De 66% para 55%: A vantagem absoluta de Furlan começa a sofrer a erosão do cenário jurídico adverso
O ex-prefeito de Macapá, Antônio Furlan (PSD), registrou uma queda de dez pontos percentuais nas intenções de voto para o Governo do Amapá em levantamento do Instituto Véritas divulgado no domingo (22), após a operação da Polícia Federal que culminou em sua renúncia e afastamento do cargo. A pesquisa, registrada no Tribunal Regional Eleitoral (TRE-AP) e realizada entre os dias 17 e 19 de março, aponta que Furlan agora detém 55% das intenções na estimulada, contra 39% do governador Clécio Luís (União), evidenciando um estreitamento da vantagem que chegava a 41 pontos em sondagens anteriores feitas pelo Instituto Paraná Pesquisas. O recuo é o primeiro reflexo numérico do impacto da crise política e jurídica que alterou o tabuleiro político amapaense nas últimas semanas e forçou uma mudança drástica na estratégia de defesa do ex-gestor da capital amapaense.



A cena política do Amapá, propensa a reviravoltas que lembram as variações das marés do Rio Amazonas, atravessa um momento de intensidade rara. O quadro que aparentava oferecer estabilidade quase absoluta ao grupo de Antônio Furlan foi abalado pelos mandados de busca e apreensão da Polícia Federal, episódio que não só prejudicou a imagem da autodenominada “gestão que faz”, como também levou o então prefeito à medida drástica de renunciar ao cargo para mitigar desdobramentos jurídicos potencialmente mais graves. Antes, o ex-prefeito ostentava 66% de aprovação popular — percentual que ele costumava exibir em suas redes sociais —; já a pesquisa mais recente do Véritas indica que a “estratégia de saída” pode ter contido a perda, mas não evitou a primeira marca significativa em sua popularidade.


No detalhamento dos números, a pesquisa espontânea, aquela que mede a lembrança imediata do eleitor sem a apresentação de nomes, mostra Furlan com 38% e Clécio Luís com 26%. O dado mais relevante aqui, contudo, é o exército de silenciosos: indecisos, brancos e nulos somam 37%, um grupo de leitores e eleitoras que aguarda o desenrolar das investigações para definir o tom do voto em outubro. Quando os nomes são apresentados, a polarização se cristaliza. Furlan mantém a liderança, mas vê Clécio Luís encostar em um patamar de 39%, surfando em uma aprovação administrativa que resiste às intempéries políticas. Segundo o Véritas, 66% dos amapaenses aprovam a maneira de Clécio administrar, um capital político valioso em um momento de incerteza institucional.

O perfil da amostra revela um Amapá em busca de respostas. Com 800 entrevistados, a pesquisa reflete um eleitorado majoritariamente jovem — entre 25 e 44 anos — e de baixa renda, com famílias que ganham até dois salários mínimos. É nessa base da pirâmide socioeconômica que a disputa se torna mais acirrada. Para esse eleitor, as notícias de operações policiais disputam espaço com a avaliação da merenda escolar e do asfalto na porta de casa. A divisão é nítida: enquanto 29% consideram a gestão estadual “boa” e 18% “ótima”, o grupo dos que avaliam o governo como “regular” soma 38%, indicando que há um campo vasto para crescimento ou desgaste de ambos os lados.

No cenário para o Senado, a força do “furlanismo” ainda demonstra fôlego, personificada em Rayssa Furlan. Ela lidera as intenções de primeiro e segundo voto com 60%, seguida pelo senador Randolfe Rodrigues, que aparece com 46%. O resultado indica que, apesar do abalo na imagem do cabeça do grupo, a rede de alianças e o carisma familiar ainda funcionam como um anteparo importante contra a erosão eleitoral imediata. No entanto, o alto índice de nulos e indecisos para o Senado sugere que o eleitor amapaense está processando as informações a conta-gotas, tratando cada fato novo da Polícia Federal como um capítulo de uma novela que ainda não tem data para o grand finale.
A metodologia do Instituto Véritas, que utilizou o Recrutamento Digital Aleatório e estratificação baseada nos dados do IBGE 2022, traz uma margem de erro de 3%, o que coloca a disputa em um patamar de observação crítica. A renúncia de Furlan, apresentada por seus aliados como um “gesto de sacrifício jurídico”, é lida pelos adversários como uma confissão de fragilidade. O que a pesquisa de domingo revela é que o eleitor não é indiferente ao noticiário policial. A queda de 10 pontos em uma semana é um sinal de alerta para o PSD, que agora precisa reconstruir a narrativa de Furlan não mais como o prefeito realizador, mas como o candidato que luta contra o que classifica como perseguição.

O tabuleiro de 2026 no Amapá, portanto, entra em uma fase de guerra de trincheiras. Clécio Luís, com sua aprovação sólida, aposta na continuidade e na estabilidade. Antônio Furlan, agora sem a caneta de prefeito e sob o escrutínio das autoridades federais, tenta manter o favoritismo enquanto lida com o desgaste da imagem. O “meio do mundo” assiste a um duelo onde o peso da justiça começou a alterar a balança das urnas, e os dez pontos perdidos podem ser apenas o começo de uma reconfiguração profunda na geopolítica do extremo norte brasileiro.

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