A entrega da Amazônia, a divisão do território e o depósito de lixo

Acordo entre governo e empresa de gestão de resíduos é a materialização da confluência de interesses privados e da apropriação de vítimas — Na imagem, vista aérea de um trecho da Floresta Amazônica no Pará — Foto: Bruno Cecim/Agência Pará – 10.jun.2021



Quem entende alguma coisa sobre a máfia sabe que lixo é com ela mesma – refiro-me a lixo de forma literal, mais especificamente o “descarte de resíduos”. Essa indústria tem sido historicamente uma espécie de monopólio do crime em regiões completamente díspares, dos Estados Unidos à Sicília (Itália).
Existem 1.000 explicações para essa curiosa relação entre a bandidagem e a “gestão de dejetos”, e uma das menos cogitadas é também uma das mais vantajosas: um governo que concede o direito de descarte de resíduos a uma associação criminosa pode se valer dela quando precisa desovar algo inconveniente.

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Um desses dejetos inconvenientes foi Jack Wheeler, oficial do governo norte-americano por mais de 4 décadas, veterano da guerra do Vietnã, funcionário do Pentágono, e assessor dos presidentes George Bush (pai) e Ronald Reagan. Jack foi morto em circunstâncias até hoje não desvendadas. Nos dias que antecederam seu assassinato, ele foi considerado pela polícia uma pessoa “desequilibrada” , mas tudo indica que ele tinha razão para seu medo e seus movimentos estranhos.
Sua última aparição em vida foi num trem a caminho de Washington D.C., mas sua reaparição em morte foi num depósito de lixo em Delaware. Delaware é o Estado que manteve Joe Biden no poder por décadas, e que vem servindo bilionários e empresas norte-americanas como paraíso fiscal doméstico, uma espécie de Ilhas Cayman portátil. Aqui neste link, um ranking de sigilo fiscal de 2009 mostra Delaware acima de Luxemburgo, Suíça e das próprias Ilhas Cayman no quesito “opacidade financeira”.


Voltando à gestão de dejetos, essa é uma das indústrias que mais se vale da simbiose entre a política e o crime. Serei chamada de cínica por essa obviedade, mas até isso serve como informação, porque é mais um exemplo da corrupção da linguagem e do real significado das coisas: pensamento crítico e vivência foram transformados em cinismo, e eu sou a estraga-festa do consenso de ingênuos. Não me incomoda em nada a pecha de cínica. Em geral, a recebo como elogio. A ingenuidade só é fofinha em crianças pequenas; em adulto, é repugnante.

Quando morei no Líbano, ouvi de algumas pessoas uma história que tenho razões para acreditar, porque uma das fontes teria sido testemunha ocular e silenciosa do esquema que, ele mesmo admitia, o envergonhava muito. O que se dizia é que uma das facções na guerra civil ofereceu seu território como depósito de lixo tóxico europeu em troca de armamentos. Era fácil manter o esquema sob sigilo porque o território tinha acesso ao mar. Mas, acima de tudo, o sigilo daquela operação suja era garantido porque o país estava dividido em cantões de inimigos mortais, todos armados.

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A animosidade religiosa que dividiu o território libanês era o fator que mais protegia aquela violência ambiental, um crime de lesa-pátria de efeito longo e devastador. O crime estava blindado do escrutínio externo porque a área era protegida por armas, e nenhum adversário podia adentrar a região; mas ela estava protegida também dos “amigos” e de toda crítica interna, porque os libaneses estavam em guerra, e qualquer denúncia ao esquema seria considerada traição à causa/religião/independência –insira aí o que for mais persuasivo para manter o rebanho coeso e controlado pelo medo recíproco.
Por falar em divisão de território e lixo tóxico, o governo Lula assinou um acordo de uma área na Amazônia com tamanho equivalente à junção dos territórios de França e Itália para a multinacional Ambipar. Essa empresa trabalha em vários ramos, incluindo “waste management” ou “gestão de dejetos”.

(Aproveito a menção a Davos para recomendar este divertido vídeo dos jornalistas da Rebel News tentando em vão arrancar uma resposta de Larry Fink, CEO da BlackRock, durante sua participação no Fórum Econômico Mundial).


Aqui está o artigo da Veja, para quem quiser ler o comunicado oficial da empresa. Diferentemente de outros artigos na revista, esse é de acesso livre, e não requer login ou assinatura. E aqui está o press release original, publicado no PR Newswire.
A concessão de território indígena rico em minérios e com a maior diversidade biológica do mundo está sendo chamada pela imprensa oficial de “parceria” , mas fora das redações até jornalistas admitem que o acordo tem todo o jeito de ser do tipo “caracu” –a Ambipar entra com a cara, e o Brasil entra com… Deixa para lá.
Lula, transformado por agências de publicidade em Pai dos Pobres, foi um sindicalista suspeito de ter trabalhado como pelego das montadoras e informante da polícia durante a ditadura, como conto aqui neste artigo com as devidas fontes. A área que ele concedeu para a custódia da multinacional equivale a 14% do território brasileiro. Segundo o press release publicado de forma idêntica por vários veículos:
“A Ambipar, multinacional brasileira especializada em soluções ambientais, e o Ministério dos Povos Indígenas firmaram em Davos (Suíça) um protocolo de intenções voltado às emergências climáticas e à sustentabilidade. A iniciativa vai beneficiar uma área de 1 milhão de km² de territórios dos povos originários, o que equivale a quase 14% do território brasileiro e às somas das áreas de França e Inglaterra.
“A iniciativa atende ao espírito do ODS 18 (Objetivo de Desenvolvimento Sustentável) para a Igualdade Étnico-Racial, anunciada em setembro de 2023 pela ONU (Organização das Nações Unidas). A parceria foi firmada por Tercio Borlenghi Jr., presidente da Ambipar, e o secretário-executivo do Ministério dos Povos Indígenas, Eloy Terena”.

Na imagem acima, da esquerda para a direita: Tercio Borlenghi Jr. (presidente da Ambipar), Eloy Terena (secretário-executivo do Ministério dos Povos Indígenas) e a advogada Marina Blattner — Foto: Divulgação

Eloy Terena é o homem que aparece na foto acima com um adereço indígena e não se engane, não é fantasia de Halloween: é a materialização da confluência de interesses privados e da apropriação de vítimas como aqueles pobres coitados nas obras do Naguib Mahfouz, que tinham os braços cortados para arrecadar mais esmola durante a mendigagem. Este artigo vai continuar na semana que vem, se eu continuar também.
Bom final de semana a todos.

* Jornalista, escritora e tem mestrado em ciências políticas e estudos do Oriente Médio pela Universidade Americana de Beirute. É autora do livro de ficção “Eudemonia” e do de não-ficção “Spies”. Foi correspondente no Oriente Médio para o SBT e Radio France e foi colunista de política dos jornais Folha de S.Paulo e Estado de S. Paulo.

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