Descaso com acessibilidade em Macapá frustra idosos que desejam participar das eleições

Enquanto a campanha presidencial intensifica a busca por eleitores idosos para combater a alta abstenção eleitoral, dezenas de cidadãos com mobilidade reduzida enfrentam escadarias monumentais e a completa falta de suporte adequado para conseguir exercer o direito democrático ao voto



O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, apelou no último domingo, na Avenida Paulista, para que eleitores com mais de 70 anos — cujo voto é facultativo — compareçam às urnas no segundo turno, buscando reverter o expressivo cenário de mais de 33,4 milhões de abstenções registradas na primeira etapa do pleito nacional. A estratégia da campanha governista, motivada pela urgência de ampliar a base de apoio entre a terceira idade, choca-se, contudo, com uma realidade estrutural restritiva que afeta cotidianamente milhares de cidadãos em todo o país. O principal obstáculo relatado por especialistas e afetados é a barreira física intransponível de prédios públicos improvisados como locais de votação, que transformam um direito constitucional em um desafio logístico cruel e excludente para quem possui limitações severas de locomoção.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

Em Macapá, essa contradição ficou evidente em zonas eleitorais tradicionais, a exemplo da décima quarta, situada fisicamente nas dependências do Centro de Educação Profissional Graziela Reis. No local, a arquitetura escolar impõe uma rotina de dezenas de degraus íngremes e sem rampas adequadas de acesso, impedindo de forma direta que idosos com mobilidade reduzida consiguem transpor a entrada para exercer sua cidadania política. Dados de órgãos de acessibilidade urbana reforçam que grande parte da infraestrutura escolar brasileira carece de reformas estruturais profundas, deixando desamparada justamente a parcela da população que mais depende de adaptações físicas para garantir sua autonomia de circulação diária nos espaços públicos.

Sociólogos e especialistas em ciência política apontam que o apelo político do chefe do Executivo federal aos septuagenários é compreensível do ponto de vista eleitoral, mas peca pela falta de articulação prévia com os órgãos responsáveis pela infraestrutura logística das eleições. Enquanto discursos inflamados ecoam em palanques na Região Sudeste prometendo mobilização popular, o eleitor vulnerável das regiões periféricas e Norte do país continua enfrentando o abandono institucional e a negligência histórica do poder público. Especialistas em direitos da pessoa idosa lembram que a acessibilidade universal é uma garantia legal prevista na Constituição Federal, o que torna inadmissível a manutenção de locais de votação que violem abertamente preceitos básicos de dignidade e inclusão social.

Do ponto de vista dos afetados, o sentimento predominante é de frustração profunda e de desrespeito à trajetória de cidadãos que construíram o país ao longo de décadas de trabalho árduo. Aposentados que desejam atender ao chamado presidencial e cumprir seu papel cívico relatam que acabam desistindo de votar ao se depararem com escadarias monumentais e a ausência absoluta de equipes de apoio ou elevadores funcionais nas escolas adaptadas. Familiares e cuidadores que acompanham esses eleitores destacam que a falta de planejamento municipal e federal penaliza duplamente o idoso, transformando um momento que deveria ser de festa democrática em uma verdadeira humilhação pública e física.

Figuras públicas e lideranças comunitárias locais têm exigido uma reformulação urgente das diretrizes operacionais adotadas pelo Tribunal Superior Eleitoral e pelos tribunais regionais para as próximas eleições gerais e municipais. A proposta central defendida por defensores dos direitos humanos é a criação obrigatória de seções exclusivas e integralmente acessíveis no térreo, voltadas especificamente para eleitores com mais de 65 anos ou com deficiência motora temporária. Para esses críticos, discursos políticos que incentivam a participação nas urnas perdem totalmente a legitimidade ética quando o próprio Estado falha em garantir o acesso físico básico aos locais de votação espalhados pelos municípios brasileiros.

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Diante do impasse instalado, resta saber se a pressão exercida pela sociedade civil e pela imprensa independente será suficiente para forçar o poder público a adotar medidas concretas antes do encerramento definitivo do atual calendário eleitoral. A superação desse abismo entre o discurso político e a realidade das ruas exige investimentos financeiros maciços, modernização de prédios escolares e uma fiscalização rigorosa por parte do Ministério Público Eleitoral em todo o território nacional. Sem essas transformações estruturais profundas, o apelo pelo voto da terceira idade continuará a soar como uma promessa vazia para milhões de brasileiros impedidos de entrar na própria democracia.


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