Jocildo Lemos, presidente da Amprev, emerge como peça-chave no tabuleiro das investigações. Sua residência ter sido alvo de busca indica que a Polícia Federal busca elementos que transcendam os registros oficiais da autarquia, procurando eventuais indícios de benefícios pessoais ou de uma coordenação direta que pudesse caracterizar a má-fé na condução dos ativos. A PF, mantendo sua tradicional cautela em operações dessa magnitude, ainda não detalhou se o material colhido sustenta a necessidade de prisões temporárias ou preventivas, limitando-se a informar que o foco atual é a consolidação das provas documentais e periciais.
Até o fechamento desta reportagem, produzida pela redação do portal AMAZÔNIA VIA AMAPÁ, a direção da Amprev não havia emitido um pronunciamento oficial sobre a operação, mantendo o silêncio enquanto seus advogados acessam os autos do processo. Da mesma forma, a Polícia Federal não confirmou a realização de uma entrevista coletiva para o detalhamento dos fatos, estratégia que sugere que o inquérito ainda possui ramificações a serem exploradas sob sigilo.
O caso repercute intensamente nos corredores do Palácio do Setentrião e entre os sindicatos de servidores públicos, que há meses demonstram preocupação com a saúde do fundo previdenciário.
O mercado financeiro local também observa com apreensão, dado que a Amprev é um dos maiores investidores institucionais do estado. A discussão sobre a “gestão temerária” evoca precedentes sombrios em outros regimes próprios de previdência social (RPPS) pelo Brasil, onde a promessa de lucros vultosos em fundos muitas vezes “podres” ou instituições de baixa liquidez acabou por comprometer o pagamento de benefícios a longo prazo.
No Amapá, o volume de R$ 400 milhões é considerado estratosférico para a realidade fiscal local, e qualquer perda real desse capital poderia exigir aportes emergenciais do Tesouro Estadual, sacrificando investimentos em saúde, educação e segurança para cobrir o déficit previdenciário gerado pelas aplicações sob suspeita.

Enquanto a perícia da PF trabalha nos dados apreendidos, o cenário político estadual aguarda os próximos passos. A oposição na Assembleia Legislativa já começa a se movimentar para exigir esclarecimentos detalhados e, possivelmente, a instalação de uma comissão para acompanhar o caso. A defesa técnica da Amprev, em ocasiões anteriores a esta operação, defendeu que as aplicações seguiam resoluções do Conselho Monetário Nacional (CMN) e que a rentabilidade apresentada justificava a escolha dos ativos.
No entanto, a liquidação do Banco Master e a subsequente necessidade de intervenção judicial para retenção de consignados desnudaram uma vulnerabilidade que a Polícia Federal agora tenta transformar em tipificação penal. O que se busca saber é se houve erro de julgamento administrativo ou se a estrutura estatal foi colocada a serviço de interesses privados, configurando o crime de gestão fraudulenta, que prevê penas severas de reclusão.

A manhã de sexta-feira encerra-se com a sensação de incerteza pairando sobre o futuro da Amprev. A Rua Binga Uchôa, embora tenha retomado seu fluxo normal de pedestres e veículos, permanece sob a sombra de uma investigação que pode redefinir os parâmetros de controle sobre o dinheiro público no Amapá. A expectativa agora gira em torno do depoimento de Jocildo Lemos e de outros diretores da autarquia, que deverão explicar as razões técnicas que os levaram a concentrar tamanho patrimônio em uma instituição que acabou colapsando.
A história do Banco Master e sua relação com fundos de previdência estaduais e municipais é um capítulo longo e tortuoso da crônica financeira brasileira, e o Amapá, ao que tudo indica, acaba de se tornar um de seus parágrafos mais dramáticos. O desfecho desta operação poderá não apenas punir eventuais culpados, mas também forçar uma reforma profunda nos mecanismos de transparência e governança do fundo de pensão dos servidores amapaenses, garantindo que o direito à aposentadoria não seja jogado à sorte no cassino das letras financeiras.

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