Em agência bancária de Macapá, o empresário Rodrigo Moreira, da Santa Rita Engenharia, realiza uma das 42 retiradas em espécie identificadas pela Polícia Federal. Segundo o relatório da Operação Paroxismo, o dinheiro, que deveria financiar as obras do Hospital Geral Municipal, era sacado logo após os repasses da prefeitura e saía do circuito bancário sem deixar rastros de pagamentos a fornecedores
Sob a superfície de uma gestão que se vendia pela eficiência das entregas, um minucioso relatório da Polícia Federal, desdobramento da Operação Paroxismo, descreve o que os investigadores chamam de um esquema de corrupção estrutural, operado a partir do gabinete principal e ramificado pelas veias vitais da administração municipal: as secretarias de Obras e Infraestrutura Urbana e de Finanças. O impacto das revelações surpreendeu pela desfaçatez dos supostos envolvidos, culminando no afastamento do prefeito Antônio Furlan (PSD) e jogando luz sobre os porões de um modelo de governança que, segundo o olhar atento dos federais, confundiu o patrimônio público com o balcão de negócios privados.

No centro dessa engrenagem de desvios, destaca-se uma obra que deveria ser o símbolo da redenção do sistema de saúde macapaense: o Hospital Geral e Maternidade Municipal (HGM). Orçado em R$ 69 milhões, o projeto prometia 155 novos leitos para desafogar uma rede historicamente saturada, oferecendo dignidade a milhares de famílias amapaenses. No entanto, o canteiro de obras, em vez de cura, tornou-se o epicentro de um escândalo que assombra pela voracidade. Onde deveriam estar sendo assentados tijolos e instalados equipamentos de suporte à vida, a Polícia Federal enxergou o escoamento de vultosas somas destinadas a alimentar o que o jargão policial classifica como crimes de colarinho branco, em uma escala que desafia a lógica da prestação de contas.

A peça acusatória, um volumoso documento que reconstrói o caminho do dinheiro, foca na atuação da Santa Rita Engenharia Ltda., de propriedade do engenheiro civil Rodrigo de Queiroz Moreira. A análise financeira realizada pelos agentes revela um padrão de saques em espécie que, pela frequência e volume, foge a qualquer racionalidade empresarial legítima. Entre janeiro de 2023 e setembro de 2024, foram contabilizados 42 saques realizados por Moreira, somando R$ 7.427.800,00. Paralelamente, seu sócio na empreiteira, Fabrizio de Almeida Gonçalves, realizou outros 17 saques, totalizando R$ 2.465.000,00. O que chama a atenção dos investigadores não é apenas a cifra que beira os R$ 10 milhões, mas a precisão cronológica dessas operações: o dinheiro saía das contas da empresa quase imediatamente após os repasses feitos pela prefeitura.

O relatório assinala com clareza que esses recursos, uma vez retirados “na boca do caixa”, sumiam do radar do sistema financeiro nacional. Não eram reinseridos no circuito bancário nem utilizados para o pagamento de fornecedores ou operários da obra do hospital. Para a Polícia Federal, o destino desse montante era o financiamento de um esquema de “jabaculê” destinado a manter a fidelidade e o poder de figuras centrais da gestão Furlan. A invisibilidade do dinheiro vivo, método clássico de lavagem e ocultação, é apontada como a ferramenta primordial para que o esquema operasse sem levantar suspeitas imediatas dos órgãos de controle interno, que pareciam anestesiados diante da movimentação atípica.

Mas o relatório vai além da frieza dos números e adentra o terreno do monitoramento físico, descrevendo o que os agentes chamam de “itinerário geográfico do dinheiro ilegal”. Através de diligências de campo e rastreamento, a Polícia Federal identificou indícios que ligam diretamente o então prefeito Antônio Furlan ao manuseio e transporte desses valores. O documento destaca o uso de um veículo de propriedade pessoal de Furlan para o transporte de quantias suspeitas e aponta o possível envolvimento de funcionários do Instituto de Medicina do Coração Ltda., uma pessoa jurídica vinculada ao chefe do Executivo. Esse elo entre a vida empresarial privada do prefeito e a gestão de recursos da obra pública é o que sustenta a tese de que Moreira e Gonçalves estariam mancomunados com o mandatário no desvio de quase 15% do valor total do contrato do HGM.

A queda de Furlan, um político que se notabilizou pela onipresença nas redes sociais e por uma retórica de modernização urbana, expõe o contraste entre o marketing da gestão e a realidade descrita nos autos. Enquanto a propaganda oficial celebrava o avanço das obras, o monitoramento federal sugeria que parte do concreto ali empregado servia apenas de fachada para uma drenagem sistemática de recursos públicos. O sentimento na capital amapaense é de perplexidade, não apenas pelo valor desviado, mas pela natureza da obra atingida. Desviar recursos de uma maternidade, em uma região onde a mortalidade infantil e as carências de saúde são feridas abertas, confere ao escândalo uma carga ética que transcende o jurídico.

O afastamento do cargo é apenas o primeiro capítulo de um processo que promete novos desdobramentos nas secretarias de Obras e Finanças, onde o relatório sugere a existência de uma rede de apoio técnico para validar as medições da obra que permitiam os pagamentos à Santa Rita Engenharia. A defesa dos citados nega irregularidades e aposta na contestação das provas colhidas, mas a densidade do relatório da PF, calcada em quebras de sigilo bancário e vigilância direta, coloca a gestão Furlan em uma encruzilhada histórica. Macapá assiste agora ao desenrolar de uma trama onde a engenharia financeira parece ter sido muito mais sofisticada do que a engenharia civil aplicada no canteiro de obras do sonhado Hospital Municipal.

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