Com o afastamento da cúpula do PSD, Dalua torna-se o símbolo de uma gestão sob intervenção judicial. O tabuleiro político de Macapá acaba de ser resetado.
No centro de uma tempestade política que paralisou o Poder Executivo da capital amapaense, o vereador Pedro Dalua (União), presidente da Câmara Municipal, viu sua rotina ser interrompida por agentes da Polícia Federal. O rito foi breve, mas as consequências são sísmicas: com o afastamento imediato do prefeito Antônio Furlan (PSD) e do vice-prefeito Mário Neto, Dalua assumiu interinamente o comando da prefeitura, tornando-se o símbolo de uma transição forçada por uma ordem vinda diretamente do Supremo Tribunal Federal (STF).

O cenário na sede do Legislativo municipal era de um frenesi contido. Enquanto segurava a cópia do processo que detalha as razões do afastamento da cúpula municipal, Dalua buscou projetar uma imagem de serenidade institucional. Em um gesto de pacificação, reuniu no mesmo ambiente vereadores da base governista e da oposição, ciente de que a governabilidade de Macapá, nos próximos 60 dias, dependerá de um equilíbrio frágil. A movimentação política também exigiu ajustes internos na Casa de Leis: com a subida de Dalua ao Palácio Laurindo Banha, a vereadora Margleide Alfaia (PDT) foi anunciada para assumir a presidência da Câmara, mantendo a engrenagem legislativa em funcionamento enquanto o titular ocupa a cadeira de prefeito.

As palavras de Dalua, logo após o encontro com os agentes federais, foram marcadas pela cautela típica de quem pisa em terreno minado. “Vamos primeiro tomar pé da situação”, afirmou, evitando adentrar no mérito das acusações que pesam sobre seu antecessor. O segredo de justiça que envolve a segunda fase da Operação Paroxismo serviu como um escudo conveniente para o prefeito interino, que preferiu focar na promessa de uma transição técnica. A prioridade imediata, segundo ele, é reunir-se com o secretariado remanescente para garantir que os serviços essenciais à população não sofram descontinuidade em meio ao vácuo de poder deixado pela operação.

A crise que alçou Dalua ao cargo tem raízes em suspeitas graves que ecoam nos tribunais de Brasília. A ordem de afastamento, assinada pelo ministro Flávio Dino, atinge não apenas os chefes do Executivo, mas o coração da administração municipal. Estão sob investigação supostos esquemas de direcionamento de licitação e corrupção ativa nas obras do Hospital Municipal de Macapá, localizado na zona norte. A estrutura, que deveria ser um marco na gestão de Furlan, tornou-se o epicentro de uma investigação que aponta o desvio de recursos públicos para beneficiar empreiteiras em detrimento da transparência administrativa. Junto com o prefeito, foram removidos de seus postos a secretária municipal de Saúde, Érica Aymoré, e servidores estratégicos do setor de licitações.

Para a sociedade macapaense, a ascensão de Pedro Dalua representa um momento de profunda incerteza. Furlan, um prefeito que construiu sua popularidade na base de entregas rápidas e presença constante nas redes sociais, vê sua gestão ser posta sob suspeita pela Polícia Federal em um momento de fragilidade para sua coligação. Dalua, por sua vez, assume o desafio de administrar uma cidade sob intervenção indireta do Judiciário, onde cada contrato e cada nomeação serão vigiados com lupas federais. O discurso de “informar a sociedade com mais propriedade” após a reunião com a equipe técnica sinaliza uma tentativa de distanciar a prefeitura da imagem de balcão de negócios descrita nos relatórios da Operação Paroxismo.

Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
