Manifesto sociológico de Dorival Santos (foto) afirma que a derrota acachapante de Clécio nas urnas foi provocada pela insuportável arrogância política, pelo isolamento dos gabinetes climatizados e pelo completo descompasso entre obras e diálogo popular
Uma contundente análise sobre as engrenagens que levaram à derrota acachapante do governador Clécio Luís (União Brasil) nas urnas sacudiu o cenário político do Amapá e expôs as vísceras de um modelo de poder que naufragou na própria autossuficiência. O diagnóstico partiu de dentro da própria máquina: o professor Dorival Santos, conhecido publicamente como Professor Ney, que presidiu o Instituto de Extensão, Assistência e Desenvolvimento Rural do Amapá (RURAP) entre 2023 e 2025, publicou um manifesto sociológico e político em suas redes sociais dissecando as razões pelas quais a gestão estadual desmoronou eleitoralmente, a despeito de apresentar um portentoso rol de obras e números técnicos vistosos. O texto, que rapidamente passou a circular em gabinetes, diretórios partidários e lideranças comunitárias, transformou-se no mais implacável inventário de um governo que, segundo o ex-auxiliar, sucumbiu à “síndrome da arrogância política”.

Na abertura de sua reflexão, Santos sintetiza a contradição brutal que selou o destino do palácio governamental com uma metáfora afiada: o monumento das entregas erguido sobre as ruínas da política. Para o ex-presidente do RURAP, o fracasso nas urnas não significou uma rejeição aos números administrativos em si, mas comprovou que, quando a capacidade executiva se dissocia por completo da interlocução humana e social, nenhum relatório pomposo é capaz de sensibilizar eleitores ou converter votos. A pesquisa de opinião às vésperas do pleito já denunciava esse descompasso aterrador, registrando que 56% do eleitorado amapaense desaprovava o governo, ao mesmo tempo em que a propaganda oficial alardeava com ufanismo o cumprimento de 91,1% das metas planejadas. Havia engenharia de sobra, mas escassez absoluta de alma pública.


Ao afastar qualquer suspeita de ressentimento pessoal, Santos fez questão de registrar que escreveu o ensaio movido por um profundo sentimento de tristeza. A sua inquietação primordial aborda o enigma que desafiou analistas locais: como uma administração dona de realizações tangíveis — 43 escolas públicas reformadas, 1,5 mil habitações populares e um moderno hospital de urgência com obras superiores a 90% de conclusão — foi incapaz de converter tijolos e asfalto em capital político duradouro? A resposta reside em uma falha de DNA, em que a eficiência burocrática foi sufocada pela arrogância de um círculo restrito de “iluminados”. Trancado em gabinetes climatizados e hermeticamente fechados a concessões, esse grupo de tecnocratas tomava decisões sem diálogo, impondo diretrizes de cima para baixo como se à sociedade restasse apenas o papel de plateia passiva.

Essa postura de superioridade, conforme descreve a análise, contaminou a relação com a própria base aliada. Líderes partidários, prefeitos e parlamentares que compunham a sustentação formal da gestão foram rebaixados à condição de instrumentos descartáveis, nunca tratados como parceiros legítimos de projeto. Suas demandas básicas eram negligenciadas e sua presença em atos oficiais era apenas tolerada para compor fotografia. O resultado foi uma blindagem meramente estatística: embora 15 dos 16 prefeitos do estado tenham subido no palanque governista por conveniências circunstanciais, o arranjo revelou-se uma casca oca no dia da votação. Quando quem está no front da rua é visto como simples “cabeça de lista” e não como sócio da governança, a máquina partidária perde o fôlego e o ímpeto de convencimento no instante mais crítico da disputa.

O isolamento palaciano se reproduziu com ainda maior ferocidade diante dos movimentos sociais. O governo Clécio adquiriu feições de fortaleza encastelada, rompendo as pontes históricas que outrora conectavam o grupo aos sindicatos, às associações comunitárias e aos setores produtivos organizados. O ensaio expõe um sarcasmo institucional cruel: a Secretaria de Participação e Mobilização Social, concebida para oxigenar o contato com as ruas, esvaziou-se de qualquer debate programático e degradou-se em um balcão burocrático de controle patrimonialista, voltado à fiscalização de nomeações, exonerações de cargos comissionados e distribuição de contratos administrativos. Discursos de palanque que apontavam o ato de escutar como centro do desenvolvimento revelaram-se rituais vazios, enquanto o poder real permanecia inacessível.

Em paralelo à paralisia do diálogo social, instalou-se na engrenagem estadual um ambiente paranoico e policialesco. Frações relevantes de tempo e energia do núcleo central foram drenadas para bisbilhotar corredores, rastrear declarações em redes sociais e vigiar a fidelidade de colaboradores próximos com base em intrigas palacianas e relatórios apócrifos. A caça a supostos traidores culminou no expurgo sumário de apoiadores leais e históricos, atirados compulsoriamente nos braços da oposição, enquanto figuras de conduta duvidosa e oportunistas de ocasião transitavam imunes e prestigiados pela antessala do poder. Ao priorizar a perseguição à dissidência interna em vez da semeadura política externa, a gestão acionou um processo de autodestruição silenciosa que corroeu a confiança de sua tropa.

O último e talvez mais desastroso elo dessa cadeia de equívocos repousou na estratégia de comunicação do Executivo. A narrativa palaciana limitou-se a fazer publicidade convencional, amorfa, desprovida de paixão e emoção, comportando-se como um mero transmissor mecânico de feitos burocráticos. Nas palavras do ex-diretor, tratou-se de uma equipe que agia a reboque do adversário, reagindo aos sobressaltos da opinião pública sem imaginação, por vezes mimetizando a retórica da oposição de forma descuidada e grotesca. Ao tentar combater o cansaço do cidadão comum com apresentações gráficas e gráficos de desempenho, o governo ignorou a dor concreta da rotina. A propaganda insistia nos tais 91,1% de eficiência, mas o que determinou o humor do amapaense nas cabines de votação foi o desconforto persistente nas filas hospitalares e o fantasma da suspeição que rondava a conduta governamental.

A reflexão ganha contornos históricos ao estabelecer um paralelo com a derrota sofrida em 2014 pela gestão de Camilo Capiberibe, afirmando que os governantes atuais conseguiram a proeza de repetir aqueles mesmos tropeços elevados à décima potência. Naquela quadra pretérita, o ex-governador ao menos demonstrava um vestígio de autocrítica ao reconhecer publicamente que talvez não tivesse conseguido explicar os fatos à sociedade; agora, sequer essa réstia de lucidez e humildade sobreviveu. Para o analista, o episódio não marcou a derrocada isolada de um homem público ou de uma sigla partidária, mas sim o colapso definitivo de um “sistema operacional” de governar que só sabia emitir comandos, gerir planilhas e cortar fitas inaugurais, esquecendo-se da arte fundamental de ouvir, compreender e criar laços de empatia com a população que jurou representar.

O desfecho do ensaio ressoa como um alerta que ultrapassa o resultado imediato das urnas e atinge o próprio futuro do Amapá. O ex-titular da autarquia rural sublinha que o verdadeiro perigo dessa derrocada política é o risco de retrocesso no avanço de políticas estruturantes destinadas a promover a justiça social, a sustentabilidade ambiental e o crescimento econômico equilibrado. Quando a vaidade administrativa asfixia a sensibilidade comunitária, o custo mais elevado não recai apenas sobre os ocupantes dos cargos palacianos, mas sobre a população mais vulnerável, que vê a promessa de transformação sucumbir diante da frieza dos gabinetes e do distanciamento das lideranças políticas.

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