Primeiro papa jesuíta e latino-americano da história, ele conduziu a Igreja Católica em um período de grandes transformações
A morte do Papa Francisco, aos 88 anos, na segunda-feira, 21 de abril, marca o início de um momento crucial para a Igreja Católica, conhecido como “Sé Vacante”. Após 12 anos de pontificado, o falecimento do líder religioso desencadeia uma série de ritos fúnebres e os preparativos para a escolha de seu sucessor, em um processo que une tradição milenar e normas atualizadas pelo próprio Francisco. O Vaticano, agora sob administração temporária, se mobiliza para o velório do pontífice e a eleição do novo papa, em um período que atrai os olhos do mundo.

O funeral de Francisco seguirá as diretrizes da “Ordem das Exéquias do Sumo Pontífice”, revisada pelo papa em abril de 2024. Após a confirmação do óbito pelo camerlengo, cardeal Kevin Joseph Farrell, que chamará o papa pelo nome três vezes, o “Anel do Pescador” será retirado e destruído, simbolizando o fim do papado. O corpo de Francisco será colocado em um caixão simples de madeira revestida por zinco, conforme sua vontade de abolir a tradição de três urnas (cipreste, chumbo e carvalho).
Diferentemente de seus predecessores, o velório ocorrerá diretamente na Basílica de São Pedro, sem passagem pelo Palácio Apostólico. O corpo será exposto em um caixão aberto, sem o uso de um esquife elevado, para visitação dos fiéis. O enterro está previsto para ocorrer entre quatro e seis dias após a morte, na Basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma, atendendo ao desejo de Francisco de descansar fora da Basílica de São Pedro. Durante nove dias, as missas dos “novendiales” marcarão o luto oficial, com orações pela alma do pontífice.

A transição de poder
Durante a Sé Vacante, a Igreja Católica opera sob um governo interino liderado pelo camerlengo, cardeal Kevin Joseph Farrell. Ele assume a administração dos bens e do Tesouro do Vaticano, organiza os ritos fúnebres e prepara o Conclave, que elegerá o novo papa. A maioria dos cargos da Cúria Romana, como o Cardeal Secretário de Estado, é suspensa, mas algumas funções essenciais, como a do Penitenciário-Mor e do Cardeal Vigário-Geral de Roma, permanecem ativas.
O Colégio dos Cardeais, composto por 252 membros, incluindo oito brasileiros, também desempenha um papel central. Durante as “Congregações Gerais”, reuniões diárias que começam antes do fim dos novendiales, os cardeais decidem questões urgentes e organizam os detalhes do Conclave, como a data de início e a logística da votação.

O Conclave: A escolha do novo Papa
A eleição do novo líder da Igreja Católica começará entre 15 e 20 dias após a morte de Francisco, na Capela Sistina, onde 138 cardeais com menos de 80 anos, incluindo sete brasileiros, se reunirão. O Conclave, cujo nome deriva do latim “cum clavis” (fechado à chave), é marcado por sigilo absoluto: os cardeais ficam isolados, sem acesso a telefones, jornais ou contatos externos, para garantir a independência da votação.
As votações, até quatro por dia, são secretas, e os votos, queimados após a contagem, geram a famosa fumaça na chaminé da Capela Sistina: preta, indicando que não há papa eleito, ou branca, anunciando o novo pontífice. Para ser escolhido, um cardeal precisa de dois terços dos votos. Caso não haja consenso após 34 rodadas, os dois mais votados disputam um “segundo turno”, ainda exigindo a mesma maioria.
Quando um cardeal é eleito, ele é questionado sobre sua aceitação e escolhe seu nome papal. Vestido com as vestes papais na “Sala das Lágrimas”, o novo papa é apresentado na sacada da Basílica de São Pedro com a proclamação “Habemus Papam”, seguida pelo toque dos sinos e pela fumaça branca.

Momento de reflexão e expectativa
A morte de Francisco, um papa conhecido por sua simplicidade e reformas, deixa a Igreja Católica em um momento de reflexão. Enquanto Roma se prepara para as cerimônias fúnebres e o mundo aguarda a escolha do novo líder, o Vaticano reafirma sua capacidade de preservar tradições seculares ao mesmo tempo em que se adapta às mudanças propostas pelo próprio Francisco.
Nos próximos dias, a Basílica de São Pedro será o epicentro da despedida de um pontífice e do início de um novo capítulo para o catolicismo global.
Padres brasileiros enxergam risco no legado progressista de Francisco com escolha de papa conservador
Padres brasileiros ligados à ala do clero considerada progressista acreditam que o próximo papa será europeu e conservador se comparado ao papa Francisco.
O portal apurou que, no entendimento desse grupo, a cúpula da Igreja Católica se surpreendeu com a guinada à esquerda que o argentino Jorge Mario Bergoglio deu ao assumir o papado, em março de 2023.
Os religiosos trocaram mensagens logo depois da morte do papa Francisco para debater os rumos que a cúria romana, à luz da experiência do papado de Francisco, tentará impor a partir de agora à Igreja Católica.
“Eles não eram duas vezes”, afirma um religioso com ativa atuação no Brasil. De acordo com o mesmo padre, os cardeais agora vão votar em um papa “conservador, retrógrado, com pulso firme para trazer de volta toda a tradição da Igreja Católica”, um pontífice que “só fale do céu, do inferno e que sempre use batina”.
No dia 10 de abril, o papa Francisco apareceu de surpresa na Basílica de São Pedro sem a tradicional batina, vestindo, no lugar dela, um poncho. Ele estava em uma cadeira de rodas.
“Em 2013, quando votaram em Bergoglio, escolheram alguém que viam como um ‘bispinho’ da América Latina que na ia fazer nada. E ele surpreendeu”, segue o mesmo religioso.
O papa Francisco, diz, se colocava como o bispo de Roma, e não como um monarca clerical, “não como um ser inacessível, o centro do mundo”. Não chegou a ser um revolucionário, mas era um papa “com cheiro de ovelha, um pastor que se misturava com o seu rebanho”, segue o mesmo líder católico.
Conclave papal inicia com voto em papel e persistência na tradição milenar
Passados os nove dias de cerimônias do funeral de Francisco, que morreu aos 88 anos, atenção agora se volta para a escolha do novo papa. Apenas os cardeais com menos de 80 anos podem votar, se reunindo na Capela Sistina. A eleição é secreta e espontânea, realizada com votos em papel. Para ganhar, um candidato deve ter dois terços dos votos dos presentes.
Teoricamente, qualquer homem batizado e celibatário pode ser papa, mas a última vez que um não cardeal foi escolhido foi em 1378. O processo é completamente secreto, e os cardeais devem jurar segredo sobre as votações. A duração do conclave é indefinida e pode levar dias ou semanas. Francisco foi escolhido no segundo dia, enquanto Bento 16 também foi eleito no segundo dia após quatro votações.
Se não houver vencedor, as cédulas são queimadas, e fumaça preta é liberada pelo telhado da Capela Sistina. Fumaça branca indica que um novo papa foi escolhido, e o cardeal protodiácono faz o anúncio. O nome papal escolhido pelo novo papa é de sua preferência pessoal.
A história das eleições papais é incerta, mas desde o século 13, o processo evoluiu para o que conhecemos hoje. No século 20, as interferências externas foram totalmente eliminadas. O próximo conclave poderá ser influenciado pelas novas nomeações de cardeais feitas por Francisco, aumentando a diversidade, especialmente com mais cardeais da Ásia e da África.

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