Entre o palanque e o processo, o ex-prefeito de Macapá escolheu a retirada estratégica antes que as provas da Polícia Federal selassem seu destino jurídico
Em uma manhã de quinta-feira marcada pelo céu carregado sobre o rio Amazonas, o médico Antônio Furlan (PSD) encerrou de forma abrupta um ciclo político que, embora vitorioso nas urnas, definhou sob o peso de sucessivas incursões policiais. Ao protocolar sua carta de renúncia ao cargo de prefeito de Macapá, na manhã de 5 de março de 2026, Furlan não apenas antecipou a desincompatibilização para viabilizar uma pré-candidatura ao governo do Amapá, mas buscou uma saída de emergência para um mandato sitiado por graves denúncias.

Acossado por cinco operações da Polícia Federal desde que passou a ocupar o Palácio Laurindo Banha, em janeiro de 2021, o agora ex-prefeito deixa o cargo no momento em que as investigações sobre um suposto esquema de corrupção na construção do Hospital Geral e Maternidade Municipal (HGM) atingem seu ponto de ebulição. A queda, precipitada por um afastamento temporário determinado pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da Operação Paroxismo, redesenha o cenário político no Amapá e coloca sob suspeita o modelo de gestão que, até então, ostentava altos índices de aprovação popular baseados em um intenso cronograma de obras de pavimentação e construção de pracinhas.

A narrativa de Furlan, acompanhado pela esposa e ex-secretária Rayssa Furlan, sustenta-se no pilar da perseguição política — um roteiro clássico de defesa que ganha contornos de drama regional. Para o ex-prefeito, as investidas do Judiciário e da PF seriam peças de uma engrenagem montada por adversários para frear sua ascensão ao Palácio do Setentrião. No entanto, o relatório da Polícia Federal, que ecoou nos principais veículos de imprensa do país, detalha um enredo menos ideológico e mais contábil.

No centro do escândalo maior está a licitação de R$ 69 milhões para o HGM, onde a empreiteira Santa Rita Engenharia Ltda., pertencente aos empresários Rodrigo Monteiro e Fabrizio Gonçalves, figuraria como peça-chave de uma suposta parceria criminosa. Os investigadores apontam indícios de fraudes licitatórias, formação de quadrilha e malversação de recursos públicos que, segundo o material colhido em mandados de busca e apreensão, extrapolam a mera irregularidade administrativa para configurar um esquema estruturado de desvio de dinheiro público.

Observadores da política amapaense avaliam que a renúncia, embora travestida de estratégia eleitoral, é um movimento de autoproteção. O temor de que provas robustas em posse dos agentes federais pudessem levar a um desfecho ainda mais devastador, como uma prisão preventiva ou a inelegibilidade precoce, teria pesado na decisão de abandonar o mandato meses antes do prazo legal para desincompatibilização. Ao deixar o cargo, Furlan entrega o comando da capital ao presidente da Câmara de Vereadores, Pedro Dalua, mas carrega consigo o estigma de uma gestão marcada por batidas policiais ao amanhecer e apreensões de dispositivos eletrônicos. O contraste é nítido: enquanto as redes sociais do ex-prefeito exibiam inaugurações de praças e vias asfaltadas sob o bordão de “trabalho que não para”, os inquéritos da PF desenhavam uma administração onde a celeridade das obras servia, em tese, para camuflar o escoamento de dividendos ilícitos para o entorno do gabinete municipal.

A Operação Paroxismo, que culminou no seu afastamento, é o ápice de uma sequência de operações que fustigaram o primeiro e o início do segundo mandato de Furlan. Desde 2021, a Polícia Federal mirou diferentes secretarias, investigando desde a compra de insumos hospitalares durante a pandemia até contratos de manutenção urbana. A insistência das diligências sugere que os investigadores encontraram um fio condutor que une diferentes setores da prefeitura a um núcleo empresarial específico.
O envolvimento da ex-primeira-dama Rayssa Furlan nas investigações adiciona um componente familiar à crise, fragilizando a imagem de “casal dinâmico” que o PSD local planeja projetar para o estado. A defesa do casal nega veementemente as acusações, classificando as operações como uma tentativa de “golpe institucional” contra um prefeito que desafiou as oligarquias tradicionais do Amapá.
“Tremenda balela”, afirmam, em uníssono, especialistas consultados pela reportagem do portal AMAZÔNIA VIA AMAPÁ. A saída de Antônio Furlan da prefeitura, sob o manto de uma suposta perseguição, é vista por analistas não como um ato de resistência, mas como o desfecho previsível de um modelo de gestão baseado na estética em detrimento da ética pública.

Para o sociólogo Rubem Pontes, Furlan refinou um método de governança que prioriza o impacto visual e a gratificação imediata, elementos que compõem o que ele define como uma “vitrine de ilusões”.
“Antônio Furlan é um mestre na arte do engodo. Ele compreende a psicologia das massas e sabe exatamente como bajular o povo, pulverizando o erário em festanças de grande apelo popular e obras de visibilidade instantânea — o chamado ‘asfalto eleitoral’ que, embora mude a cara da rua, não altera a estrutura da desigualdade”, pontua Pontes.

O especialista ressalta que essa estratégia é potencializada por uma máquina de comunicação digital agressiva e onipresente. Ao manobrar as redes sociais com precisão cirúrgica, o ex-prefeito teria conseguido projetar a imagem de um administrador moderno e incansável, sempre “antenado” com as aspirações da população, enquanto, nos bastidores, os contratos com empreiteiras como a Santa Rita Engenharia teciam uma rede de interesses agora sob a lupa da Polícia Federal.
A defesa do casal Furlan nega veementemente as acusações, classificando as operações como uma tentativa de “golpe institucional” contra um prefeito que desafiou as oligarquias tradicionais do Amapá.”É um enganador nato”, dispara o sociólogo, argumentando que a “hiper-exposição” de pequenas entregas serviu como uma cortina de fumaça para a ausência de transparência em projetos vultosos, como o Hospital Geral Municipal. Para os críticos, o “estilo Furlan” de governar — entre selfies e canteiros de obras — nada mais é do que um populismo digital que tenta substituir o rigor da fiscalização pelo engajamento de seguidores, transformando a gestão pública em um espetáculo contínuo de autopromoção.

No entanto, o rigor técnico do relatório federal, que menciona o uso de empresas de fachada e triangulações financeiras, torna o argumento da perseguição política difícil de sustentar perante os tribunais superiores. A decisão de Flávio Dino de autorizar o afastamento, baseada em farto material probatório, indica que o STF enxerga riscos reais à instrução processual caso Furlan permanecesse no controle da máquina pública.
Com a saída de cena do prefeito, Macapá entra em um período de incerteza administrativa, enquanto o cenário estadual se incendeia. A renúncia de Antônio Furlan é, simultaneamente, o fim de uma era na capital e o início de uma batalha jurídica e política que definirá se seu destino será o governo do Estado ou o banco dos réus. A história política do Amapá, acostumada a reviravoltas dramáticas, ganha agora um capítulo onde o estetoscópio do médico-prefeito foi substituído pelo rigor do Código Penal, deixando uma cidade dividida entre a memória das obras e a sombra da corrupção.

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